Opinião

O caos no show do Guns N' Roses e a crise silenciosa no transporte urbano de Campo Grande

13 ABR 2026 • POR Renato Saravy Diacopulos • 10h57
Foto: Jônatas Bis

Quem tentou se deslocar para o Autódromo Orlando Moura no dia do show do Guns N' Roses viveu um pequeno inferno. Horas de engarrafamento, falta de orientação, transporte público sobrecarregado e uma sensação generalizada de que a cidade não estava preparada para um grande fluxo de pessoas e um grande evento.

Muitos trataram aquela noite como um "acidente isolado". Um problema pontual, fruto de um evento extraordinário. Lamento informar: não foi.

O caos daquela noite não foi uma exceção. Foi o sintoma de uma doença crônica que Campo Grande vem ignorando há anos. Apenas ficou mais visível porque os holofotes da mídia estavam ligados.

A cidade que desistiu do ônibus
Enquanto a população de Campo Grande cresce e se espalha por bairros cada vez mais distantes, como Aero Rancho e Nova Lima (os dois mais populosos da cidade), o transporte coletivo encolhe.

Dados sobre mobilidade urbana de Campo Grande mostram uma realidade preocupante: nos últimos anos, houve redução no número de linhas, diminuição da frota de ônibus e queda no número de passageiros transportados. O sistema opera no limite da ineficiência.
Em pesquisa realizada com trabalhadores da região central da cidade, um dado assusta: 66% dos usuários de ônibus levam mais de 60 minutos no deslocamento casa-trabalho. Enquanto isso, quem usa carro ou moto chega ao destino em até 30 minutos.
Não é difícil entender por que as pessoas abandonam o ônibus. O problema é que elas não estão migrando para a bicicleta ou para a caminhada. Estão migrando para o carro, a moto ou os aplicativos de transporte — algo que “alivia” a responsabilidade pública de forma momentânea, mas que tem um preço: mais congestionamentos, mais poluição, mais estresse.
O mito do VLT, do metrô e a perpetuação do ônibus poluente
Enquanto cidades como Rio de Janeiro (RJ), na Baixada Santista (SP) e em diversas cidades do Nordeste — Fortaleza (CE), Sobral (CE), Cariri (CE), Recife (PE), Maceió (AL) — já experimentam pelo menos dois ou três modais de transporte, Campo Grande parece ter desistido de qualquer debate sobre o tema. É quase um assunto proibido entre os agentes públicos.

Quem nunca ouviu: “metrô em Campo Grande? Mas não temos nem 1 milhão de habitantes ainda”. Como se esse número fosse uma regra. Uma comparação: a primeira linha de metrô da América Latina foi inaugurada em 1913 em Buenos Aires, com uma população menor que 1 milhão de habitantes. Estamos 113 anos de distância histórica, com quase 1 milhão de habitantes, mas sem qualquer horizonte nessa discussão.

Não se fala mais em VLT (Veículo Leve sobre Trilhos – metrô de superfície). Não se discute um BRT (Transporte Rápido por Ônibus – linha exclusiva para ônibus) de verdade. O plano de mobilidade urbana, que deveria ter sido revisado em 2016, só começou a ser atualizado em 2021 e ainda não saiu do papel. O resultado é uma cidade que cresce para as bordas, mas insiste em se mover como se ainda estivéssemos na Campo Grande de 1990, queimando óleo diesel do modo mais poluente possível — logo nós, que acabamos de sediar a COP15.

Comunizar a mobilidade: uma saída possível?
Diante desse quadro, é tentador pensar que a solução virá de cima para baixo: uma grande obra, um novo modal, uma tecnologia milagrosa.

Mas a experiência mundial mostra o contrário. Inspirado nos conceitos de Elinor Ostrom e do pesquisador canadense Paris Marx, acredito que a saída para a crise da mobilidade passa por um movimento mais profundo: comunizar a mobilidade.

Isso significa que os cidadãos não podem mais ser meros espectadores das decisões sobre como se deslocar. Precisam se organizar, pressionar, propor, fiscalizar. Assim como ocorreu em Santiago do Chile, onde um movimento popular conseguiu reorientar investimentos viários e criar uma governança colaborativa, Campo Grande precisa de protagonismo social.

A Primeira Bikeata, realizada em novembro de 2023, que reuniu cerca de mil ciclistas na Avenida Afonso Pena, é um sinal de que esse movimento já começou. Mas ainda é pequeno diante da dimensão do problema.

Conclusão
O caos no show do Guns N' Roses foi um aviso. Um sinal de que a cidade já não consegue mais absorver grandes fluxos com a estrutura que tem.
Mas o problema não são os shows. O problema é o dia a dia. São os trabalhadores que passam mais de uma hora dentro de um ônibus para ir e voltar do trabalho. São os ciclistas que arriscam a vida em avenidas sem ciclovia. São as famílias que moram em bairros distantes e não têm alternativa a não ser um transporte público ineficiente.
Campo Grande merece mais do que planos guardados em gavetas. Merece ações concretas. Merece uma mobilidade que não dependa da sorte ou de um show de rock para virar notícia e voltar a discutir sobre um transporte para o futuro.

 

Por Renato Saravy Diacopulos

Geógrafo, Mestre em Desenvolvimento Local pela UCDB e especialista em Mobilidade Urbana.