Política
Na ONU Lula diz que Brasil não aceitará ataques às eleições e critica interferência externa
Presidente afirmou que eleições de outubro serão transparentes e competitivas e defendeu soberania brasileira durante discurso em Nova York
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira (22), durante a abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, que o Brasil não aceitará ataques à legitimidade das eleições de outubro. Sem citar diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nem o candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Lula criticou o que chamou de interferência externa em processos eleitorais.
“Não permitiremos que inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, afirmou o presidente, ao destacar o papel da imprensa e da sociedade no acompanhamento do processo eleitoral. A 81ª Assembleia Geral da ONU ocorre entre 22 e 28 de setembro e reúne representantes dos 193 países-membros.
Lula também mencionou a votação marcada para 4 de outubro, quando os brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governadores e representantes do Legislativo. Segundo o presidente, o pleito será “transparente e competitivo”, com liberdade de expressão para os candidatos. Ele também voltou a defender as urnas eletrônicas e afirmou que o sistema eleitoral brasileiro é “moderno e robusto”.
“Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem desvirtuar o debate público durante a campanha”, declarou.
O presidente ainda afirmou que parte dos atores políticos estaria buscando apoio externo e criticou iniciativas que, segundo ele, podem interferir na disputa eleitoral brasileira.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”
Em outro trecho do discurso, Lula fez críticas ao que classificou como avanço de “tentações hegemônicas” no continente americano. Ele citou disputas por recursos estratégicos, como minerais críticos e terras raras, além de interferências em processos eleitorais.
“A proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou.
Na sequência, Lula criticou o que chamou de “investidas neocoloniais” e defendeu a soberania dos países.
“Voltamos a presenciar a interferência externa em processos eleitorais, a divisão do mundo em zonas de influências. Investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos”, disse.
As declarações ocorreram em um momento de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos. Donald Trump foi o segundo chefe de Estado a discursar na abertura da Assembleia Geral, logo após Lula. A programação oficial da ONU confirma a tradição de o Brasil abrir o Debate Geral, seguido pelo país-sede.
Críticas ao Conselho de Segurança
Lula também dedicou parte do pronunciamento à atuação da ONU diante dos conflitos internacionais. O presidente afirmou que a organização atravessa um dos períodos mais difíceis de sua história e criticou a estrutura do Conselho de Segurança.
Para ele, o direito de veto dos cinco membros permanentes — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — criou um desequilíbrio no funcionamento do órgão.
“Esse é o momento mais crítico das Nações Unidas. O sentimento que me move hoje é o da indignação. A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa”, afirmou.
A reforma do Conselho de Segurança é uma das pautas tradicionais da política externa brasileira. Antes da viagem a Nova York, o governo brasileiro já havia informado que Lula defenderia mudanças na estrutura das Nações Unidas e o fortalecimento do multilateralismo.
Crime organizado e cooperação com os EUA
Lula também voltou a abordar a cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado. Segundo o presidente, ele apresentou a Trump uma proposta de atuação conjunta baseada no controle do fluxo de armas e dinheiro entre os países.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando as nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado”, afirmou.
O presidente encerrou o discurso reforçando a defesa da soberania nacional e da democracia brasileira.
“O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém, ninguém nos afastará desse caminho”, declarou.
O discurso desta terça-feira foi a 11ª participação de Lula na Assembleia Geral da ONU como presidente da República. Em seus três mandatos, ele não participou apenas da edição de 2010.