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Esportes

Vítima de racismo em 2004, Roque Júnior diz que hoje sairia de campo

25 março 2014 - 11h43Via Folha
Poucas pessoas são capazes de entender o sofrimento vivido pelos volantes Tinga, do Cruzeiro, e Arouca, do Santos, devido aos episódios recentes envolvendo racismo, como Roque Júnior.

Aos 37 anos, pouco diferente de sua imagem eternizada nos pôsteres de Palmeiras, Milan e seleção brasileira, ele é hoje diretor de futebol do Paraná Clube. Contudo, há dez anos, em 2004, quando formava a dupla de zaga do Bayer Leverkusen com Juan, companheiro de seleção brasileira, ele ouviu torcedores do Real Madrid imitarem macacos sempre que um dos dois tocava na bola.

"Você fica sem reação", diz, em uma frase que impressiona mais ainda pela disposição que Roque mostra em combater publicamente o racismo. Uma luta assumida por gerações de sua família.

Suas tranças, mantidas até hoje desde seus tempos de jogador, parecem atestar o orgulho do jogador de ser negro.

"A auto-afirmação é algo a ser aprendido e ensinado, que o negro é bonito, que nosso cabelo é bonito, diferentemente do que muita gente pensa", explica.

Em entrevista à Folha, ele comentou temas como o racismo no futebol, a seleção brasileira na Copa e as reivindicações do movimento Bom Senso F.C.

Confira:

Você é um jogador que costuma se posicionar publicamente contra o racismo. De onde vem esse seu compromisso?
Vem do meio onde eu vivi, das coisas que me ensinaram meus pais e meus avós sobre a discussão. Meu avô chegou muito cedo a Santa Rita do Sapucaí, cidade onde eu nasci. Ele saiu de Belo Horizonte e se deparou com uma cidade em que os brancos andavam dentro da praça e os negros, fora, e lutou contra isso. Ele sofreu muito preconceito, e passou essa consciência para todos nós. A família sabia da importância dos estudos. Já naquela época, meus avós entenderam que era importante que estudássemos até mesmo para ter uma posição financeira e social melhor no futuro. Hoje, meus tios têm mestrado, doutorado.

Estava assistindo aos jogos quando Tinga e Arouca foram vítimas de ofensas racistas?
Não estava, fiquei sabendo depois. Mas não tem como não relacionar isso à nossa sociedade. O futebol não é diferente. Ele só expõe mais o que acontece no cotidiano, é uma janela do que acontece na sociedade. A nossa cultura tem um racismo muito forte: desde a escravidão, passando pela falta de oportunidades, pelo modo como se formam as periferias... No Brasil, é difícil de se atacar o preconceito, porque ele é velado - a pessoa diz que não tem preconceitos, mas nos atos ela mostra que tem, sim. O modo de se combater isso é educar e informar as pessoas.

E você já passou por situação semelhante?
Passei, em um Real Madrid x Bayer Leverkusen [em 2004, torcedores do Real imitaram macacos quando Roque Júnior ou Juan tocavam na bola]. Você fica sem reação, não sabe bem o que pensar na hora. Na época, não tomamos nenhuma providência. Hoje, se estivesse jogando, acho que teria uma atitude diferente. Acho que sairia de campo, como o Boateng, quando estava no Milan [em 2013, Kevin-Prince Boateng abandonou o campo após ouvir insultos racistas durante amistoso entre Milan e Pro Patria], porque assim você coloca os eventos em evidência, para que haja punição.

O que achou das declarações de José Luis Meiszner, secretário-geral da Conmebol, sobre o caso Tinga, de que "um moreno peruano imitando macaco para um brasileiro um pouco mais escuro não é discriminação racial"?
Eu não concordo. Até na maneira de ele falar tem preconceito, "mais claro", "mais escuro". Eu não divido as pessoas assim, branco, amarelo, negro. Às vezes, as pessoas não sabem nem se colocar. E às vezes tentam tapar o sol com a peneira: não se sabe como reagir, então diz que não há preconceito. Todo mundo sabe que existe, não adianta esconder. Tem que tomar uma atitude.

Você acha que o racismo prejudica quem é negro e quer ser técnico no Brasil?
É um reflexo do nosso país. Há poucos executivos negros nas grandes empresas no Brasil. No ano passado, foi empossada a primeira reitora negra [Nilma Lino Gomes] de uma universidade federal na história do país. Na década de 1920, o negro não podia nem jogar futebol, tinha que passar pó de arroz, e isso era reflexo da sociedade daquele tempo. Técnico é mais uma posição de destaque na nossa sociedade que o negro não consegue alcançar, pela falta de oportunidades na história do país, marcada por um racismo muito grande.

E no seu caso, você sente que pode ter sido prejudicado?
Meu passado no futebol como jogador fez com que eu não sofresse com isso. Eu tive uma carreira vitoriosa, o que abre portas. Depois que parei, também tive tempo para me preparar, me instruir, buscar conhecimento. Foi uma condição que eu consegui como atleta. Então, eu tive um percurso diferente de outros negros que tentam a carreira de técnico, não tem como comparar. Minha história é particular: minha família me deu conhecimento, e eu tive oportunidades de me capacitar depois da carreira de atleta. Mas a falta de oportunidades é a realidade da maioria.

Sobre a Copa do Mundo: a seleção brasileira leva o título?
Temos condições. Depois da chegada do Felipão, a seleção conseguiu uma estabilidade maior, e alguns jogadores buscaram experiência no futebol europeu, o que é importante, pois eles aprenderam a se organizar melhor em campo. Vejo Alemanha e Espanha no mesmo patamar da seleção brasileira, que tem a vantagem de jogar em casa - desde que apoiada pelos torcedores.

Quais são os pontos fortes e os pontos fracos dessa seleção?
Eu sempre fui muito coletivo. É importante transferir para todos a vontade de ganhar, ter unidade, porque qualidade técnica todas as seleções brasileiras tiveram. Como campeão do mundo, posso dizer que isso fez a diferença em 2002.
Acho que pode pesar o fato de esses jogadores terem pouca experiência com a seleção, pois não precisaram jogar as Eliminatórias. Para mim, elas foram muito importantes, porque você já encara como parte da Copa.

O Rivaldo se aposentou na semana passada. Ele foi o jogador mais importante do Mundial de 2002?
Penso muito no coletivo, mas ele tinha uma motivação própria, por ter perdido em 1998. Ele passava isso no vestiário: "nós temos que ganhar, porque eu não quero passar por aquilo de novo". Ele fez uma grande Copa. Joguei com ele no Palmeiras, no Milan, na seleção, e foi um dos melhores que vi em campo.

Você foi jogador, agora é dirigente. O que acha das reivindicações do Bom Senso F.C., como o "fair play" financeiro e um período de férias adequado aos jogadores?
Acho as reivindicações pertinentes. É importante sentar na mesa e conversar, não pode ser unilateral da parte dos dirigentes. Todos têm que participar para decidir o campeonato que se quer fazer: jogadores, técnicos, árbitros, dirigentes. Não vejo hipótese de não aceitarem essas reivindicações. Demorou para acontecer, mas está no caminho certo.
Acho que é válido eles pedirem garantias financeiras, um período maior de férias. No futebol inglês e no alemão é assim, o clube tem que provar antes do início da temporada que pode arcar com os seus custos. Há direitos e deveres, e nenhum trabalhador aceita ficar três meses sem receber. Tem gente que fala que os jogadores ganham muito, mas é só o topo da pirâmide. A realidade da maioria é outra, mais difícil.

E o que acha da possibilidade de greve na primeira rodada do Brasileiro?
Acho radical, mas até hoje eles não fizeram a greve. Eles fizeram protestos que não prejudicaram os campeonatos. Se da outra parte houver bom senso, é possível evitar a greve. O foco precisa ser a melhoria do futebol brasileiro.

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