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Em pesquisa, pilotos dizem já ter cochilado a bordo sem querer

07 julho 2014 - 11h36Via Folha
Uma pesquisa com pilotos de companhias aéreas brasileiras aponta que 57% dos profissionais entrevistados disseram ter cochilado, sem intenção, enquanto estavam na cabine de comando.

A causa possivelmente são os turnos de trabalho, que incluem madrugadas seguidas.

O levantamento, feito por uma pesquisadora a pedido da Abrapac (Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil), ouviu 1.122 pilotos de voos domésticos entre dezembro de 2013 e março.

Foi a primeira vez que a fadiga da tripulação e a sonolência foram tratados no Brasil com essa abrangência. Há 5.966 pilotos de linha aérea no país, diz a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

As empresas aéreas não contestaram a pesquisa.

Dormir a bordo involuntariamente constitui infração na maioria das empresas. Consultadas, TAM, Gol, Azul e Avianca não informaram se já puniram alguém por isso.

Pior: o cochilo representa risco à segurança, uma vez que a atividade dos pilotos dentro da cabine, como monitorar as condições do avião e falar com o controle de tráfego aéreo, exige atenção constante.

Demonstra, também, exaustão dos pilotos, incapazes de se manter acordados.

Em voos domésticos, são dois tripulantes na cabine, o comandante e o copiloto; se um dorme, aumenta a carga de trabalho do outro.

Não intencional

Uma das responsáveis pela pesquisa, Elaine Marqueze, doutora pela USP, diz que os pilotos possivelmente cochilam porque acordam para trabalhar - ou já estão em serviço - no melhor horário para dormir: entre as 3h e as 4h.

Nessa hora, a temperatura corporal está baixa e os níveis de melatonina (hormônio do sono) elevados.

Ela já estudou o sono dos caminhoneiros e apresentará o estudo com os pilotos no Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em setembro.

Na pesquisa, os pilotos disseram trabalhar em média quatro madrugadas seguidas.

Com o Sindicato Nacional dos Aeronautas, a Abrapac defende projeto de lei, em andamento no Senado, que limita a duas o número de madrugadas consecutivas que os pilotos trabalham. O texto foi aprovado na comissão de assuntos sociais em junho, mas pode receber ajustes.

No mundo, não é totalmente proibido que um piloto cochile a bordo – de modo intencional e planejado, diferentemente do que concluiu o estudo brasileiro.

A depender da situação, a soneca chega a ser estimulada, para melhorar a atenção.

Maior autoridade mundial no setor, a Oaci (Organização de Aviação Civil Internacional, ligada à ONU) prevê o "descanso controlado", um cochilo por até 40 minutos, como maneira de atenuar o risco de fadiga dos pilotos.

Esse é o tempo que um ser humano pode descansar sem cair no sono profundo, segundo pesquisa feita nos anos 1990 pela Nasa (agência espacial americana). O cochilo proposital é capaz de deixar os pilotos mais alertas.

A regra da Oaci prevê que um dos pilotos fique acordado para o outro dormir e que o avião esteja em piloto automático e etapa de cruzeiro.

Como é comum na aviação, a norma foi resposta a acidentes em que o cansaço de pilotos foi fator contribuinte. Em maio de 2010, por exemplo, um Boeing 737-800 da Air India caiu ao tentar pousar.

A apuração concluiu que o comandante dormiu durante o voo e que a desorientação o fez errar. O acidente resultou em 158 mortos.

As autoridades de aviação civil da Europa, dos Emirados Árabes e do Canadá, entre outras, preveem o sono controlado. A norma também é endossada pela Iata (associação que reúne a maioria das empresas aéreas no mundo). O Brasil ainda não tem legislação a respeito.

Aéreas dizem controlar jornadas
Sem tratar dos cochilos, TAM e Gol disseram controlar as jornadas dos tripulantes e manter programas de gerenciamento de fadiga.

A TAM acrescentou que entre as medidas que adota está reduzir o trabalho na madrugada e folgas por dois dias seguidos. A Avianca não respondeu e a Azul indicou a Abear para falar.

A Abear diz que a pesquisa "é mais uma fonte de conhecimento técnico-científico, entre diversas, a fornecer diferentes perspectivas sobre fadiga". A entidade diz ser favorável ao debate sobre mudanças na lei do aeronauta – criou um comitê para tratar com os pilotos.

Os tripulantes brasileiros trabalham menos horas do que os dos EUA, diz a Abear.

A Anac diz auditar o sistema de gerenciamento de risco de fadiga das empresas. Afirma ainda que relatórios de prevenção e as denúncias de fadiga indicam que a implantação pelas empresas do sistema de gerenciamento de risco de fadiga tem sido eficaz para prevenir violações. E diz que, em voos internacionais, a tripulação tem três ou mais pilotos.

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