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Opinião

UM ANTICLINAL

A sucessão de eventos e erros pelos quais emergiu Jair Bolsonaro e os efeitos de sua gestão para o Brasil

25 maio 2020 - 16h24Josiberto Martins de Lima

Euclides da Cunha[i] em trecho de sua obra memorável descreve o ambiente insular e as razões que ensejaram o surgimento do Beato Antônio Conselheiro como uma anticlinal étnica, numa alusão ao campo de estudo da geologia, de análise de montanhas de rochas extintas. Em nota o autor define a anticlinal como dobra, curvamento ou flexão que sofrem as rochas, cujos flancos se voltam para baixo e cuja convexidade se volta para cima. Euclides da Cunha sugere que os mesmos princípios da análise geológica se aplicam ao fenômeno Antônio Conselheiro. As várias estratificações rochosas e as suas diferentes posições, sejam contíguas ou superpostas, ajudam o geólogo a deduzir a existência e a idade de montanhas em épocas remotas. Assim, as camadas mais antigas afloram à terra superpondo-se às estratificações mais recentes. O paralelo é extremamente ilustrativo, porque através dele entendemos como um indivíduo arcaico – O Conselheiro – chegou à “superfície” da História. O asceta é o resultado de toda uma longa e complexa tradição dos fanatismos religiosos que então se atualizaram e vicejaram nos sertões do Nordeste. E ao mesmo tempo o seu desequilíbrio psíquico como indivíduo.

Assim, segundo Euclides da Cunha, da mesma “forma que o geólogo interpretando a inclinação e a orientação dos estratos truncados das antigas formações esboça o perfil de uma montanha extinta, o historiador só pode avaliar a altitude daquele homem, que por si nada valeu, considerando a psicologia da sociedade que o criou”. Prossegue avaliando que poderia “ser incluído numa modalidade qualquer de psicose progressiva. Mas posto em função do meio, assombra”. Conclui asseverando que o Beato “apareceu como integração de caracteres diferenciais – vagos, indecisos, mal percebidos quando dispersos na multidão, mas enérgicos e definidos quando resumidos numa individualidade”.

Pois bem, como explicar a agonia que agora nós brasileiros estamos sofrendo, cumulada de três fatores importantes, sendo que dois são comuns a toda humanidade: a crise sanitária decorrente da Pandemia da COVID-19,  com centenas de milhares de mortes; e a crise econômica que vem a reboque da crise sanitária, em razão dos ingentes esforços e medidas de controle para salvar vidas, com quarentenas e paralisações de setores produtivos. Mas infelizmente aqui no Brasil viceja outro grande problema consistente de um fator político-institucional, causado principalmente pela maneira desastrada e tacanha que o Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, imprime em sua maneira de agir, com mesquinhez e desumanidade, uma vez que tenta a todo custo retomar as atividades produtivas e do comércio em geral, sem critérios mínimos de biossegurança, pondo em risco inumeráveis vidas humanas, pois o contágio de forma célere e descontrolada infeccioso pelo Coronavírus será inevitável, impossibilitando o sistema de saúde de atender a todos os contaminados ao mesmo tempo.

Nessa empreitada macabra para obter seu intento, o Presidente da República vem se revelando, ou melhor, confirmando ser uma figura tosca e deplorável, demonstrando preocupação apenas com as consequências econômicas da Pandemia da COVID-19, com evidente e repugnante desprezo pela vida humana. A Pandemia se revelou avassaladora desde o início do mês de março de 2020, já estamos caminhando para o final do mês de maio de 2020. E o que fez Jair Messias Bolsonaro até agora: demitiu dois ministros da Saúde que, entre outras razões, não se submeteram ao seu desvario de implantar um protocolo para ministrar o medicamento cloroquina de forma generalizada a todas as pessoas infectadas pelo Coronavírus, um medicamento que até o momento não tem eficácia comprovada no combate ao vírus, além do efeito colateral de arritmia cardíaca em aproximadamente trinta por cento das pessoas que dela fazem uso, segundo relatos de especialistas. Importante notar que o primeiro ministro da Saúde que foi demitido, Luis Henrique Mandetta, estava fazenda uma gestão da crise da Pandemia de forma bastante satisfatória, em coordenação com os secretários estaduais e municipais de saúde, com amplo apoio dos principais da área e uma avaliação bem superior à do Presidente da República. Já o ministro da Saúde que sucedeu Mandetta, Nelson Teich, ongologista renomado, não ficou nem um mês no cargo, tendo pedido para sair sem ter tido a oportunidade de apresentar algum projeto de flexibilização da quarentena, uma vez que Bolsonaro não se satisfez com o plano gradual apresentado. Não satisfeito com a enorme confusão causada no Ministério da Saúde, Bolsonaro forçou a saída do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, ex-Juiz da Operação Lava-jato, um símbolo no combate à corrupção, que não concordou com a interferência do presidente da República na Superintendência da Polícia Federal no estado do Rio de Janeiro, no intuito de proteger familiares e amigos de investigações comprometedoras em curso, gerando uma crise política de contornos ainda a serem definidos, o que implicou a abertura de inquérito policial, a pedido do Procurador-Geral da República, que está sob a relatoria do Ministro decano do Supremo Tribunal Federal, com conteúdo convulsivo e potencial de gerar uma denúncia por crime de responsabilidade contra o Presidente. Referido inquérito policial passou a ser objeto da pauta diária e constante da mídia impressiva, radiofônica e televisa, além de referências a ele terem se disseminado pelas redes sociais, provocando e acirrando debates, alimentando a ira de correntes ideológicas, opondo membros de uma mesma e diversas famílias e rompendo laços de amizades. Isso tudo em meio a uma Pandemia sanitária gerada pela COVID-19 que atormenta e amedronta a todos.

Se não bastasse essa pletora de má sorte, o Presidente incentiva um movimento organizado por fanáticos de extrema direita cuja principal bandeira é um golpe de estado, com intervenção no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal, por não se conformarem com deliberações legislativas e decisões judiciais que barram iniciativas claramente inconstitucionais e contrárias ao interesse da maioria da população, veiculadas em medidas provisórias com força de lei e em decretos emanados do Poder Executivo. Tornou-se programa de domingo, insólito, manifestações antidemocráticas com aglomerações de pessoas no Eixo Monumental de Brasília e na Praça dos Três Poderes com a participação efusiva do Presidente da República, empunhando as bandeiras do Brasil, dos Estados Unidos e de Israel; e seus sequazes, com faixas padronizadas em veículos de luxo e caminhões tratores, com palavras de ordem, alaridos e agressões a jornalistas destacados para fazer a cobertura de tais atos. É como se fossem “mendigos fartos”, numa linguagem figurativa de Euclides da Cunha, tendo como líder, desta feita, o chefe supremo da Nação, que não se condói com o sofrimento e o risco a que expõe milhares trabalhadores ao risco de contágio pelo Coronavírus, que ficam em situação semelhante àqueles sofridos “sertanejos do norte” que seguiram Antônio Conselheiro, ou seja, sem pai e sem mãe. Não raro o Presidente da República sai em finais de semana pelas ruas de Brasília, guarnecido por portentoso comboio de seguranças, fazendo paradas em bancas de churrasquinhos montadas em passeios públicos, padarias e lojas de comércio popular, gerando enormes aglomerações, com riscos enormes de infecção pelo Coronavírus.

Ao ser indagado da suspeita de ter contraído o Coronavírus, depois de uma viagem aos Estados Unidos, quando vários integrantes de sua Comitiva foram infectados, o Presidente Bolsonaro disse que “depois da facada não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”, se referindo a um atentado a faca sofrido durante a campanha eleitoral de 2018. E logo depois, durante pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão, também se referiu à doença causada pelo vírus como “gripezinha” e “resfriadinho” e que devido ao seu “histórico de atleta” não haveria problema algum se fosse infectado. Mas o fato é que até o dia 20 de maio de 2020 a COVID-19 consumiu a vida de 22.666 (vinte e dois mil e seiscentos e sessenta e seis) brasileiros, pelos dados oficiais divulgados pelo Ministério da Saúde, sendo notória a subnotificação de casos e óbitos decorrentes da doença, podendo tais números ser muito superiores, uma vez que os testes para detecção da presença do vírus está muito abaixo da taxa de outros países. Mesmo assim, pelos dados oficiais do Ministério da Saúde, até o dia 24 de maio de 2020 confirmados 363.211 (trezentos e sessenta e seis mil e duzentos e onze) casos de infecção. Esses números demonstram que as estratégias de contenção da Pandemia da COVID-19 no Brasil não apresentaram até agora os efeitos desejados, sendo essa a avaliação de muitos especialistas que atribuem tais resultados à dubiedade de discursos e divergências das autoridades responsável pelas ações de controle da doença. De um lado, o Presidente da República Jair Bolsonaro, que, na contramão das orientações da Organização Mundial de Saúde – OMS e dos principais especialistas em doenças infecciosas, tenta atender demandas de empresários aliados no sentido de uma imediata retomada de todas as atividades produtivas e do comércio em geral, sem nenhuma preocupação com os potenciais riscos de contágio e o estrangulamento do Sistema de Saúde, que não tem capacidade de atender todas as vítimas que necessitarem de tratamentos em UTIs; de outro lado, os governadores e prefeitos que tentam adotar políticas de distanciamento social por meio de quarentena e bloqueios em vias públicas, seguindo as orientações da OMS e de especialistas em doenças infecciosas, mas sem muito sucesso, uma vez que boa parte da população adere ao discurso voluntarioso e imprudente do Presidente da República. O resultado é que o Brasil já ocupa o 3º lugar no mundo em número de casos confirmados, atrás apenas dos Estados Unidos.

Ante esse quadro dramático e angustiante que os brasileiros vivenciam; considerando o  comportamento errático do Presidente da República Jair Bolsonaro, que persiste em sua tática belicosa geradora de crises com os demais poderes da República; com governadores e prefeitos desesperados devido ao aumento de casos da COVID-19, sendo que em várias cidades há registro de falta de UTIs com respiradores para tratamento das pessoas infectadas; com equipes médicas esgotadas e nos limites de suas forças físicas e emocionais, por não poderem dar um tratamento adequado aos seus pacientes; também os serviços funerários que em várias cidades já não dão conta de sepultar os corpos das vítimas da doença, é humanamente incompreensível a maneira de agir do Presidente da República.

Outra coisa ele, Jair Bolsonaro, não parece, se não o resultado de uma atividade anticlinal, regressiva da sociedade, uma figura tosca emergida através de uma fenda causada por uma disfunção atávica do tecido social, como um organismo defeituoso retardatário que teria ficado retido em uma cavidade de um pedaço de rocha submersa e tendo emergido e rebentado em fase mais evoluída com a qual não se coaduna e nem se conforma, daí sua semelhança com o beato Antônio Conselheiro, que tanta confusão e desventuras causou aos sertanejos, que ao fim e ao cabo tiveram suas interrompidas no Arraial de Canudos, ainda nos primórdios da 1ª República. Tal como o Beato são notórios os efeitos nocivos das ações erráticas Bolsonaro, com sérios danos à imagem do Brasil no exterior, implicando embaraços nas relações diplomáticas com diversos países, além de afetar as trocas comerciais com nossos parceiros pelo mundo afora. É certo ainda que nenhum grande investidor, bem informado, fará aportes de recursos em projetos aqui no Brasil, ao menos no curto e médio prazo, enquanto perdurar o clima de instabilidade institucional ora vivenciado. Para além dessas consequências danosas à imagem externa do Brasil e suas relações comerciais, no âmbito interno persiste um ambiente de enorme incerteza, com a sensação de que a qualquer momento algo de pior possa acontecer, devido aos sinais e ameaças quase que diárias emitidas pelo Palácio do Planalto, que a cada dia vai ficando mais parecido com uma fortaleza em tempo de guerra, sitiada por um inimigo indefinido.

*Josiberto Martins de Lima
Advogado em Campo Grande-MS
Procurador da Fazenda Nacional aposentado

Twitter: @josibertolima

 

 

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