Quase cinco décadas depois da criação de Mato Grosso do Sul, uma parte até então escondida dos bastidores da formação do Estado começa a ser revelada. Uma pesquisa do Arquivo Público Estadual localizou 92 propostas apresentadas no concurso realizado em 1978 para a escolha do hino, entre elas letras, melodias manuscritas, composições e documentos produzidos por autores de diferentes partes do país.

O material estava preservado desde a época do concurso e passou a ser localizado a partir de uma pesquisa iniciada em 2024, quando a equipe do Arquivo Público decidiu revisitar o processo de criação dos símbolos que representariam o novo Estado. A busca começou por registros sobre bandeira, brasão e hino e acabou levando os pesquisadores a um acervo muito maior do que o inicialmente imaginado.

Segundo o coordenador do Arquivo Público Estadual, Douglas Alves da Silva, a existência de apenas sete hinos mencionados em um relatório antigo fez com que a descoberta de dezenas de outras propostas fosse ainda mais surpreendente.

“A grande surpresa foram as 92 participações registradas. Hoje temos o nome de quase todos esses participantes e conseguimos identificar de onde vieram as propostas. São hinos enviados de várias partes do Brasil, além de muitos de Campo Grande.”

Entre os documentos estão trabalhos enviados por candidatos de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Sergipe, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e outras localidades. Há ainda materiais assinados por músicos, maestros, poetas e outros autores que participaram daquela tentativa de construir, em forma de música, a identidade do novo território.

O concurso foi rejeitado pela Fundação Nacional de Arte (Funarte) em dezembro de 1978. Poucos dias depois, porém, Mato Grosso do Sul precisava de uma composição para marcar oficialmente o início de sua existência. A solução veio por outro caminho: uma nova música foi encomendada e, a partir dela, começou a ser construída a obra que posteriormente se tornaria o hino oficial.

Filha do compositor Otávio Gonçalves Gomes, a servidora pública Rhea Silvia Gonçalves Gomes tinha 16 anos quando acompanhou de perto o processo. Ela conta que a melodia chegou à família e passou a ser trabalhada no piano por sua mãe, que era pianista formada em conservatório.

Enquanto ela tocava, o pai escrevia a letra. As cinco filhas também eram chamadas para cantar e ajudar a testar se as palavras se encaixavam na melodia. Para Rhea, falar sobre o hino quase 50 anos depois é também revisitar uma memória familiar que acompanhou os primeiros passos do Estado.

“Eu me emociono todas as vezes que escuto o hino, porque eu vivi tudo isso. Tenho um orgulho muito grande de representar hoje a minha família e o meu pai, que ajudou a construir uma parte dessa história", destaca.

O material encontrado pelo Arquivo Público passou por uma etapa de preservação e catalogação. Segundo Douglas, 100% dos hinos já foram digitalizados, incluindo as letras, melodias e outros documentos associados às propostas.

Para o pesquisador, a descoberta também responde a uma pergunta que durante anos permaneceu sem resposta: o que havia acontecido com os trabalhos que participaram do concurso?

“Ainda bem que esses documentos não foram descartados. Em algum momento, alguém teve a sensibilidade de guardar esses hinos. Eles permaneceram dentro do próprio material original e isso permitiu que, décadas depois, conseguíssemos localizá-los", explicou.

A equipe ainda procura pelas propostas de bandeiras e brasões que participaram do mesmo processo. Até agora, os hinos foram a grande descoberta.

O conteúdo deverá ganhar uma publicação própria do Arquivo Público e ficar disponível para pesquisadores, ampliando o acesso a um conjunto de documentos que, até pouco tempo atrás, permanecia praticamente desconhecido.

Memória que sai dos arquivos

A descoberta chega ao público por meio da programação do Espaço Energia, em Campo Grande, onde a exposição sobre o hino apresenta o processo de construção dos símbolos sul-mato-grossenses e aproxima os documentos históricos de recursos tecnológicos.

Para o diretor-presidente da Energisa Mato Grosso do Sul, Paulo Roberto dos Santos, a proposta é fazer com que esse passado deixe de ser apenas algo registrado em livros e arquivos.

“A nossa história não está só nos livros. Aqui, as pessoas podem vivenciar, interagir e conversar com personagens. É uma forma de trazer a memória de Mato Grosso do Sul para perto das novas gerações.”

O espaço também mantém uma programação voltada a escolas e visitantes, com a proposta de unir educação, tecnologia e cultura. A exposição sobre o hino encerra sua temporada nesta semana, mas o material localizado pelo Arquivo Público abre caminho para uma nova etapa de pesquisa e divulgação.