Cidade

Campo Grande, Capital da COP 15

Evento mundial colocou a cidade no foco internacional celebrou decretos de preservação a instalação de atlas de mapeamento de espécies ameaçadas

29 MAR 2026 • POR Sarah Chaves • 14h14
Abertura do Segmento de Alto-Nível da COP15 em Campo Grande, com a presença do presidente Lula e da ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, além de João Paulo Capobianco, presidente da COP15 - Ueslei Marcelino/MMA

Chega ao fim neste domingo (29), o maior evento internacional que trata sobre preservação de espécies migratórias. A COP 15 marca Campo Grande como a Capital que sediou o debate entre 133 países e resultou ainda na criação de espaços de conservação no Brasil.

Durante o discurso de abertura, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, chamou atenção para os desafios enfrentados pelo bioma pantaneiro, considerado estratégico para a biodiversidade global. Segundo ela, o evento representa uma oportunidade de ampliar ações de conservação e garantir a segurança das rotas migratórias no futuro.

"Às portas do nosso magnífico bioma Pantanal, precisamos reconhecer que os desafios que enfrentamos são profundos. A perda de habitats, a sobre-exploração, a mudança do clima, a poluição e as espécies invasoras são alguns dos fatores de pressão que devem ser endereçados para assegurar a sobrevivência das espécies migratórias".

O presidente Lula aproveitou criticou o contexto geopolítico atual, apontando ações unilaterais e a omissão do Conselho de Segurança da ONU diante de conflitos e violações de direitos humanos.

O presidente convocou líderes e participantes da COP15 a promover avanços coletivos na proteção ambiental e no bem-estar humano. “Que esta conferência seja um espaço de ações conjuntas em defesa da natureza e da humanidade”, afirmou.

Para o governador Eduardo Riedel, a escolha do Estado para sediar a conferência reforça a importância ambiental do bioma e das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável. “O que a gente tem conseguido trazer para cá demonstra a relevância do bioma e do Estado nesse cenário. A nossa opção de estabelecer políticas públicas que levem a um crescimento vigoroso, mas com responsabilidade ambiental, reflete nos eventos que estão acontecendo aqui”, afirmou.

Além do impacto econômico, o governador avaliou que a conferência deixa um legado científico para o Estado, ao aproximar universidades, pesquisadores e instituições internacionais. “O legado da COP é fomentar as relações que nós temos do mundo científico com o nosso Estado”, disse Riedel. 

Casa do Homem Pantaneiro

Uma das novidades da COP 15 foi a reinauguração da Casa do Homem Pantaneiro, no Parque das Nações Indígenas, em Campo Grande. Fechado há mais de 10 anos, o espaço volta a funcionar com debates, exposições, cinema e comidas típicas durante uma conferência internacional. “É um exemplo de como usar os recursos sem destruir”, disse a ministra Marina Silva, que esteve no ato

O governo investiu R$ 400 mil e quer manter o espaço aberto depois. A reabertura acontece junto com medidas assinadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ampliar áreas protegidas no Pantanal, fortalecendo a preservação da região.

Rios

Um relatório apresentado na COP15 alertou de que 97% dos peixes migratórios de água doce estão ameaçados e muitas espécies já perderam até 90% da população. O problema envolve barragens, poluição, pesca excessiva e destruição dos rios.

Além do diagnóstico, foram discutidas ações concretas. Entre elas, proteger áreas críticas, manter os rios conectados, ampliar pesquisas e alinhar regras entre países. Também está em análise um plano para proteger bagres da Amazônia, com participação de países vizinhos.

A ideia é garantir a sobrevivência dessas espécies, que são base da alimentação e da economia de muitas comunidades.

Mares - Baleias e tubarões

A programação do Espaço Brasil na COP15 começou  com foco na proteção das rotas de animais migratórios, com destaque para a baleia-jubarte. O novo Parque Nacional Marinho do Albardão (RS) é visto como peça-chave pra proteger a espécie no Atlântico Sul, garantindo áreas seguras pra descanso e reprodução.

O governo brasileiro também defende a criação de um santuário de baleias. A proposta é reforçar a preservação sem impedir atividades como a pesca artesanal, desde que feita de forma controlada.

O painel destacou a urgência de uma gestão integrada no Atlântico Sul, especialmente para espécies como o tubarão-azul (Prionace glauca), que demandam normas rigorosas de comércio sob os marcos da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens em Perigo de Extinção (CITES, na sigla em inglês) e Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS, na sigla em inglês).

Especialistas e autoridades do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) debateram a redução populacional dos tubarões e raias e critérios técnicos para assegurar que a comercialização não comprometa a sobrevivência no longo prazo.

Entre os temas, foram tratados a necessidade de monitoramento e os esforços de cooperação internacional para que a comercialização do tubarão-azul e a captura não levem à redução drástica populacional.

Povos indígenas

A  “conectividade ecológica”, que é basicamente permitir que os animais consigam circular entre áreas naturais, foi um dos principais temas da COP15, em Campo Grande. A ideia é evitar que a natureza fique “quebrada” em pedaços isolados.

Especialistas destacaram que povos indígenas e comunidades tradicionais são essenciais pra manter esses corredores, já que ajudam a proteger o território contra invasões e uso ilegal da terra. A estratégia do Brasil foi elogiada por representantes internacionais. Segundo eles, incluir esse tema nas políticas públicas é um avanço importante.

Pra animais migratórios, isso é questão de sobrevivência. Sem áreas conectadas, estradas, cidades e barragens acabam isolando populações e dificultando reprodução e deslocamento.

Mapeamento por Atlas
Ainda na última semana, foi apresentado um novo atlas mapeando as rotas de aves migratórias nas Américas e mostrando onde é mais urgente agir. A ferramenta usa dados científicos pra identificar áreas-chave de reprodução, descanso e alimentação, que hoje sofrem com desmatamento, obras e mudanças climáticas.

Entre as espécies citadas estão o maçarico-acanelado, maçarico-rasteirinho, mariquita-azul, flamingo-dos-andes e maçarico-de-bico-virado, todas ameaçadas ou em queda.

Na prática, o atlas vai ajudar governos a focar ações onde mais importa, proteger habitats e melhorar a cooperação entre países. A ideia é evitar que a perda de um único ponto no caminho comprometa toda a migração dessas aves.

Decretos

Toda a discussão em torno da preservação, resultou na abertura histórica do evento, que contou com a assinatura de três importantes decretos pelo presidente Lula em Campo Grande. Um deles cria a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Córregos dos Vales do Norte de Minas Gerais, com investimento de R$ 780 mil. A proposta é garantir a preservação ambiental aliada ao uso sustentável dos recursos por comunidades locais.

Outro decreto amplia o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense, reforçando a proteção de uma das áreas mais importantes do bioma pantaneiro.

Também foi assinada a ampliação da Estação Ecológica de Taiamã, uma área com alta diversidade e presença de espécies ameaçadas. A medida busca fortalecer a preservação de ecossistemas sensíveis, com investimento estimado em R$ 80 milhões.

Espécies migratórias em destaque

Uma espécie é considerada migratória quando toda, ou parte dela atravessafronteiras entre países buscando mantimento, locais seguros para reprodução e temperaturas mais adequadas, entre outros motivos. 

Baleia-jubarte 

A espécie realiza migrações anuais de áreas de alimentação na Antártida para águas tropicais brasileiras.Com uma população estimada em 34,5 mil indivíduos na costa brasileira, é protegida pelo PAN Cetáceos Marinhos.

Onça-pintada 

É protegida pelo PAN Grandes Felinos e foi incluída nos Anexos I e II da CMS após proposta liderada pelo Brasil, visando a cooperação internacional para corredores transfronteiriços.

Tartaruga-verde 

No Brasil, praias protegidas pelo PAN Tartarugas Marinhas e pelo Centro TAMAR/ICMBio são fundamentais para o sucesso reprodutivo da espécie, que percorre milhares de quilômetros entre áreas de alimentação e desova.

Tubarão-mangona 
Espécie classificada como criticamente em perigo, vive em áreas costeiras e sofre principalmente com a pesca, especialmente redes. Está em programas como o PAN Tubarões, que busca reduzir impactos e recuperar populações . Também há cooperação entre Brasil, Uruguai e Argentina pra proteger a espécie.

Bagres migratórios 
São peixes que viajam longas distâncias nos rios. Na COP15, países da América do Sul discutem um plano conjunto pra proteger essas espécies e seus habitats.

Albatroz-errante
Ave marinha gigante que cruza oceanos do hemisfério sul. A principal ameaça é a captura acidental na pesca. No Brasil, há um plano específico pra reduzir esse problema e proteger a espécie .

Maçarico-acanelado
Ave pequena que viaja milhares de quilômetros entre o Ártico e a América do Sul. Depende de áreas úmidas pra descansar e se alimentar. Está ameaçado pela perda desses ambientes, e ações focam na proteção desses locais ao longo da rota migratória.