Campo-grandense de coração
"Me arrependo de não ter vindo antes!" Há 14 anos, consultor escolheu viver em Campo Grande em busca de qualidade de vida
Natural de São Paulo, gerente de operações administrativas diz que não se arrepende da mudança e acredita que Campo Grande ainda pode crescer sem perder o jeito de cidade do interior
Campo Grande completa 127 anos e, em meio às comemorações, a cidade também tem sido tema de vídeos que viralizaram recentemente nas redes sociais, publicados principalmente por pessoas vindas de outros estados que relatam estranhamentos ao chegar à cidade. O trânsito, o atendimento no comércio e os hábitos locais aparecem entre as principais queixas.
Mesmo não agradando a todos, felizmente, a experiência de quem chega também pode ser bastante diferente. Glauber Halt Cabral, de 48 anos, que atua como gerente de operações, é um desses casos. Natural de Guarulhos (SP), ele mudou-se para Campo Grande há exatamente 14 anos, no dia 20 de agosto de 2012, junto com a esposa. A decisão foi pensada pelos dois e tinha um objetivo bem definido: encontrar uma vida mais tranquila.
Hoje, depois de mais de uma década morando na Capital sul-mato-grossense, Glauber não só se adaptou, como criou raízes, construiu uma carreira, fez amigos, teve um filho e transformou a cidade em casa. Olhando para trás, ele é direto: “Me arrependo de não ter vindo antes!”
Uma mudança planejada que deu certo!
A história de Glauber com Campo Grande começou antes mesmo da mudança. Cansados da rotina estressante da região metropolitana de São Paulo, enfrentando trânsito caótico, violência e alto custo de vida, o casal buscava tranquilidade, segurança e qualidade de vida. Eles já conheciam Campo Grande, pois duas irmãs da esposa de Glauber residiam aqui.
Ter familiares na cidade proporcionou ao casal uma referência para começar uma vida longe de São Paulo. Assim, Campo Grande se tornou uma excelente opção para a tão sonhada mudança de vida.
Outro fator importante foi o surgimento de uma oportunidade de emprego para Glauber, que já atuava como professor na Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, e soube que a instituição retomaria atividades na Capital sul-mato-grossense. Pouco depois de chegar, já estava em sala de aula.
“Tudo se encaminhou para que a mudança acontecesse com tranquilidade. Com uma semana que estávamos aqui, eu já estava em sala de aula”, conta.
O que poderia ter sido uma ruptura acabou sendo uma transição. Para Glauber, a mudança não foi uma fuga, mas uma escolha.
“Eu me arrependo de não ter vindo antes”, resume.
Sair de Guarulhos para viver em Campo Grande significava trocar uma região metropolitana com milhões de pessoas por uma cidade de ritmo bem mais tranquilo. Glauber já havia visitado a cidade antes, mas morar é diferente. O primeiro estranhamento veio do trânsito.
“Não era Campo Grande que tinha que se adaptar ao Glauber”
Como qualquer pessoa que muda de cidade, Glauber também encontrou diferenças. A primeira que chamou sua atenção foi o trânsito.
“Talvez a parte que mais me chamou a atenção foi o trânsito. Muitas vezes, você dá seta e o pessoal, infelizmente, não respeita. Isso me incomodava bastante.”
A diferença, porém, não virou motivo para rejeitar a cidade. Glauber entendeu que, para viver em um novo lugar, também precisava estar disposto a mudar.
“Eu sempre pensei que não era Campo Grande que ia se adaptar ao Glauber, e sim o Glauber que ia se adaptar a Campo Grande.”
A mesma disposição ajudou na construção das relações. Embora exista a fama de que o campo-grandense seria mais fechado, Glauber diz que sua experiência foi diferente. Como professor, acabou formando vínculos com alunos que, posteriormente, se tornaram amigos.
“O contato começou na sala de aula, extrapolou a sala de aula e hoje eles fazem parte desse ciclo mais próximo da minha vida”, conta.
Para ele, amizades foram fundamentais para transformar uma cidade nova em casa.
O que Campo Grande ganhou e o que ainda precisa melhorar?
Depois de 14 anos, Glauber não enxerga Campo Grande como uma cidade perfeita. Ele aponta problemas, principalmente em áreas importantes para o desenvolvimento econômico. Um deles está no mercado de trabalho e na dificuldade de empresas em reter profissionais qualificados.
“O que eu percebo é um desalinhamento com a expectativa de carreira. Para grandes profissionais, você tem um desalinhamento de salário”, avalia.
Na visão dele, ainda existe resistência por parte de algumas empresas em investir na qualificação dos próprios funcionários por medo de perder esses profissionais depois.
“Contratar é difícil. Reter o talento é cinco vezes mais difícil”, afirma.
Campo Grande, a Capital com cara de interior?
“O maior luxo é ter tempo e poder desfrutar dele com qualidade.”
Se existe uma característica que Glauber considera um dos maiores patrimônios de Campo Grande, é justamente aquilo que muitas pessoas costumam apontar como uma limitação: o jeito de cidade do interior.
Talvez a principal diferença entre a vida que Glauber levava em São Paulo e a que construiu em Campo Grande esteja em algo que não aparece nas vitrines: o tempo. Ele reside na região do Bairro Oliveira III e trabalha na região da Chácara Cachoeira. O deslocamento diário costuma levar entre 15 e 20 minutos.
“Em São Paulo, você não faz isso nem da sua casa até a padaria”, relembra.
O tempo economizado no trânsito acaba se transformando em tempo para outras atividades. Glauber continua dando aulas em cursos de pós-graduação, consegue voltar para casa no horário do almoço e ainda encontra espaço para aproveitar os momentos com a família.
“Eu acabo sendo muito mais produtivo em função de não perder tempo no meu deslocamento”, explica.
Para ele, essa diferença representa qualidade de vida.
“Eu consigo ainda ter um lazer com a família. Vou jogar bola com meu filho na praça do bairro, a gente vai ao shopping. Em São Paulo, o trânsito está tão infernal que você começa a pensar: será que vale a pena eu sair para passear ou vou ficar preso no engarrafamento?”
Nem tudo é qualidade de vida
A defesa que Glauber faz de Campo Grande não significa fechar os olhos para o que precisa melhorar. Ele considera que o setor de serviços ainda precisa evoluir, principalmente no atendimento ao consumidor.
“Na minha opinião, área de serviços precisa melhorar. A gente tem um gap muito grande ainda com o nível de atendimento”, afirma.
Para ele, a diferença não está necessariamente na falta de capacidade das pessoas, mas na ausência de treinamento e investimento.
Na infraestrutura, Glauber também vê desafios. Entre eles estão a sincronização dos semáforos, a falta de planejamento viário e a quantidade crescente de veículos em uma malha que não acompanhou o crescimento da cidade.
Os buracos nas ruas também entram na lista. Glauber lembra que moradores chegam a improvisar soluções perto de casa para evitar danos aos próprios veículos.
"Eu vejo sempre nas redes sociais pessoas dando um jeito de tampar o buraco mais perto de casa. Aquele buraco acaba causando um problema no carro e vai trazer prejuízo. E até você conseguir acionar o poder público, quem vai ficar no prejuízo é você.”
“Uma cidade que cresceu, mas tem um potencial para crescer ainda mais”
A percepção de Glauber sobre o crescimento de Campo Grande acompanha uma transformação que também aparece nos números. Segundo o IBGE, a Capital sul-mato-grossense tinha 962.883 habitantes na estimativa de 2025. No Censo 2022, eram 898.100 moradores.
Mesmo com esse crescimento, Glauber reconhece em Campo Grande uma característica positiva: o jeito de cidade do interior.
“Eu sempre comparo a questão da Capital com a de uma cidade do interior. E isso é maravilhoso”, afirma.
Para ele, o desafio está justamente em conseguir crescer sem abrir mão dos aspectos que fazem a cidade ser atrativa para quem procura uma vida menos acelerada.
“Eu estou muito melhor do que imaginei.”
Quando decidiu sair de São Paulo, Glauber tinha uma ideia bastante clara do que procurava: morar em uma casa, ter espaço para a família, criar o filho e aproveitar mais o tempo.
“Dentro do meu planejamento de vida, eu estou até muito melhor do que imaginei que tivesse ainda a oportunidade de usufruir na vida”, diz.
A família de Glauber cresceu em Campo Grande. O sonho de ter um filho e poder criá-lo em uma cidade tranquila se realizou dois anos após a mudança. Receber amigos, ouvir música, passar tempo com o filho e aproveitar o bairro têm, para ele, um peso maior do que uma grande oferta de entretenimento.
“Eu não preciso ter mais 80 shoppings como opção no final de semana para passear.”
O desafio de valorizar quem já está aqui
Apesar de reconhecer os avanços, Glauber acredita que Campo Grande ainda tem espaço para se tornar mais relevante economicamente, principalmente pela posição estratégica que ocupa e pelas possibilidades abertas pela Rota Bioceânica.
Para isso, considera fundamental atrair indústrias de diferentes setores para a região da cidade.
“As grandes indústrias são importantes, só que elas não estão aqui na capital. Estão no interior”, observa.
Na visão dele, a diversificação econômica poderia gerar empregos, movimentar serviços e ampliar as oportunidades profissionais.
Outro ponto essencial é mudar a forma como o próprio campo-grandense enxerga os profissionais formados na cidade. Glauber relata que ainda existe uma espécie de preconceito contra quem é formado ou construiu carreira localmente. Profissionais de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, segundo ele, muitas vezes são vistos como mais preparados simplesmente por terem vindo de grandes centros.
“Tem gente boa aqui.”
Na avaliação dele, esse pensamento acaba prejudicando a própria cidade, porque profissionais qualificados deixam de ser valorizados ou acabam tendo de sair para encontrar oportunidades melhores.
“O campo-grandense não valoriza a mão de obra local, e essa percepção precisa mudar. Primeiro, o campo-grandense precisa acreditar que tem gente boa aqui, porque tem!”
“Não tenha medo de vir”
Aos 48 anos, com uma família construída em Campo Grande e 14 anos de história na cidade, Glauber não hesita ao recomendar a mudança para quem pensa em deixar uma grande metrópole.
“Não tenha medo de vir”, aconselha.
Ele reconhece que existem diferenças culturais, salariais e comportamentais, mas acredita que a conta precisa considerar também o custo de vida e, principalmente, o tempo que se ganha.
“Você vem com o padrão de salário de São Paulo, mas, se você não tem o mesmo custo de vida, dá para ganhar um pouco menos e viver até melhor do que em São Paulo.”
Para Glauber, é possível sair do trabalho, almoçar em casa, voltar ao serviço e ainda encontrar tempo para estar com os filhos e os amigos.
“É um lugar que te permite usufruir de momentos em família de forma rápida.”
No fim das contas, a história de Glauber não é sobre uma cidade perfeita. É sobre uma cidade que fez sentido para o projeto de vida que ele e a esposa tinham. Campo Grande foi o lugar onde o casal conseguiu formar uma família, criar o filho e manter uma carreira sem abrir mão do tempo que considera importante.
“Campo Grande, para mim, foi a realização de um sonho pessoal: ter filho, formar uma família e ter qualidade de vida.”
E talvez seja justamente essa a outra face da cidade que completa 127 anos: a de quem chegou de longe, encontrou diferenças, precisou se adaptar, também identificou problemas, mas decidiu ficar.
Depois de 14 anos, Glauber não fala de Campo Grande como alguém que simplesmente escolheu uma cidade para morar. Fala como quem encontrou um lugar para chamar de casa.
“Aqui é minha casa!”