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Opinião

Caro Abílio,

31 outubro 2019 - 17h44Manoel Martins de Almeida

Não caberia a mim esta tarefa. Primeiro, porque não tenho as requeridas qualidades; depois, porque cumpro-a -  em lágrimas, o que na minha idade já não é recomendável. Entretanto, não posso negar que, ao dar conhecimento da estima que sempre devotei a sua família, a missão passa a ter um significado maior que a minha autocritica, o que me leva à insuperável obrigação de cumpri-la.

Fazia algum tempo que não nos falávamos. Suas notícias me chegavam por Luciano e Leonardo. Foi um tempo em que o seu silencio nos deixou um pouco sem referência, e veja que não tem sido fácil sobreviver a estes momentos em que o Pantanal se tornou alvo de tantas investidas de forasteiros que pretendem falar em nosso nome.

Não irei discorrer aqui sobre a sua capacidade empreendedora ou sua indiscutível cultura, sobejamente reconhecida por todos que acompanharam sua trajetória como escritor e, principalmente, como pensador, pois que ao fim de qualquer análise de sua obra , esta é a conclusão inevitável.

Permitam-me, os possíveis leitores desta carta, este rápido momento tribal, pois falo do Abílio, filho  de Sinjão e  Alice, legitimo representante dos papa bananas que levou a história da sua gente às páginas da literatura brasileira, assim como seu irmão Manoel. Pois é, primo, esta gente feia e desarrumada, que não saía nas fotografias, como você dizia, adquiriu status de bons brasileiros, muito graças ao seu trabalho em todas as frentes em que fez prevalecer o nosso ponto de vista sobre a verdadeira vocação da nossa planície e a maneira correta de protege-la.

Obtivemos o reconhecimento mundial como responsáveis pela conservação desta natureza maravilhosa. Mas o caminho, sabemos, não foi fácil. O seu preparo intelectual e sua coragem pessoal enfrentando plateias às vezes hostis, em centenas de assembleias e encontros, debatendo e convencendo pelo brilhante raciocínio e clareza de ideias, assim como seus textos impecáveis, ajudaram a construir a estrada que hoje percorremos .

A missão que me foi dada pelo meu presidente é impossível, sim porque devo levar a você a homenagem institucional do Sindicato Rural de Corumbá, que pode parecer impessoal, quando não o é, pois são os corações pantaneiros que hoje se entristecem com sua partida. Tem sido assim, pouco a pouco nossos mestres se vão e ficamos na esperança de que surjam novas lideranças. Contudo, se fomos capazes de aprender, fica sempre a riqueza das lições. .A sua trajetória será sempre uma fonte onde buscaremos a nossa fortaleza.

Esta carta que lhe escrevo é subscrita por todos os pantaneiros, sindicalizados ou não. Leva com você, ponha no seu alforje, e quando estiver campeando aí na Rancharia Superior lembre--se de nós e nos abençoe.

Transcrevo aqui um poema do nosso poeta Joaquim Eugenio, que, com muita propriedade, traduz o que sempre pensamos a seu respeito:

"Abilio sempre sorria
Mantinha nos lábios um sorriso responsável
Num contraste, o olhar triste
Olhar que enxergava léguas e léguas
Foi um pantaneiro de ser.....
De sorrir....
De sofrer...."

Com estas palavras, me despeço, deixando a todos os seus os mais sentidos pêsames da grande e agradecida família pantaneira.

O meu abraço levarei pessoalmente qualquer dia desses.

Manoel Martins de Almeida, produtor rural do Pantanal de Corumbá (MS)

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