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Turismo

Do Porto ao Alentejo, um roteiro completo pelos sabores de Portugal

26 dezembro 2011 - 09h31Bruno Agostini

Vista de Vila Nova de Gaia, a cidade do Porto nos convida a espreitar janelas e frestas entre telhados, a se perder num sobe e desce por ruas estreitas, vielas, becos e histórias contadas por anônimos.

Avistada do outro lado do Douro, a segunda cidade mais importante de Portugal é percebida embalada pelas caves emparelhadas à margem do rio, entre um gole e outro de vinho do Porto, com seus sabores e aromas.

Este país de cenas tão óbvias quanto encantadoras oculta um enorme poder de sedução de norte a sul, que vem embalado em roteiros onde o vinho é a principal atração, a ser degustada em ambientes modernos, confortáveis e luxuosos na conta certa para não perder o charme.

Nos últimos anos, Portugal buscou seu lugar no turismo mundial. Melhorou a infraestrutura, tornou os serviços mais eficientes e encontrou o nicho dos sabores de vinhos e comidas de cada uma de suas regiões. Até porque, apesar de pequeno no tamanho, é diverso na identidade — para os que se dispõem a descobri-lo, ou redescobri-lo.

Do Porto a Régua, um roteiro ribeirinho às margens do Douro

O Porto é a principal cidade para explorar as delícias do Norte de Portugal, o Dão, a Bairrada, o Minho e a região vinícola do Rio Douro. A cidade mercantil e industrial, lembrada por suas caves à meia-luz, é ponto de partida para quem aprecia os sabores dos vinhos e da boa mesa. O circuito básico começa nos bares da Ribeira, nas caves de Vila Nova de Gaia, entre arcadas e centenárias paredes de pedras.

Mas nem tudo é tradição e antiguidade quando o assunto é o vinho do Porto. Também existem empresas relativamente jovens, como a Churchill’s Port. A empresa, fundada em 1981, chegou ao mercado apenas três anos depois, quando conseguiu cumprir a complexa legislação que regulamenta a produção desse vinho. Só se pode exportar depois de ter estocado em seu armazém o equivalente a dois terços da quantidade a ser embarcada. São hoje mais de 360 mil garrafas de vinho por ano.

— Temos 30 anos, mas somos jovens, muito jovens — diz Maria Emília Campos, uma portuguesa jovial, esguia e de cabelos curtos.

Fundada pelo inglês John Graham, a Churchill’s reflete uma safra de empreendedores que decidiu inovar para conquistar paladares e divisas e, ao mesmo tempo, manter a alma e a tradição da região, mas apostando também no luxo e na modernidade.

É isso o que acontece, por exemplo, no hotel The Yeatman, em Vila Nova de Gaia, investimento milionário do grupo dono de três das mais tradicionais marcas de vinho do Porto: Taylor’s, Fonseca e Croft.

É o que se chama de hotel-conceito, onde quase tudo gira em torno do assunto principal, o vinho. São 82 suítes decoradas de maneira diferente. Na garrafeira, como os portugueses chamam a adega, estão meio milhão de garrafas, entre os melhores rótulos de Portugal, o que torna o bar quase um clube privado, onde apreciadores de vinho não só podem trocar informações entre si quanto recorrer à atenciosa e competente equipe de funcionários.

Como não poderia deixar de ser, o spa também segue o tema vínico, e é uma das principais atrações, para hóspedes ou não. O Spa Vinothérapie é um conjunto de saunas e piscinas, com massagens, tratamentos relaxantes e de beleza, nos quais a ideia é relaxar e se lançar ao ócio.

Nem todos os encantos de um roteiro pelo Porto estão do outro lado do Rio Douro, em Vila Nova de Gaia. A própria cidade apresenta programas deliciosos, a começar por um passeio pelo Cais da Ribeira. O Porto tem endereços clássicos, como o Café Majestic, com sua arquitetura rebuscada, seus espelhos e candelabros — e, o mais importante, os seus doces, como os famosos ovos moles, e as suas acertadas receitas de bacalhau. A velha cidade e seus ícones merecem ser exploradas: a Sé, construção dos séculos XII e XIII; a Igreja de São Francisco, do século XIV, e a Torre dos Clérigos, do século XVIII, continuam a dispensar qualquer modernidade.

As portas do turismo também se abrem Douro acima, nos roteiros pelas vinícolas. As encostas com vinhedos foram esculpidas por mãos humanas, mas, aos nossos olhos, é a natureza que se agiganta. A paisagem se espelha nas águas e um comboio (como os portugueses chamam o trem) segue o traçado dos trilhos entre os montes que descem até o curso d’água.

Os roteiros pelo Douro podem ser feitos de barco, trem ou, para os que gostam de dirigir, de carro — ótima pedida para aqueles que preferem parar quando dá vontade, para esmiuçar melhor o cenário, explorar os cafés ou docerias, as vinícolas. Aliás, esta é a melhor opção caso pretenda visitar uma quinta, lembrando-se apenas de agendar com o anfitrião.

Os vinhos, ah, os vinhos... Da região demarcada do Douro saem os vinhos do Porto, fortificados com aguardente, naturalmente mais doces e com teor alcoólico mais alto, entre 19 e 22º de álcool, e os vinhos do Douro, tintos, rosados ou brancos, todos eles regulamentados pelo Instituto do Vinho do Porto e pela Casa do Douro. São cerca de 285 as castas nativas em Portugal. Touriga nacional, touriga franca, tinta roriz (também chamada aragonez, no Sul de Portugal, ou tempranillo, na Espanha), tinta barroca e tinto cão estão entre as mais conhecidas na região do Douro.

Com tanta diversidade, cada vinícola se encarrega de inovar e desenvolver a complexidade de seus vinhos fazendo a mistura de castas. Há vinhos produzidos com mais de 30 castas catalogadas. Entre as inovações, está também a forma de maturação da bebida. Se antes eram usados gigantescos barris de madeira, agora muitos adotam barris novos de carvalho, de tamanho menor, ou cubas em inox. Algumas vinícolas fazem os seus vinhos do jeito mais antigo, com grupos pisando as uvas com os pés, animadamente. Outros, apostam em equipamentos que reproduzem esses movimentos, com maquinário moderno, feitos com peças de silicone, que simulam a textura dos pés humanos, fazendo força similar.

Assim como as castas, os vinhos portugueses têm personalidades distintas: há brancos leves, e outros com madeira, untuosos, rosados e tintos, com diferentes níveis alcoólicos, com ou sem madeira, sem falar nos doces e nos fortificados. A escolha, digamos, é uma questão de oportunidade, gosto pessoal e preço.

Se a cidade do Porto é o local do envelhecimento e do comércio do vinho, Peso da Régua — ou apenas Régua — é o centro dos produtores da primeira região vinícola demarcada do mundo, o Alto Douro, declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Na cidade, situada na região de Trás-os-Montes, está o Museu do Douro, na Casa da Companhia, com constantes exposições sobre o tema.

Em Peso da Régua são ainda famosas as feiras de vinho. E, assim como no restante do país, as igrejas e as capelas dividem atenção dos turistas com outras atrações, como os cruzeiros que navegam pelo Douro, com partidas do cais fluvial de Régua. No passado, dali saíam os barcos de madeira, chamados rabelos, que levavam os barris até as caves de Vila Nova de Gaia. Hoje as embarcações a vela enfeitam o cenário no Douro, em frente ao Porto e a Vila Nova de Gaia, para alegria dos fotógrafos, amadores e profissionais,

Viajar de trem de Peso da Régua a Pocinho, passando por Pinhão, é uma outra opção de passeio agradável. São 175 quilômetros de distância, dos quais cerca de cem são feitos avistando o rio. Uma beleza de viagem.

A cinco minutos de Régua, em pleno vale do Douro, o Aquapura Douro Valley é outro refúgio luxuoso, localizado na margem sul do rio. A proposta é de um paradeiro romântico, com direito a spa e todos os outros mimos. Todo o hotel funciona à meia-luz. Uma casa senhorial do século XIX foi restaurada e a ela foi acoplada uma ala nova.

No total, são 50 quartos e 21 suítes com janelas panorâmicas que oferecem uma vista linda do rio, do vale e dos jardins exuberantes. Para abrir as cortinas, recorre-se à tecnologia: basta apertar um botão para a paisagem se mostrar. As refeições são caprichadas, a escolha dos vinhos (quase sempre do Douro) é certeira, e o spa com saunas aromáticas e camas d’água é irresistível. Nem pense em fazer o contrário: vá bem acompanhado.

Entre condes e Patos do Dão à Bairrada

A cerca de 80 quilômetros de Régua, Viseu é outro ponto de parada estratégico, na Região Demarcada do Dão. A touriga nacional é a casta dominante, originando tintos encorpados, retintos e propensos ao envelhecimento. Instituída em 1908, a região tem cerca de 20 mil hectares de vinha e uma Rota de Vinhos com 35 membros, entre adegas e quintas. Nessas paragens, a Quinta de Cabriz, na vila de Carregal do Sal, é destino certo para um prazeroso almoço, regado a vinhos espetaculares. É uma visita memorável.

Bem perto dali, a Serra do Caramulo, com suas 12 nascentes e bosques de carvalho, garante o corredor de ventos que beneficia o cultivo das videiras. Pedro de Vasconcellos e Souza, Conde de Santar, formado em agronomia com mestrado em enologia, passou 18 anos fora de Portugal, 12 deles no Chile e Uruguai, a cuidar de vinhos. Não à toa o seu Casa de Santar Reserva 2007, servido a bordo da TAP, foi premiado pela revista americana "Global Traveler" como o melhor vinho tinto servido por companhias aéreas.

Na Vila de Santar, como o próprio nome já sugere, tudo o que há ao redor surgiu em função da Casa de Santar, magnífica propriedade onde Pedro e a mãe, a condessa, vivem até hoje. Os filhos de Pedro, adolescentes, moram em Lisboa, mas é na propriedade, junto com a matriarca, que ele toca os negócios da família. São 400 anos de história no solar que guarda carruagens da monarquia e uma capela original onde vestes de bispos pertencentes à família se mantêm intactas.

Do lado de fora, o solar é demarcado por grossas correntes. Antigamente, quem as ultrapassasse estava sob proteção da família Santar. Aos fundos, os jardins bem cuidados desenham corredores de roseiras. As flores são plantadas de forma que as cores sigam às do brasão da família. Num dos lados da propriedade está uma fonte revestida de azulejos. Onde no passado os cavalos matavam a sede, hoje vivem peixes coloridos. Uma lojinha, na lateral do solar, oferece vinhos, geleias, doces e apetrechos sobre uma mesa comprida.

No roteiro dos vinhos, a outra parada desta nossa viagem é na Bairrada. Esqueça a monarquia. As casas simples, com pés de couves a demarcar os quintais, levam a uma Portugal modesta, mas também em busca da modernidade.

Para começar, o mais famoso ali é o leitão à Bairrada, assado no espeto, servido com vinhos da região. Sem a bebida, o leitão do restaurante Mugasa, localizado na praça da vila de Sangalhos, não seria o mesmo. Assim como a Bairrada não seria a mesma sem a presença de Luis Pato, que assumiu em 1980 a Quinta do Ribeirinho, antes comandada pelo pai, e imprimiu seu estilo arrojado. Inovação e marketing parecem ser as palavras-chaves da marca, famosa por seu premiado espumante.

— O Brasil é meu primeiro mercado — diz Luis Pato, que visita o país regularmente para apresentar seus vinhos.

Fernão e Francisco, seus dois netos, foram homenageados com bebidas pelo avô. Cada um deles tem garrafas "demarcadas" com seu ano de nascimento. Sabores e aromas são diferentes, criados especialmente para os dois meninos. Francisco, nascido em 2009, foi homenageado com um tinto de sabor adocicado e aveludado. Fernão inspirou um espumante.

O avô é, por assim dizer, um experimentador. Há sempre novidades em seus vinhos e elas abrem portas para a marca no restante do mundo. É evidente o entusiasmo de Luis Pato ao apresentar cada rótulo. Para um bom vinho, nada melhor que um bom contador de histórias. Afinal, sem elas, a bebida não tem o mesmo sabor.

Alentejo: bons vinhos e boas histórias em Évora

Évora é o coração do Alentejo e pulsa em meio a planícies onduladas, a apenas 130 quilômetros de Lisboa. Numa terra de cores que oscilam do verde aos tons ocres, os alentejanos suspiram a identificar seus vinhos, percebendo aromas tão diversos, como manga, mel, cravo, chocolate ou amora. Não é raro que lhe sugiram primeiro o vinho e, só depois, o prato que melhor o acompanha.

Integrante da marca The Luxury Collection, o hotel Convento do Espinheiro ocupa um edifício histórico do século XV. Monumento nacional, o imóvel foi repassado à iniciativa privada, restaurado e adaptado para ofertar uma das melhores hospedagens de Portugal. Vagar pelos corredores é como visitar um museu. Na capela, que pode ser usada para casamentos, os azulejos das laterais contam quadro a quadro a história de São Jerônimo.

Bem perto do altar, há dezenas de lápides. Sob uma delas estão os restos de Isabel Aranha, nobre que pagou e deixou encomendadas 12 mil missas para lhe abrirem as portas do céu. Na antiga cisterna do convento, funciona o bar de degustação de vinhos, onde espumantes são abertos com espadas por Cristiano Santos, um jovem que decidiu plantar nas terras do antigo convento 400 pés de vinhas e, daqui a um ano, calcula, poderá produzir 400 garrafas a cada safra. No Espinheiro, os hóspedes podem ajudar a fazer o pão no forno a lenha de mais de 400 anos, desde que acordem cedo.

No século XV, quando os monges viviam ali, eram eles os donos das vinhas. Ainda nesse período em que dominavam o negócio de fazer vinhos, no convento, dentro da área do centro histórico, ao lado do prédio do correio, o claustro mantinha pequenas aberturas. Afinal, eram mulheres que estavam ali e considerava-se que a alma feminina não conseguia se manter isolada a ponto de nem ao menos espiar a rua.

Em Évora, assim como em quase todo o país, nas obras há sempre a presença de um arqueólogo. No coração da cidade, entre os monumentos muito antigos, encontramos colunas romanas de granito, em base de mármore, conhecidas como Templo de Diana. Não faz muito tempo, na Câmara de Évora, que funciona num palácio, foi descoberta uma sauna de banhos públicos no lugar onde se pretendia fazer simplesmente um café. Os arqueólogos salvaram o patrimônio da destruição.

A impulsividade vibra em Évora, o que a faz diferente não só pela beleza de suas antigas construções, mas pela objetividade em buscar o novo, mas sempre valorizando o passado. O roteiro pela cidade passa obrigatoriamente pela Capela dos Ossos, pelas muralhas romanas e pelo aqueduto do século XVI, que convivem pacificamente com um telão que se abre na praça central para a projeção pública de filmes.

Vale uma visita ao antigo colégio jesuíta, onde funciona hoje a faculdade de Évora. Ali, a primeira aula ocorreu em 1559. No pátio das arcadas internas, dois anjos com cestas de frutas tropicais, à la Carmem Miranda, são referência ao Brasil.

Ainda no centro histórico de Évora, um escritório da Comissão Vitivinícola Alentejana organiza roteiros de enoturismo e agenda visitas. Dos mais antigos, ainda feitos em talhas de cerâmica, aos mais modernos, maturados em cubas de inox com temperatura controlada, os vinhos alentejanos evocam maciez e docilidade. E proliferam. De 1985 para cá, o número de produtores saltou de 20 para 146, com uma profusão de novos rótulos.

— Um bom vinho é o que tem a melhor história. Os vinhos precisam ter personalidade e, neste mercado, gostar do trabalho faz parte do glamour — diz Paulo Laureano, que começou no ramo como consultor e acabou, ele próprio, produzindo vinhos e assinando rótulos.

Não muito distante de Évora, em estrada de terra, mas com acesso fácil, está o impressionante Cromeleque. São megalitos (pedras) dispostos no topo de uma colina, em círculo, há mais de 6 mil anos, segundo cálculos dos cientistas. Porque o Alentejo é uma eterna surpresa.

Serviço

Onde comer

Casa de Santar Gourmet: Santar, Viseu. Tel. (351) 232-94-2937.

Mugasa Restaurante: Apartado 49, Fogueira, Sangalhos, Bairrada. Tel. (351) 234-741-061.

Vinhos

Churchill’s Port: Rua da Fonte Nova 5, Vila Nova de Gaia. Tel. (351) 223-703-641. churchills-port.com

Luis Pato Vinhos: Ribeiro de Gândara, Amoreira da Gândara, Anadia. Tel. (351) 231-596-432. luispato.com

Paulo Laureano Vinus: Alentejo. Tel. (351) 284-437-060. paulolaureano.com

Taylor’s: Rua do Choupelo 250, Vila Nova de Gaia. Tel. (351) 223-742-800.

Na internet

Vale a pena consultar os sites das regiões vinícolas, com boas informações: vinhosdoalentejo.pt, ivdp.pt, cvrdao.pt e cvbairrada.pt.

Com informações do jornal O Globo.

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