Política

A um passo do 'beijo', Ponte Bioceânica redefinirá logística de MS

A 29,6 metros da conclusão sobre o Rio Paraguai, obra avança e impulsiona integração logística e exportações

26 ABR 2026 • POR Vinícius Santos • 13h45
O chamado "beijo das aduelas", registrado pelo jornalista Toninho Ruiz, está previsto para acontecer no dia 31 de maio. - Toninho Ruiz

A construção da ponte internacional da Rota Bioceânica, sobre o Rio Paraguai, entrou na fase mais aguardada da obra, faltam apenas 29,60 metros para a junção definitiva entre os lados brasileiro e paraguaio, o chamado “beijo das aduelas”. O marco histórico está previsto para ocorrer no dia 31 de maio, conforme o cronograma oficial.

Iniciada em janeiro de 2022, a estrutura é considerada estratégica para a consolidação do corredor bioceânico, que ligará o Brasil aos portos do Chile, atravessando Paraguai e Argentina. 

A ponte é financiada pela Itaipu Binacional, com investimento aproximado de US$ 100 milhões, e apresenta padrão internacional de engenharia, com uso de tecnologia e materiais importados de diversos países.

No canteiro de obras, o ritmo é acelerado. Equipes trabalham na instalação dos últimos cabos de sustentação, etapa essencial antes da conexão final. Após essa fase, o foco será totalmente direcionado para a união estrutural da ponte, que deve ser concluída ainda em 2026.

Mais do que uma obra de engenharia, a ponte representa um novo eixo logístico para Mato Grosso do Sul, especialmente para as regiões produtoras, que passam a ter acesso facilitado a mercados internacionais por meio de rotas mais curtas e eficientes.

IMPACTO DIRETO NA LOGÍSTICA DE MS

A Rota Bioceânica é vista como um divisor de águas para o escoamento da produção agropecuária sul-mato-grossense. A nova ligação internacional reduz distâncias até os portos do Pacífico e amplia a competitividade dos produtos do Estado no mercado externo.

Dentro desse contexto, o Governo do Estado também avança em obras estruturantes para garantir a integração interna com o corredor internacional. Um dos principais exemplos é a implantação e pavimentação da rodovia MS-355, em Terenos.

A ordem de serviço foi autorizada pelo governador Eduardo Riedel, como parte de um pacote de investimentos de R$ 2,3 bilhões financiados pelo BNDES. Com aporte de R$ 230,4 milhões, a MS-355 terá 53,9 quilômetros de pavimentação, ligando Terenos aos municípios de Sidrolândia e Dois Irmãos do Buriti, passando pela região da Colônia Cascavel. 

A obra também encurta em cerca de 30 quilômetros o trajeto entre Campo Grande e Dois Irmãos do Buriti. Segundo o governador, a rodovia é peça-chave para conectar a Capital ao eixo da Rota Bioceânica.

“Estamos estruturando uma rota que liga Campo Grande a Nioaque por um novo eixo, formando acesso direto à Rota Bioceânica e potencializando nossas exportações. É uma obra transformadora para a população e para o desenvolvimento econômico do Estado”, afirmou.

Além do impacto logístico, a MS-355 deve beneficiar diretamente comunidades rurais, incluindo mais de 20 assentamentos, melhorando o transporte escolar, o acesso à saúde e o escoamento da produção da agricultura familiar.

CORREDOR EM CONSOLIDAÇÃO

Enquanto a ponte avança para a fase final, no Paraguai, a rodovia PY-15 — conhecida como Picada 500 — também segue em ritmo acelerado, com obras de pavimentação e infraestrutura em andamento no Chaco paraguaio.

O conjunto dessas intervenções consolida a Rota Bioceânica como um dos principais projetos de integração da América do Sul, conectando regiões produtivas do Brasil aos mercados asiáticos por meio do Oceano Pacífico.

Para Mato Grosso do Sul, o cenário é claro, a ponte não é apenas uma ligação física entre dois países, mas um novo caminho para o crescimento econômico, redução de custos logísticos e expansão das exportações.

QUEM ESTÁ PERTO VÊ DE PERTO

Morador de Porto Murtinho e testemunha direta da evolução da Rota Bioceânica, o jornalista Toninho Ruiz acompanha o projeto desde os primeiros debates, ainda na década de 1980. Ao JD1 Notícias, ele relata que a obra que hoje avança para a fase final é resultado de décadas de articulação internacional.

“Eu milito na bioceânica desde 1980. Participei de praticamente todos os debates com representantes de países como Chile, Argentina, Paraguai, Bolívia e Peru. Era um projeto cheio de obstáculos, principalmente pela falta de infraestrutura e estradas sem asfalto”, afirmou.

Segundo ele, o cenário começou a mudar de forma concreta nos últimos anos, principalmente com o avanço dos investimentos no Paraguai. “O trecho da rota dentro do Paraguai tem cerca de 580 quilômetros e, antes, só 30% era asfaltado. Hoje, já caminha para praticamente 100%, além da construção da ponte. O país está investindo pesado, mais de US$ 1 bilhão em infraestrutura”, destacou.

Ruiz também acompanha de perto a pavimentação da chamada Picada 500 (PY-15), considerada um dos trechos mais desafiadores da rota. “Ali era extremamente difícil. Em época de chuva, era lama e atoleiro; na seca, areia e poeira. Hoje são quatro consórcios trabalhando simultaneamente, com várias frentes de serviço. A expectativa é que até o fim do ano esteja praticamente toda asfaltada”, relatou.

Apesar do avanço das obras, o jornalista avalia que o impacto direto na rotina de Porto Murtinho ainda é limitado neste momento. “Por enquanto, o impacto ainda não é tão grande. A ponte fica fora da área urbana e os investimentos privados ainda são poucos. Existe uma expectativa, mas o setor empresarial ainda aguarda a conclusão das obras para avançar”, explicou.

Para ele, a transformação mais significativa deve ocorrer nos próximos anos, com a chegada de empresas e a consolidação da rota como corredor logístico internacional. “Porto Murtinho não pode ser apenas passagem. Precisa atrair empresas, entrepostos comerciais, reativar estruturas como frigorífico. É o investimento privado que vai dar vida à rota”, afirmou.

Ruiz destaca ainda o potencial de integração econômica entre os países envolvidos. “A rota encurta distâncias e abre novas possibilidades. Produtos de Mato Grosso do Sul podem chegar ao Chile em cerca de dois mil quilômetros, com ganho de tempo e competitividade. Além disso, fortalece o comércio regional entre Brasil, Paraguai e Argentina”, pontuou.

Com mais de quatro décadas acompanhando o projeto, ele resume o momento atual como histórico. “É o sonho de muitos protagonistas se tornando realidade. Muita gente participou disso ao longo dos anos. Agora estamos vendo acontecer”, concluiu.