Com a aproximação do Natal e do Ano Novo, o movimento das famílias é reorganizar o orçamento para as compras, confraternizações e viagens do período. A virada do ano é tradicionalmente marcada pelo aumento do consumo, impulsionado em grande parte pelo pagamento do 13º salário, que reforça o poder de compra de milhões de brasileiros e ajuda a aliviar dívidas acumuladas ao longo dos meses.
Para 2025, a projeção do Dieese é de que o benefício injete R$ 369,4 bilhões na economia, montante que representa 2,9% do PIB nacional e deve chegar ao bolso de aproximadamente 95,3 milhões de trabalhadores, aposentados e pensionistas. A Região Centro-Oeste, onde o comércio costuma aquecer fortemente nessa época, receberá cerca de 9% de toda essa soma.
Mas, apesar do reforço financeiro e da expectativa de melhora no orçamento doméstico, especialistas alertam que o fim de ano também é o momento em que muitos consumidores se desequilibram, especialmente pela forma como utilizam o crédito.
Segundo o professor e mestre em Economia Eugênio da Silva Pavão, o entusiasmo típico das festas pode levar ao descontrole. “Um trabalhador que recebe um salário mínimo tem uma renda anual líquida de cerca de R$ 18.675, considerando descontos. Esse é o valor que precisa ser pensado para todo o ano, e não apenas para as compras de dezembro”, destaca o economista.
Ele explica que datas comemorativas funcionam como gatilhos emocionais explorados pelo mercado. Mensagens que associam presentes a amor, atenção ou cuidado empurram o consumidor a gastar mais do que pode. Para evitar esse movimento, Eugênio recomenda disciplina, como anotar receitas, projetar despesas anuais e mapear hábitos de consumo. Segundo ele, a regra de ouro é simples e quase sempre ignorada, “nunca pegar dinheiro a juros”. E quando não houver alternativa, buscar opções menos caras, como consignados ou empréstimos familiares. “Quanto mais fácil é contrair uma dívida, mais difícil será sair dela”, alerta. Ele cita um exemplo de um empréstimo de R$ 10 mil a 5% ao mês que resulta em R$ 18 mil ao fim de um ano.
A preocupação dos especialistas se justifica diante do cenário atual de endividamento no país. Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) e da Serasa confirmam que o crédito continua sendo o maior motor da inadimplência. No levantamento mais recente divulgado pela entidade, referente a setembro, 48,47% dos brasileiros estão inadimplentes, quase metade do país. O cartão de crédito e os empréstimos bancários lideram como causa das dívidas e respondem por 27% das pendências no mês, proporção semelhante à registrada em agosto (27,3%). Em seguida aparecem dívidas financeiras (19,9%) e contas básicas como água, luz e gás (21,3%).

Mato Grosso do Sul figura entre os cinco com maiores índices de inadimplência, com 56,39% da população endividada, acima da média nacional (48,47%) e atrás apenas de Amapá, Distrito Federal, Amazonas e Rio de Janeiro. O cenário confirma o alerta, mesmo que o crédito ajude a fechar o mês, ele tem empurrado grande parte dos consumidores para renegociações e comprometimento da renda futura.
É nesse contexto que se encaixa a jornalista Mellisa Souza, 22 anos, que começou o endividamento na faculdade, dependente de bolsas e auxílios estudantis. Em 2023, ao perder um dos benefícios, Mellisa precisou priorizar contas básicas, e o cartão, já pesado, ficou sem pagamento. “A dívida era de R$ 1.200, mas foi crescendo. Quando vi, já estava quase em R$ 4 mil”, conta. Mesmo ao conseguir emprego em 2025, não conseguia juntar o suficiente para quitar o valor, que aumentava mês a mês com os juros.
A virada veio com o Crédito Trabalhador, programa federal voltado para trabalhadores formais. Com desconto direto na folha, Mellisa contratou um empréstimo e, com o valor liberado, conseguiu abatimento significativo: reduziu uma dívida de R$ 3,6 mil para cerca de R$ 500 ao pagar à vista.
A economista Regiane Dedé de Oliveira, da Fecomércio MS, reforça o alerta sobre o uso do crédito em épocas de alta demanda. Ela lembra que o 13º salário não deve ser visto como dinheiro “sobrando”, mas como instrumento para equilibrar o orçamento. “É indicado que o consumidor não comprometa mais de 30% da renda mensal com parcelamentos, porque os custos fixos já consomem boa parte do orçamento familiar”, afirma. Regiane recomenda dividir o benefício de maneira estratégica. 50% para quitar ou reduzir dívidas, 30% para despesas do início do ano, como IPVA, IPTU e material escolar e apenas 20% para o consumo de fim de ano, sempre adaptando à realidade de cada família.
Ela também chama atenção para o uso de crédito como garantia de novas dívidas. "Usar o 13º como fiança para gastos maiores pode comprometer janeiro, que é historicamente um mês crítico". Segundo Regiane, o crédito fácil, embora atraente, cria um ciclo de dependência que se renova a cada ano, especialmente quando o consumidor não analisa sua capacidade real de pagamento.
Fábio Prado, 46 anos - Foto: Sarah ChavesAlguns consumidores mostram que planejamento pode transformar a relação com o dinheiro. É o caso do motorista de aplicativo Fábio Prado, 46 anos, que por ser autônomo, não conta com o 13° salário, e soma os ganhos com a vendas de pudins e tortas. Fábio veio de Cuiabá para Campo Grande depois de uma proposta de trabalho que não vingou. Guardando pequenas quantias ao longo dos meses, ele decidiu que, neste fim de ano, vai comprar à vista o móvel da nova casa, depois de já ter montado um cômodo. "Priorizei montar a cozinha, porque é dela que tiro meu sustento", conta.
Fábio planeja adquirir outro item em janeiro e montar a sala depois. “Estou fazendo tudo devagar, mas sem dívida.”
História semelhante é a da vendedora Juliely Spiller, que aprendeu após dificuldade. Há dois anos, ela acumulou cerca de R$ 8 mil em dívidas após perder o controle do cartão. Precisou negociar e parcelar para finalmente quitar o valor. Desde então, adotou planejamento rígido e hoje recusa empréstimos ou limites altos. Para este fim de ano, pretende usar apenas o dinheiro guardado. “Agora eu já sei administrar”, resume.
Com o aumento das intenções de compra típico do fim do ano, especialmente entre vestuário, brinquedos, eletrônicos e alimentos para as ceias, economistas reforçam que o crédito deve ser usado com cautela.
Eugênio ainda deixa a dica para consumidores que são assediados por vendedores lojistas com descontos para quem tem cartões de loja. "Elas se enquadram em uma disputa de mercado, visando "fidelizar" o consumidor, com descontos em produtos próprios (cartões de descontos, promoções do dia, supermercados, etc), mas essa modalidade não garante ganhos financeiros ao consumidor, já que as vantagens são acompanhadas de valores mínimos para compras, numero determinado de produtos. Vale a pena se a pessoa for bastante disciplinada, acompanhar os preços dos concorrentes, mas geralmente acabam se tornando o que foi dito, armadilha da liquidez, fazendo com que consumidores consumam produtos fora das promoções e acima do planejado".
Para evitar essa realidade, existem 3 situações:
a) Pessoas com renda maior do que as despesas anuais, estão no sinal verde, tem condições de comprar à vista com descontos, parcelar com juros mais camaradas ou tem um Score positivo.
b) Pessoas com renda igual às despesas, com sobras ou déficits até 5% da renda total líquida, neste caso, é importante que seja detectado o problema (gastos invisíveis) que podem 'boicotar" o equilíbrio com superávit
c) Pessoas endividadas por razões de baixas rendas, desemprego, doenças, enfim, com características econômicas de pobreza, subsistência. estão estão no "vermelho" do "farol econômico" e devem evitar ao máximo contrair novas contas.
O consumo de fim de ano deve caminhar sempre ao lado do planejamento, comparação de preços, evitar juros e priorizar pagamentos à vista são práticas simples, mas essenciais para garantir que as festas não deixem um rastro de desequilíbrio no orçamento.
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Mestre em Economia Eugênio da Silva Pavão e Regiane Dedé de Oliveira, economista da Fecomércio MS (Reprodução/Montagem JD1)


