Ensinar vai muito além de transmitir conteúdos. É acompanhar descobertas, despertar talentos, incentivar sonhos e, muitas vezes, transformar a maneira como uma criança enxerga o próprio futuro. Neste 15 de outubro, Dia dos Professores, histórias de educadoras que dedicaram parte de suas vidas à formação de alunos mostram como a profissão deixa marcas que ultrapassam os limites da sala de aula.

Em Mato Grosso do Sul, as experiências de Marília Mesquita de Almeida Weiler, professora aposentada, Shirley Aguiar, que completa 26 anos de docência, e Diohenny Ketlend Martins, revelam diferentes momentos da educação brasileira, mas também pontos em comum: a paixão por ensinar, a necessidade de adaptação e a satisfação de acompanhar o desenvolvimento dos estudantes.

A data comemorativa tem origem em um decreto assinado por Dom Pedro I, em 15 de outubro de 1827, que estabeleceu regras para a criação de escolas de primeiras letras no Brasil. Mais de um século depois, em 1947, o professor paulista Salomão Becker e outros educadores organizaram uma celebração para marcar a ocasião. Em 1963, o Decreto Federal nº 52.682 oficializou o 15 de outubro como feriado escolar dedicado aos professores.

Desde então, a data se tornou uma oportunidade para reconhecer o trabalho de profissionais que participam diretamente da formação intelectual, social e humana de crianças, jovens e adultos. Quase dois séculos depois do decreto que marcou a organização do ensino no país, os relatos das educadoras revelam o que permanece no centro da profissão: a relação entre quem ensina e quem aprende.

“Ministrar aula não é só conteúdo, regras, é também empatia”

“Imagina a alegria que fiquei de ter despertado essa menina!” A lembrança da professora aposentada Marília Mesquita de Almeida Weiler, de 60 anos, resume um dos sentimentos que atravessam a vida de quem escolhe a educação: perceber que o trabalho realizado em sala de aula pode mudar o caminho de um aluno. Depois de décadas dedicadas ao ensino da arte, ela guarda histórias de estudantes que venceram a timidez, descobriram vocações e seguiram carreiras inspiradas pelas aulas.

A história de Marília Mesquita de Almeida Weiler com a educação começou cedo. Aos 16 anos, ainda durante os estágios do magistério, ela já ministrava aulas para crianças das antigas primeiras séries do ensino fundamental. Aos 18, passou a trabalhar com turmas do maternal.

Natural de Aracati, no Ceará, ela chegou à região quando ainda era Mato Grosso, antes da divisão que deu origem a Mato Grosso do Sul. Na época, recorda, a cidade tinha poucos prédios e a Avenida Afonso Pena terminava na altura de onde hoje fica a Rua Ceará.

Depois de concluir o ensino fundamental na antiga MACE, Marília cursou o magistério no Colégio Perpétuo Socorro e, posteriormente, formou-se em Educação Artística pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul). A graduação reunia diferentes linguagens, como pintura, tecelagem, escultura, fotografia, cinema, teatro, música, dança e folclore.

Aos 23 anos, começou oficialmente a trabalhar após ser aprovada em concursos da Prefeitura de Campo Grande e do Estado. Ao longo da carreira, passou por várias escolas, mas foi na Escola Estadual Maria Constança Barros Machado, chamada carinhosamente pelos alunos de MCBM, que construiu uma das relações mais duradouras de sua trajetória: foram 28 anos na instituição.

“Eu trabalhei em várias escolas, mas o MCBM foi a minha terceira casa por 28 anos. Uma escola em que eu tive o prazer de conhecer e ministrar aula para alunos queridos”, afirma.

Para Marília, conhecer cada estudante era parte essencial do trabalho. Mais do que apresentar conteúdos, ela procurava identificar as habilidades e os interesses de cada um para estimular seu desenvolvimento. A professora também aprendeu com os próprios alunos. Segundo ela, cada criança chega à escola com uma história e experiências que precisam ser consideradas no processo de aprendizagem.

“Eu sempre acreditei em conhecer cada aluno e proporcionar seu crescimento no que ele se destacava ou com o que mais ele se identificava, procurando passar, além de conhecimento, valores para a vida. Ministrar aula não é só conteúdo, regras, é também empatia, entrosamento”, resume.

Projetos culturais foram a marca registrada durante os anos em que professora Marília lecionou Foto: arquivo pessoal

Uma aluna tímida descobriu a paixão pelo teatro

Entre as muitas lembranças dos anos dedicados à educação, uma história continua emocionando Marília. Ela conta que teve uma aluna tão tímida que, durante a chamada, praticamente só dizia “presente, professora”.

Nas primeiras apresentações teatrais, a estudante participava dos bastidores, ajudando na decoração e na música. Aos poucos, porém, começou a ganhar confiança. Na terceira peça, pediu para participar de todas as apresentações da turma, desta vez também com falas.

A mudança foi tão significativa que, depois de concluir o ensino médio no Maria Constança, a jovem foi para o Rio de Janeiro estudar teatro. Anos mais tarde, voltou à escola para visitar a antiga professora e contou que havia descoberto sua verdadeira paixão durante aquelas aulas.

“Ela me disse que, nas minhas aulas, ela descobriu sua verdadeira paixão e vocação: o teatro. Imagina a alegria que fiquei de ter despertado essa menina!”, relembra.

A professora também se emociona ao lembrar dos ex-alunos que seguiram carreiras em arquitetura, publicidade e artes visuais. Outros, durante viagens à Europa, enviavam fotografias de obras de arte e construções históricas, associando as descobertas às aulas que tiveram na escola.

Para ela, essas lembranças representam uma das maiores recompensas da profissão: perceber que o conhecimento compartilhado continua presente na vida dos estudantes, mesmo depois de muitos anos.

“É bom ver a arte de perto e lembrar das suas aulas e saber um pouco mais sobre esse ou aquele edifício, igreja, pintura, escultura. Obrigada, professora!”, conta Marília, reproduzindo mensagens que recebeu dos antigos alunos.

Para ela, esse reconhecimento é uma das maiores recompensas da docência.

“Eita, que orgulho deles! E ainda hoje me emociono por ter participado da jornada das ‘minhas crianças’, como eu as chamava carinhosamente.”

Improvisar também fazia parte de ensinar

Mas nem todas as lembranças são de momentos tranquilos. Nos anos 1990, quando queria trabalhar teatro e dança com os alunos, Marília precisava encontrar alternativas porque não havia espaço disponível para as atividades. As salas eram ocupadas por outras turmas, as quadras recebiam aulas de educação física e o anfiteatro era usado para palestras. A solução foi aproveitar os jardins da escola.

Os estudantes formavam grupos, ensaiavam e preparavam apresentações que, segundo ela, se destacavam pela criatividade e pela riqueza dos figurinos, da maquiagem, dos cenários e dos conteúdos. “Os alunos se esforçavam e amavam estar criando. E o resultado foi peças escolares extraordinárias”, recorda.

Ao refletir sobre os desafios atuais, Marília compara a realidade de diferentes épocas. No passado, segundo ela, a dificuldade era realizar as atividades com poucos recursos, pouco espaço e tempo limitado. Hoje, considera que um dos principais obstáculos é despertar o interesse de alunos que nem sempre demonstram disposição para aprender.

Ainda assim, mantém a convicção de que o trabalho do educador deve contribuir tanto para o conhecimento quanto para a formação humana.

“Eu hoje acredito que, para ser professora ou educadora, primeiro tem que gostar do que faz, segundo gostar de pessoas, terceiro saber ter jogo de cintura, ter plano B, C, D, e querer que seus alunos cresçam não só no conhecimento, mas também nos valores”, afirma.

Ao olhar para a própria trajetória, ela resume o sentimento de gratidão pelos milhares de estudantes que passaram por suas aulas e cita uma passagem de O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

“Cada criança é única e tem seu próprio ritmo de aprendizagem”

“Apesar das dificuldades, a docência é uma profissão capaz de transformar vidas", professora Shirley Foto: arquivo pessoal

A mesma paixão que Marília tem pela educação, também aparece na trajetória de Shirley Freiras de Aguiar, que completa 26 anos de docência, neste ano. A escolha de Shirley em ser professora aconteceu ainda na infância. Aos 47 anos, ela afirma que nunca teve vontade de exercer outra profissão.

O primeiro contato com a sala de aula ocorreu aos 19 anos, depois de concluir o magistério. Durante um ano, trabalhou como auxiliar de classe. Em seguida, assumiu uma turma como professora regente do ensino fundamental.

Desde então, já são 26 anos dedicados à educação, além de uma graduação e duas especializações na área.

Nesse período, Shirley acompanhou mudanças na forma de ensinar, na relação com os estudantes e no uso da tecnologia. Para ela, a educação deixou de se concentrar tanto no modelo tradicional e passou a considerar mais as necessidades individuais das crianças.

“Antigamente, o ensino era mais tradicional, com maior valorização da disciplina. Hoje, a educação busca ser mais participativa, inclusiva e acolhedora, considerando as necessidades, as emoções e o ritmo de aprendizagem de cada aluno”, explica.

A transformação, no entanto, não eliminou os desafios. Shirley percebe dificuldades relacionadas à atenção, aos limites e à participação das famílias na rotina escolar. Na avaliação da professora, a formação das crianças depende de um trabalho conjunto entre escola e família. Ensinar conteúdos é apenas uma parte da responsabilidade de quem educa.

“Educar vai muito além de ensinar conteúdos: é acolher, orientar, estabelecer limites e preparar as crianças para a vida em sociedade”, afirma.

A experiência também reforçou a importância de respeitar o tempo de cada aluno. Para Shirley, o professor precisa ter sensibilidade para compreender que nem todos aprendem da mesma maneira ou na mesma velocidade.

Por isso, quando pensa em quem deseja seguir a carreira, ela destaca a necessidade de dedicação e disposição para continuar aprendendo.

“Apesar das dificuldades, a docência é uma profissão capaz de transformar vidas. Meu conselho é que nunca percam o encantamento por ensinar e a certeza de que cada pequena conquista de um aluno faz toda a diferença. É preciso ter amor pela educação, paciência, dedicação e, acima de tudo, sensibilidade para compreender que cada criança é única e tem seu próprio ritmo de aprendizagem”, aconselha.

“Quando a criança aprende, é super satisfatório para mim”

Professora Diohenny com suas alunas de ballet Foto: arquivo pessoal

Assim como as professoras Marília e Shirley, a professora de educação física, Diohenny Ketlend Martins, de 27 anos, sabe como uma educadora pode influenciar uma escolha profissional. Seu desejo de ensinar nasceu da admiração por uma professora de educação física chamada Maria, que a inspirou durante a infância.

“Escolhi ser professora porque eu tinha professores que me inspiravam. A minha profissão de educação física foi porque eu me inspirei em uma professora de educação física. Ela era uma ótima professora e eu falava que queria ser uma professora igual a ela”, conta.

Além da educação física, Diohenny também sonhava em trabalhar com dança. Começou a atuar em escolas aos 21 anos, primeiro como auxiliar e depois como professora. Atualmente, dá aulas de ginástica e balé e já trabalhou com modalidades como FitDance e zumba.

Aos poucos, ela também passou a perceber a influência de suas aulas na rotina dos alunos. Um dos sinais mais marcantes desse impacto são os relatos de pais que observaram mudanças no comportamento dos filhos em casa.

“Já senti mudanças de pais, recebendo relatos de que as minhas aulas fizeram com que as crianças mudassem o comportamento em casa”, relata.

A professora explica que ensinar exige paciência e capacidade de adaptação, especialmente quando trabalha com crianças que não gostam de esportes ou dança ou que participam das atividades por insistência dos responsáveis.

Nessas situações, o desafio é encontrar uma maneira de despertar o interesse e fazer com que o aluno se sinta capaz de aprender.

Diohenny conta que nem sempre a primeira estratégia funciona. Quando percebe que uma criança não consegue executar determinado movimento, procura explicar de outra forma e experimentar métodos diferentes.

“Se você ensinou de um jeito e a criança não aprendeu, tenta ensinar de outro jeito. Quando a criança aprende, é super satisfatório para mim”, afirma.

É nesse momento que ela encontra a maior recompensa do trabalho: acompanhar a alegria dos alunos quando conseguem realizar algo que antes parecia difícil.

“Ver o brilhinho delas conseguirem o que elas queriam fazer é super satisfatório”, diz.

A participação da família também aparece entre os desafios da rotina. Para Diohenny, a parceria com os responsáveis facilita o trabalho e contribui para o desenvolvimento das crianças. Quando essa colaboração não acontece, manter a atenção dos alunos e garantir o andamento das aulas pode se tornar mais difícil.

Ainda assim, ela se emociona ao receber elogios das alunas e perceber que seu trabalho é reconhecido. A sensação é semelhante àquela que teve quando criança, ao admirar a professora que a levou a escolher a docência.

“Quando elas falam do meu trabalho, aí ‘você é uma ótima professora’, meus olhos enchem de lágrimas”, conta.

Aos que pretendem seguir a carreira, Diohenny recomenda não subestimar as dificuldades, mas também não desistir diante delas.

“Você vai mudar a vida das outras crianças. Você tem que amar as crianças. Ensinar não é fácil”, afirma.

Para ela, a melhor maneira de enfrentar os obstáculos é manter a paciência, gostar da profissão e estar disposto a buscar novas estratégias sempre que necessário.

“Não é fácil ser professor, mas é maravilhoso. Você sempre vai marcar a vida de uma criança, de um aluno, para sempre”, conclui.

“Quando elas falam do meu trabalho, aí ‘você é uma ótima professora’, meus olhos enchem de lágrimas”, professora DiohennyFoto: arquivo pessoal

Três trajetórias, uma mesma marca

As histórias de Marília, Shirley e Diohenny mostram diferentes gerações de professoras e as mudanças que acompanharam ao longo de suas carreiras. Marília lembra os recursos improvisados e os alunos que descobriram a arte; Shirley destaca a necessidade de acolher cada criança e fortalecer a parceria com as famílias; Diohenny encontra na superação das dificuldades de aprendizagem a confirmação de que escolheu o caminho certo.

Apesar das diferenças, as três compartilham a percepção de que ensinar exige muito mais do que domínio de um conteúdo. É preciso observar, escutar, insistir quando necessário e reconhecer que cada estudante tem seu próprio potencial.

Neste 15 de outubro, as lembranças das educadoras ajudam a dimensionar o alcance da profissão. Uma aula pode despertar uma vocação, um incentivo pode ajudar a vencer a timidez e uma mudança na maneira de explicar pode fazer uma criança descobrir que é capaz.

Para quem ensina, essas conquistas nem sempre aparecem imediatamente. Às vezes, levam anos para se revelar, em uma visita inesperada, uma mensagem de agradecimento ou o relato de alguém que encontrou seu caminho graças a uma experiência vivida na escola.

É nesse reconhecimento que as três professoras encontram parte do sentido de suas trajetórias: saber que, muito além dos conteúdos, deixaram lembranças, aprendizados e marcas que continuam acompanhando seus alunos.