Menu
Menu
Busca segunda, 16 de fevereiro de 2026
Águas Guariroba - Fev26
Opinião

Mentira, direito de todos e dever do Estado

30 janeiro 2015 - 00h00Percival Puggina
Em setembro de 1980, a jornalista Janet Cooke trabalhava na seção de temas "Semanais" do Washington Post, onde, para ingressar, inflara significativamente seu nível de formação profissional. Nessas condições, ela escreveu um artigo - "Jimmy's World" - no qual relatou a surpreendente história de um menino de oito anos que se tornara adicto à heroína, levado a isso pelo namorado da mãe. A história teve enorme repercussão. Enquanto ela "preservava sua fonte" (o caso inteiro era uma invenção), as autoridades se empenhavam, inutilmente, em procurar pistas que levassem à criança. Dentro do próprio jornal surgiram dúvidas sobre a veracidade do relato. A direção, porém, bancou a funcionária e sua matéria. Candidatou-a ao cobiçado "Pulitzer Price for feature writting" (textos de especial interesse humano). O menino, o namorado da mãe, a mãe, a jornalista e o principal postulador do prêmio para a autora de Jimmy's World dentro da comissão de seleção era um militante negro, interessado em revelar aos brancos a realidade das drogas na comunidade negra.

Janet Cooke ganhou o mais cobiçado troféu do jornalismo norte-americano! Só foi desmascarada, dias após, porque a divulgação de seu perfil profissional fez com que a universidade onde obtivera o bacharelado suspeitasse de que tudo mais que ela dissera de si mesma era falso. E a teia das mentiras foi se rompendo. O Post divulgou o que ficara sabendo, extraiu a confissão da moça, e pediu a retirada do prêmio.

Pois bem, existem mentiras de todo tipo, mentiras piedosas, mentiras avulsas. Existem, também, como no relato acima, mentiras que envolvem compromissos. Estas últimas são construídas dentro de uma rede de solidariedade. Precisam de apoios. Precisam de quem as repita e de quem as referende.

Agora, passo ao Brasil. São mentiras assim que estão em curso no nosso país, há bom tempo. Graças a elas, a Nação é empacotada como besouro colhido em teia de aranha. Usadas como instrumento da política, essas mentiras são multiplicadas graças à teia de solidariedade entre interesseiros mentirosos, que acabam envolvendo nela a nossa liberdade e a nossa vitalidade como indivíduos e cidadãos. Os compromissos firmados em torno das mentiras paralisam a Nação. Não esqueçamos: a aranha tem objetivo final bem conhecido em relação à sua presa.

Poderíamos usar a fórmula e a cadência de certos preceitos mágicos incluídos na Constituição Federal e afirmar que, aqui no Brasil, a mentira é direito de todos. E dever do Estado. De fato, nossa legislação protege o mentiroso. E ninguém mente mais à Nação do que o Estado. Durante a campanha eleitoral, a presidente Dilma mentia para trás, vangloriando-se de inexistentes realizações e conquistas dos governos petistas. Mentia para a frente, anunciando um futuro brilhante para o próximo quadriênio. Atribuía, falsamente, intenções perversas a seus opositores. Essas mentiras eram repetidas, país afora, por uma rede de multiplicadores formada por centenas de milhares de ativistas.

Findo o pleito, mantida a cadeira e a caneta, a presidente passou a fazer nada do que havia prometido. E foi adiante. Jogou inteiro sobre a sociedade o saco de maldades que, durante a campanha, ela mesma se encarregara de pendurar nas costas de seu adversário. Mesmo assim, são poucos, muito poucos, os que erguem a voz para denunciar que caímos numa rede de mentiras ante as quais nada podemos fazer porque, como disse, no Brasil, a mentira é direito de todos. E dever do Estado.

Percival Puggina - membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Reportar Erro

Deixe seu Comentário

Leia Também

MInistro do STF, Flávio Dino
Opinião
Dino vota por afastar Lei da Anistia para crimes permanentes
Advogado especialista em Direito Eleitoral, Vinicius Monteiro
Opinião
Sílvio Santos, Collor e Bolsonaro: decisões eleitorais e a construção da democracia brasileira
Bosco Martins, escritor e jornalista
Opinião
OPINIÃO: CPF à luz do dia: esconder dados enfraquece a democracia
Bosco Martins, escritor e jornalista
Opinião
OPINIÃO: IA e as eleições
OPINIÃO: Não deixe seu filho assistir a vídeos curtos
Opinião
OPINIÃO: Não deixe seu filho assistir a vídeos curtos
Lela Riedel
Opinião
Opinião: A Arte Delicada e Colorida de Lela Riedel
OPINIÃO: RMCom: 60 anos  O abraço que atravessa gerações
Opinião
OPINIÃO: RMCom: 60 anos O abraço que atravessa gerações

Mais Lidas

Crime aconteceu no começo da semana
Polícia
Após furtar produtos de loja, ladrão audacioso ameaça comerciante em Campo Grande
VÍDEO: Homem é socorrido em estado grave ao ser baleado no Celina Jalad
Polícia
VÍDEO: Homem é socorrido em estado grave ao ser baleado no Celina Jalad
General Mario Fernandes
Justiça
Exército diz ao STF que general pode receber visita íntima na prisão
Paulo Bial Torres, o "Paulinho Metralha"
Justiça
'Paulinho Metralha' é condenado a 21 anos de prisão por matar inocente em Campo Grande