A decisão dos Estados Unidos de impor uma sobretaxa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, prevista para entrar em vigor em 22 de julho, reacendeu as preocupações sobre os efeitos da disputa comercial para a economia nacional. Embora Mato Grosso do Sul deva sofrer impactos diretos limitados neste primeiro momento, especialistas alertam que a permanência da medida poderá refletir sobre o câmbio, a inflação, os custos de produção e os investimentos, alcançando empresas que sequer exportam para o mercado norte-americano.

Entenda por que os EUA decidiram aplicar a tarifa - A sobretaxa foi anunciada após investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento que permite ao governo americano adotar medidas contra países considerados praticantes de políticas comerciais classificadas como desleais.

Entre as justificativas apresentadas estão críticas ao funcionamento do Pix, às tarifas brasileiras sobre o etanol americano, à proteção da propriedade intelectual, ao desmatamento ilegal, a acordos comerciais firmados pelo Brasil e a decisões judiciais envolvendo plataformas digitais.

A nova tarifa será acrescida aos impostos já existentes. Assim, um produto que atualmente paga 5% de imposto de importação passará a recolher 30% para entrar no mercado americano.

E como fica Mato Grosso do Sul? - Ao JD1 Notícias, o presidente da Fecomércio-MS, Juliano Wertheimer, afirma que os efeitos imediatos sobre Mato Grosso do Sul tendem a ser reduzidos porque parte dos principais produtos exportados pelo Estado ficou fora da nova tributação.

"O impacto direto tende a ser limitado neste primeiro momento, considerando que parte relevante dos principais produtos exportados pelo Estado aos Estados Unidos está entre as exceções. Os efeitos indiretos, porém, podem surgir no médio prazo, principalmente sobre câmbio, inflação, custos e investimentos."

Segundo ele, cada cadeia produtiva deverá ser analisada individualmente. "A exposição varia conforme o produto, sua dependência do mercado americano e a capacidade de redirecionar exportações para outros destinos."

Apesar de o agronegócio ser a principal força econômica de Mato Grosso do Sul, Wertheimer avalia que não é possível afirmar que o setor será o maior prejudicado.

Produtos como carne bovina, soja, milho, celulose e açúcar possuem diferentes níveis de dependência do mercado norte-americano e muitos já contam com compradores em outros países.

Mesmo assim, ele ressalta que uma eventual ampliação das restrições poderá reduzir a competitividade de determinados segmentos.

No entanto, na avaliação da Fecomércio, a sobretaxa poderá atingir toda a economia de forma indireta. Uma valorização do dólar tende a elevar os custos de máquinas, equipamentos e insumos importados. Além disso, uma eventual desaceleração das empresas exportadoras pode reduzir investimentos, afetar fornecedores e impactar o consumo interno.

"O efeito pode chegar a empresas que nunca venderam um produto aos Estados Unidos", resume o presidente da entidade.

Existe solução? - Uma das alternativas é ampliar a presença dos produtos sul-mato-grossenses em outros países.

Segundo Wertheimer, o Estado trabalha principalmente com commodities de demanda global, o que facilita a abertura de novos mercados. Ainda assim, esse processo depende de negociações comerciais, requisitos sanitários, logística e preços internacionais. "Não existe um prazo determinado. Em alguns casos a adaptação pode ocorrer rapidamente. Em outros, pode levar meses."

"O Sistema Comércio MS segue atento a essas movimentações. Nosso compromisso é manter os empresários bem informados, com análises qualificadas e orientações que contribuam para decisões mais seguras. Também atuamos no sentido de apoiar o setor na adoção de medidas que possam mitigar eventuais impactos, preservando a competitividade e a sustentabilidade dos negócios no estado”, finalizou o presidente. 

O que diz o Brasil - O governo federal anunciou que responderá à medida em diferentes frentes.

Entre as ações estão a aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica, a retomada das discussões na Organização Mundial do Comércio (OMC), medidas de apoio às empresas exportadoras e iniciativas para ampliar mercados internacionais.

Também foram divulgadas listas de produtos isentos da nova tarifa, entre eles aeronaves civis, alguns produtos farmacêuticos, ferro-gusa, café solúvel e determinados pescados.

Já setores como máquinas agrícolas, calçados, equipamentos elétricos, aço, papel, açúcar orgânico e diversos produtos manufaturados continuam sujeitos à sobretaxa.