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Opinião

E o Rio Piquiri?

Lições não aprendidas

23 junho 2020 - 15h31Josiberto Martins de Lima

Comitiva Esperança, uma canção icônica com letra de Paulo Simões e Música de Almir Sater, tem um trecho com uma estrofe belíssima que diz: Vai descendo o Piqueri, o São Lourenço e o Paraguai. É como se fosse um hino de Mato Grosso do Sul, não obstante o hino oficial seja um dos mais belos¹, tanto de letra quanto de música. 

Mas o fato é que Rio o Piquiri, que na canção em que é imortalizado, Comitiva Esperança, é grafado com a letra e, está agonizando, com longos trechos tomados por bancos de areia e outros sedimentos carreados para seu leito em processo contínuo que se não for interrompido terá o mesmo fim do Rio Taquari, hoje com longos trechos sem vida, tomados por imensos bancos de areia. E o que é o Rio Piquiri? Ele tem um homônimo no estado do Paraná, também bastante famoso. Mas o Piquiri em referência é um curso d’agua que nasce da junção das águas do Rio Correntes com o Rio Piquirizinho, sendo marco de divisa dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no trecho que vai desde sua nascente – junção das águas – até sua foz no Rio Cuiabá/São Lourenço, conforme art. 2º da Lei Complementar 31/1977, que criou do estado de Mato Grosso do Sul.

A convite de um grande amigo², aceitei fazer com outros três amigos³ apaixonados por natureza e aventura, uma viagem de barco partindo de Corumbá-MS até Sonora-MS, percorrendo trechos, rios acima, do Paraguai, São Lourenço, Piquiri e Correntes, ou seja, o mesmo percurso referido na bela canção Comitiva Espera, só que ao invés de descer subimos. Iniciamos a viagem no final dia 9 e chegamos em Sonora no dia 15 de junho de 2020, quando já era noite. Ao todo percorremos 786 quilômetros. As paisagens, a fauna e a flora são deslumbrantes, de tirar o fôlego. O contato à distância segura de biossegurança com os ribeirinhos, gente simples, que sequer tem notícias sobre a Pandemia da Covid-19; os banhos nas águas translúcidas na Baía do Servo; a vista da Serra do Amolar, a partir da barra do Rio São Lourenço; a primeira visita a Porto Jofre, já no terceiro dia da expedição, de onde foi possível fazer contato via telefone com nossos familiares (4), e muitas paisagens idílicas que foram captadas em fotos, são sentimentos inesquecíveis.

Mas a parte desagradável foi a constatação do assoreamento de longos trecho do Rio Piquiri, principalmente no trecho a jusante da barra do Rio Itiquira. Ali se vê em vários pontos que o gado ainda bebe água às margens desse Rio, pisoteando a mata ciliar e fofando a terra já arenosa, que é carreada para o seu leito pelas águas das chuvas. Também se avista em vários trechos áreas desmatadas até as barrancas, sendo inevitável o desbarrancamento em períodos de enchentes. É desolador. E as consequências podem ser proporcionais ao acidente provocado pelo assoreamento do Rio Taquari, que inundou grandes áreas de pastagens naturais no Pantanal, principalmente na área do Paiaguás, além de isolar comunidades de ribeirinhos, que foram obrigados a se mudarem para periferias e favelas em Corumbá e Coxim, ou pior, ainda permanecem isolados e desassistidos porque não há condições de navegabilidade naquele já foi um dos mais importantes rios de Mato Grosso do Sul.

¹Os celeiros de farturas
Sob um céu de puro azul
Reforjaram em Mato Grosso do sul
Uma gente audaz
²Milton Roberto Becker
³Noli Alessio, Alexandre Reichardt e Emílio Ohara
(4) Vale o registro de que ao longo do trecho percorrido no Rio Paraguai, a não ser na área da cidade Corumbá, não há sinal de telefonia, diferente da situação do percurso do mesmo Rio Paraguai, a partir da cidade Porto Murtinho, rio abaixo, onde há ótima cobertura de sinal de telefone pela #TIGO.

Como o Piquiri é rio de propriedade da União, conforme o art. 20, inc. III, da Constituição Federal, é mais que urgente que as autoridades constituídas, principalmente do IBAMA e do ICMBio, tomem providências para evitar mais um desastre ambiental de proporções incalculáveis. Também os pecuaristas com áreas nas margens do Rio Piquiri, por iniciativa própria, para evitar que suas pastagens sejam inundadas pelas águas em virtude do assoreamento, podem adotar medidas no sentido de prover bebedouros para seus rebanhos e recompor a mata ciliar nos pontos que estão em processo de degradação. Tanto Mato Grosso como Mato Grosso do Sul não merecem perder mais um de seus rios icônicos, por isso as autoridades dos poderes executivo, legislativo e judiciário devem agir para evitar o perecimento desse maravilhoso curso d’agua.

Josiberto Martins de Lima
Advogado em Campo Grande-MS
Procurador da Fazenda Nacional, aposentado
Tweet: @josibertolima 

 

 

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