Esporte transforma vidas e impulsiona ações sociais em Campo Grande
A corrida tem sido usada como ferramenta para unir a população em prol de um bem maior
29 MAR 2026 • POR Brenda Assis • 11h10Em Campo Grande, o esporte tem ido muito além da prática física e da busca por resultados. Corridas e eventos esportivos têm se consolidado como ferramentas de transformação social, mobilizando a população em torno de causas como doação de sangue, inclusão e solidariedade.
Um dos principais exemplos é a trajetória de Carlos Alberto Rezende, o “Professor Carlão”. Biólogo, biomédico e ex-professor por 38 anos, ele encontrou no esporte um caminho de superação após enfrentar um dos momentos mais difíceis da vida. Em 2015, Carlão foi diagnosticado com aplasia medular severa, uma doença rara que compromete a produção de células sanguíneas.
Durante o tratamento, recebeu a maior doação de sangue já registrada para um único paciente em Mato Grosso do Sul. Ainda no hospital, surgiu a ideia que mudaria não só a sua vida, mas a de milhares de pessoas, momento que criou o Projeto Sangue Bom para incentivar a doação de sangue e o cadastro de doadores de medula óssea.
Em novembro de 2016, ele passou por um transplante de medula óssea no Hospital Amaral Carvalho, em Jaú (SP). Meses depois, em 2017, o projeto se tornou o Instituto Sangue Bom. Foi também nesse período que o esporte ganhou protagonismo em sua recuperação.
“O esporte me devolveu saúde e energia, mas, acima de tudo, me deu a chance de levar adiante a mensagem de que doar salva vidas”, afirma.
Desde então, Carlão passou a utilizar a corrida como ferramenta de conscientização. Participando de grandes competições, como a Corrida de São Silvestre e os Jogos Brasileiros para Transplantados, ele aproveita a visibilidade para divulgar a importância da doação.
Segundo ele, o impacto é concreto. Desde a criação do instituto, milhares de cadastros de doadores de medula óssea foram realizados em Mato Grosso do Sul, em parceria com o Hemosul. Ao todo, mais de 6,3 mil ações já foram promovidas. Só em 2024, foram 623 iniciativas; em 2025, 638; e, em 2026, já são 116 ações registradas.
“O esporte não é um fim em si mesmo, mas uma plataforma para mobilizar pessoas, aumentar a visibilidade e quebrar mitos sobre a doação. Participando de grandes corridas, procuro em cada possibilidade uma oportunidade de veicular a mensagem da doação, alcançando um público que talvez não fosse impactado por uma campanha tradicional”, destaca.
A principal vitrine desse trabalho é a Corrida Sangue Bom, criada em 2016, em Campo Grande. O evento reúne atletas, amadores e famílias em um grande movimento de solidariedade. Neste ano, a prova chega à 9ª edição, com arrecadação de alimentos, abertura da campanha Junho Vermelho e doação da renda líquida para instituições como o Hospital do Câncer Alfredo Abrão e o Hospital Nosso Lar.
A proposta, segundo Carlão, é mostrar que eventos esportivos podem ter um propósito maior. “Uma corrida pode deixar um legado que vai muito além do pódio”, resume.
Inclusão também ganha espaço
Outro exemplo de como o esporte tem sido aliado de causas sociais é a Corrida e Caminhada da Associação de Pais e Amigos do Autista de Campo Grande (AMA), que chega à quarta edição em 2026.
Com inscrições abertas até o dia 31 de março, o evento será realizado em 5 de abril, no Parque dos Poderes, com percursos de 3 km, 5 km e 10 km. A iniciativa busca promover inclusão e ampliar a conscientização sobre o autismo.
De acordo com a vice-presidente da AMA, Flávia Caloni, o público tem crescido a cada edição. “O intuito da corrida é levar informação sobre o autismo. Abril é um mês importante para essa causa, e o evento ajuda a envolver toda a sociedade”, explica.
Os recursos arrecadados são destinados à manutenção dos atendimentos oferecidos pela entidade, que há 36 anos realiza acompanhamento multidisciplinar de pessoas com autismo.
Além da corrida, a programação contará com atividades inclusivas, como sala sensorial e interação com cães terapeutas, pensadas para atender às necessidades específicas dos participantes.
Para as organizadoras, a união entre esporte e solidariedade é essencial. “É um ato de amor. Estar próximo dessas pessoas é um aprendizado constante”, afirma a assistente social Divina Márcia.
Mais que um esporte
Seja incentivando a doação de sangue ou promovendo a inclusão, iniciativas como essas mostram que o esporte tem um papel estratégico na mobilização social.
Ao reunir pessoas em torno de um objetivo comum, eventos esportivos conseguem ampliar o alcance de campanhas, sensibilizar a população e gerar impactos reais na vida de quem mais precisa.
Em Campo Grande, exemplos como o do Professor Carlão e da AMA reforçam que, quando aliado a causas sociais, o esporte deixa de ser apenas atividade física e se torna um instrumento poderoso de transformação.