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Donizetti Vicentin

Vinho nem branco nem tinto: laranja

27 maio 2017 - 07h34

Vinhos de cor laranja estão na moda. Basicamente, são brancos com um período mais longo de contato das cascas com o suco da uva, e vão bem com peixes, frutos do mar, pratos bem temperados.



A tendência remonta aos primórdios da vitivinicultura: a técnica de produção do vinho laranja nasceu há milhares de anos em algum ponto da atual república da Geórgia. Por definição, vinho laranja é um branco produzido de forma semelhante a um tinto – ou seja, o suco da uva fica em contato com as cascas por bastante tempo. É esse contato, maior ou menor, que dá cor aos vinhos – a cor é extraída da casca. No caso do laranja, a cor tem gradações que vão do dourado ao cobre.



Além da cor, que vem da casca, grande parte desses vinhos têm influência de ânforas de barro, onde alguns deles são guardados. Essa era a forma tradicional de conservar vinhos na antiguidade. Na Geórgia, os vasos ou ânforas, chamados “qvevri”, são fechados e lacrados com cera de abelha e enterrados.

Quem chamou a atenção para essa técnica e pautou sua retomada foi o produtor italiano Josko Gravner (leia mais sobre ele abaixo), em meados dos anos 2000. De lá para cá, países do Cáucaso – onde está a Geórgia – voltaram a produzir vinhos laranja. Mas os exemplares mais conhecidos vêm da Itália (em especial do Friuli) e da Eslovênia.



A maior parte do vinho laranja é produzida segundo regras dos vinhos naturais. Ou seja: dispensam produtos químicos nos vinhedos e leveduras industriais na fermentação. Além disso, muitos não são filtrados e chegam a ser um pouco turvos, o que pode dar a falsa impressão de que são defeituosos. No copo, eles têm aromas muito diferentes dos brancos normais. Frequentemente, lembram frutos secos (laranja seca, nozes, amêndoas, damasco e ameixa seca etc.) e têm notas oxidativas ou terrosas, de especiarias, como açafrão, mel e cera. Finalmente, pelo longo período de contato das cascas com o suco, são vinhos que têm taninos em diferentes intensidades e remetem a tintos mais delicados.



Os vinhos laranja oferecem uma gama de harmonizações bem mais ampla que a dos brancos normais (e de muitos tintos).



Além de peixes e frutos do mar, encaram bem, por exemplo, comidas muito temperadas, como a indiana, a tailandesa ou certos pratos da culinária brasileira. E até mesmo carne, não só de porco ou frango, mas também de cordeiro, em pratos que normalmente pediriam um tinto.



Josko Gravner vinificava normalmente: seus vinhos eram aromáticos, límpidos e premiados. Em 1987, ele foi à Califórnia, provou mais de mil vinhos e ficou frustrado com a homogeneidade dos rótulos. Voltou a Friuli, na Itália, e concluiu que a resposta a seu inconformismo não estava no Novo Mundo, onde produzem o fermentado há poucas décadas, mas no Velho, no berço da bebida, a Geórgia. Gravner esperou o fim dos conflitos separatistas da União Soviética e, em maio de 2000, finalmente, conseguiu fazer sua primeira visita aos vinhedos georgianos. Ao provar o primeiro vinho em ânfora, teve a certeza de que esse seria seu caminho. Mercado e críticos achavam que ele tinha enlouquecido.



Nas palavras de Gravner, a ânfora funciona como um amplificador, para o bem e para o mal – ressalta qualidades, é verdade, mas também sublinha defeitos. Ou seja, uvas com algum desequilíbrio terão seus defeitos acentuados.



“Julgar um vinho pela cor é como julgar uma pessoa pela sua cor. O importante é o que está dentro”. Josko Gravner



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