Cidade

PM rebate acusação de "extermínio" após morte de travesti em Campo Grande

A corporação nega prática sistemática contra grupo social e diz que caso será investigado

17 FEV 2026 • POR Sarah Chaves • 15h56
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A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul se manifestou nesta terça-feira (17) sobre a morte da travesti Gabriela dos Santos, 27 anos, baleada durante uma ocorrência no centro de Campo Grande, na segunda-feira (16). A corporação rebateu críticas e afirmou que a atuação dos agentes ocorreu diante de “risco concreto e imediato” à vida dos policiais e de terceiros.

Segundo o boletim de ocorrência, a situação começou após tentativa de abordagem no cruzamento da Avenida Calógeras com a rua 15 de Novembro. Durante a ação, houve luta corporal entre um grupo de travestis e dois policiais. Em determinado momento, a arma de um dos militares caiu no chão e, conforme a PM, foi tomada por Gabriela, que teria apontado o armamento contra a equipe. Diante da situação, outro policial efetuou disparos. Ela foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros à UPA Coronel Antonino, mas não resistiu.

Em nota, a Polícia Militar afirmou que “a utilização do termo ‘extermínio’ pressupõe prática sistemática, direcionada e reiterada contra determinado grupo social”, classificando a acusação como grave e sem comprovação. A corporação declarou que “não há qualquer dado oficial que indique prática sistemática ou direcionada” contra grupos sociais e ressaltou que a ação ocorreu após a arma de um policial ser tomada e apontada contra a equipe.


Sobre o número de disparos, a PM argumentou que “protocolos de uso da força não se baseiam na contagem isolada de tiros, mas na necessidade de cessar a ameaça”, destacando que ocorrências com ameaça armada “se desenvolvem em frações de segundo”. A instituição afirmou ainda que lamenta a perda de qualquer vida e que está submetida à investigação dos órgãos competentes.

A Associação das Travestis e Transsexuais de Mato Grosso do Sul também divulgou nota pública. A entidade afirmou que “o uso desproporcional da força precisa ser rigorosamente apurado” e que “quatro disparos de arma de fogo não podem ser automaticamente compreendidos como legítima defesa sem uma análise técnica minuciosa”. A associação classificou o caso como “fato gravíssimo que exige apuração séria, técnica e imediata”.
O caso é investigado pela Polícia Civil e pela Polícia Científica. O Ministério Público deve acompanhar a apuração.

Leia na íntegra:

A Polícia Militar de Mato Grosso do Sul vem a público esclarecer pontos que têm sido apresentados no debate sobre a recente ocorrência no centro de Campo Grande.

A utilização do termo “extermínio” pressupõe prática sistemática, direcionada e reiterada contra determinado grupo social. Trata-se de uma acusação grave, que exige comprovação objetiva.

Até o presente momento, não há qualquer dado oficial que indique prática sistemática ou direcionada da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul contra qualquer grupo social. A instituição não possui histórico estatístico que sustente essa narrativa. Muito pelo contrário, possui um histórico de ações em prol da segurança e bem-estar dos sul-mato-grossenses, presente nos 79 municípios do Estado.

O episódio em análise decorreu de uma abordagem que evoluiu para luta corporal. Durante a ação, a arma de um policial foi tomada e apontada contra a equipe. Nesse cenário, configurou-se risco concreto e imediato à vida dos agentes e de terceiros.

Quanto à alegação de excesso pelo número de disparos, é importante esclarecer que protocolos de uso da força não se baseiam na contagem isolada de tiros, mas na necessidade de cessar a ameaça. A atuação ocorre até que o risco seja neutralizado, especialmente quando há arma de fogo envolvida e direcionada contra policiais e/ou terceiros.

Ocorrências com ameaça armada se desenvolvem em frações de segundo. Julgamentos posteriores devem considerar o contexto real enfrentado no momento da ação, e não percepções dissociadas da dinâmica do confronto.

A Polícia Militar lamenta profundamente a perda de qualquer vida. Contudo, reafirma que:

• Atua com base na legalidade, na técnica e na filosofia de Polícia Comunitária;
• Não direciona ações por identidade, condição ou pertencimento social;
• Está submetida à investigação regular dos órgãos competentes;
• Permanece aberta ao diálogo responsável com todos os segmentos da sociedade.

O debate público é legítimo. A generalização sem dados, não.

Outro lado

NOTA PÚBLICA – TRAVESTI GABRIELLA E POLÍCIA MILITAR

É com profundo pesar que recebemos a triste notícia do falecimento de Gabriella, pessoa trans em situação de rua. Gabriella foi alvejada hoje, 16 de fevereiro de 2026, por quatro disparos de arma de fogo efetuados por um Policial Militar, conforme noticiado pelo O Estado Online e demais jornais eletrônicos locais.

Lamentamos profundamente o ocorrido em um país onde a expectativa de vida da população trans e travesti não ultrapassa, em média, 35 anos, e que segue figurando entre os países que mais assassinam pessoas trans no mundo. Por outro lado, também somos o país onde a polícia mais mata, tendo como principais vítimas jovens pretos e pardos das periferias; ao mesmo tempo, muitos policiais mortos também são, em sua maioria, homens negros oriundos dessas mesmas periferias. Trata-se de um ciclo estrutural de violência que precisa ser enfrentado com responsabilidade e seriedade.

Reafirmamos que não concordamos com nenhum ato de violência. O ato de pegar e apontar uma arma para a polícia não é a melhor escolha, e a polícia pode e deve agir em legítima defesa. No entanto, não se pode apagar os dados históricos de violência e discriminação com que forças policiais, reiteradamente, agem contra travestis e transexuais no Brasil. Em Campo Grande/MS, isso não é diferente, visto que, em passado recente, eram comuns os chamados arrastões, além de torturas, espancamentos e violências físicas, psicológicas e verbais.

Reafirmamos, ainda, nosso respeito à instituição Polícia Militar, assim como às demais instituições públicas, e nossa confiança nos bons policiais que exercem sua função com ética, humanidade e compromisso com a vida, sem usurpar da farda nem do poder do Estado na condição de servidores públicos. Reconhecemos que há profissionais sérios que honram seu juramento diariamente. No entanto, exatamente por respeito à instituição, entendemos que eventuais excessos não podem ser silenciados ou relativizados, devendo ser apurados com rigor, transparência e responsabilidade, pois a farda não pode servir de escudo para abusos, assim como o Estado não pode compactuar com práticas que violem direitos humanos.

Esse histórico demonstra que, ainda que Gabriella estivesse errada em sua conduta, o uso desproporcional da força precisa ser rigorosamente apurado. Quatro disparos de arma de fogo não podem ser automaticamente compreendidos como legítima defesa sem uma análise técnica minuciosa. O que se tem agora é o extermínio de uma pessoa trans, fato gravíssimo que exige apuração séria, técnica e imediata por parte do MPE e demais órgãos competentes.

Ao realizarmos varreduras nas redes sociais, constatamos que não faltam comentários transfóbicos, com ataques, xingamentos, palavras de baixo calão e manifestações de cunho criminoso. Tais conteúdos serão levados às autoridades competentes, pois opinião não se confunde com violência verbal. Liberdade de expressão não é carta branca para incentivar ou aplaudir violência contra pessoas LGBT+. Todo e qualquer ato de violência é repudiável, seja praticado pela própria travesti, seja por agentes do Estado.

Ainda é indispensável apurar o que ocorreu antes da abordagem, quais ofensas foram proferidas, quais ataques antecederam os disparos, quais violências geraram outras violências — inclusive por parte dela e dos próprios policiais — e, sobretudo, qual foi o motivo da utilização de armamento letal, considerando que existem instrumentos não letais que poderiam ter sido empregados.

Os fatos serão acompanhados pelas autoridades competentes. Iremos denunciar e exigir apuração real e transparente do ocorrido, juntamente com a sociedade civil organizada, que não se calará até que tudo seja devidamente esclarecido. Caso se constate excesso, que haja punições. O papel da polícia é servir e proteger — nunca agredir, constranger, muito menos ferir ou matar.

Seguiremos vigilantes.

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