Agronegócio

"A abelha está no topo do agronegócio", garante apicultor

Especialista conta como a parceria entre apicultores e produtores pode elevar produtividade e reduzir custos

10 MAI 2026 • POR Gabrielly Gonzalez • 12h12
Gustavo Bijos é apicultor há mais de 30 anos e afirma que desinformação é um dos principais entraves. - Jônatas Bis/JD1

A presença das abelhas no campo vai muito além da produção de mel. Responsáveis por grande parte da polinização de culturas agrícolas, esses insetos têm papel estratégico na produtividade e na qualidade dos alimentos. No Brasil, onde existem mais de 300 espécies, a integração entre apicultores e produtores rurais ainda é um desafio.

Apicultor há mais de três décadas, Gustavo Bijos afirma que a desinformação ainda é um dos principais entraves para o avanço da atividade. "A abelha é responsável por cerca de 85% da produção de alimentos no mundo. Isso não significa que tudo depende exclusivamente dela, mas, sem a polinização, a produtividade cai e os alimentos ficam mais caros", explicou durante entrevista ao PodCast Giro do Agro 360.

Segundo ele, a atuação das abelhas garante frutos mais bem formados, mais pesados e com melhor qualidade. O processo ocorre de forma natural: ao buscar néctar nas flores, as abelhas transportam o pólen responsável pela fecundação das plantas de uma flor para outra, viabilizando a produção.

Apesar da importância, poucos produtores utilizam de forma estratégica o chamado serviço de polinização, prática comum em outros países. O modelo consiste no aluguel de colmeias, que são posicionadas de forma planejada nas lavouras, segundo o apicultor.

"Dependendo da cultura, o enxame precisa chegar em determinado estágio de desenvolvimento e ser instalado em pontos estratégicos para garantir eficiência. Isso pode aumentar significativamente a produtividade", destaca Bijos.

Ele reforça que a falta de diálogo entre agricultores e apicultores ainda gera conflitos, principalmente por conta do uso de defensivos agrícolas. "Os produtos podem, sim, causar mortalidade de abelhas, mas isso acontece, na maioria das vezes, por uso inadequado. Com orientação técnica e parceria, é possível produzir e preservar ao mesmo tempo", afirma.

Abelhas estão desaparecendo?

Ao contrário do que muitas vezes se divulga, o especialista pondera que as abelhas não estão em extinção de forma generalizada. No entanto, há impactos importantes, principalmente sobre espécies nativas.

"As abelhas mais utilizadas na produção de mel, como a Apis mellifera, apresentam casos pontuais de mortalidade, que podem ser controlados. Já as abelhas nativas sem ferrão são mais sensíveis e ainda carecem de estudos mais aprofundados", explica.

Entre os fatores que afetam as populações estão o uso incorreto de defensivos, desmatamento, queimadas e expansão urbana. Por outro lado, o avanço dos bioinsumos produtos naturais utilizados no controle de pragas surge como alternativa mais sustentável. Atualmente, cerca de 20% da agricultura brasileira já utiliza esse tipo de solução.

A apicultura também se destaca pela diversidade de produtos. Além do mel, as abelhas produzem própolis, pólen, geleia real, cera e até veneno com aplicações medicinais.

"O mel, por exemplo, varia conforme a florada. Cada tipo de planta gera um produto com cor, sabor e aroma diferentes", explica Bijos. Ele destaca ainda o valor nutricional desses itens, considerados alimentos funcionais por conterem enzimas e compostos benéficos à saúde.

Apicultura não é hobby

Mesmo com condições favoráveis em todo o território nacional, o Brasil ainda não explora plenamente o potencial da apicultura. Segundo o especialista, a atividade ainda é tratada, em muitos casos, como hobby. "Muitos entram por paixão, mas sem planejamento. Não sabem quanto custa produzir um quilo de mel e acabam não evoluindo como negócio".

Ele compara o cenário brasileiro com países como Argentina, Estados Unidos e Nova Zelândia, que possuem cadeias produtivas mais estruturadas e voltadas à exportação. "A demanda mundial por produtos das abelhas é maior do que a oferta. E, mesmo assim, o Brasil ainda importa mel", destacou.

Consciência e preservação

"As abelhas estão no topo do agronegócio. Sem elas, a produção de alimentos cai, os preços sobem e toda a cadeia é impactada, inclusive a produção de carne e leite", alerta o especialista, que orienta a sociedade a compreender o papel das abelhas na cadeia produtiva e que a população adote práticas que contribuam para sua preservação.

Ele orienta ainda que produtores busquem informação, sigam recomendações técnicas no uso de insumos e fortaleçam a parceria com apicultores. Já os consumidores devem priorizar produtos de origem confiável. "Cuidar das abelhas é cuidar da nossa própria alimentação e do futuro do planeta", expõe.

Para finalizar, o apicultor ressalta que além do aspecto econômico, a relação com a natureza como um dos principais atrativos da atividade. "O campo traz uma paz que não se explica. Trabalhar com abelhas é estar em contato direto com algo maior. É um privilégio".