Vamos imaginar uma cena. O Ministério da Educação anuncia, com pompa, a inclusão da educação financeira no currículo escolar nacional. Manchetes celebram o avanço. Pais respiram aliviados: finalmente os filhos vão aprender o que a escola nunca ensinou.

Eu gostaria de poder comemorar junto. Mas a experiência me obriga a fazer uma pergunta incômoda: quem vai ensinar essa disciplina?

A resposta é desconfortável. Serão professores formados dentro do mesmo sistema educacional que produziu o país mais endividado de sua própria história recente. Em abril deste ano, 80,9% das famílias brasileiras estavam endividadas — recorde histórico, quarto mês seguido de alta. Não existe motivo para acreditar que essa estatística poupe a categoria docente. O professor que vai ensinar educação financeira é, estatisticamente, tão vulnerável ao endividamento quanto qualquer outro brasileiro. Não se ensina aquilo que não se compreende na prática.

Mas o problema é ainda mais profundo do que a formação do professor. Está na arquitetura da própria escola.

O modelo escolar que herdamos despedaça o conhecimento em gavetas que não se falam. Matemática aqui, português ali, história num canto, e agora educação financeira espremida em mais um horário de quinta-feira. A ciência da aprendizagem já provou, repetidas vezes, que aprendemos melhor quando o conteúdo dialoga com a vida real e se conecta a outras áreas do saber — não quando é empacotado como mais uma matéria isolada para decorar e esquecer depois da prova.

Adicionar uma disciplina a um currículo fragmentado é como acrescentar mais um cômodo a uma casa com rachadura na fundação. Por mais bonito que seja o cômodo novo, a estrutura continua comprometida.

E há uma rachadura ainda mais grave, que poucos têm coragem de nomear: a maioria dos nossos estudantes não consegue compreender, de verdade, o que lê.

Os números aqui não deixam margem para otimismo. No PIRLS 2021 — a avaliação internacional que mede compreensão leitora de crianças do 4º ano — o Brasil obteve uma das pontuações mais baixas entre os países participantes, com 38,4% dos estudantes abaixo do nível básico de leitura. O país ficou à frente apenas de Jordânia, Egito e África do Sul. No ensino médio, a situação não melhora: no PISA 2022, o Brasil obteve 410 pontos em leitura, e apenas 27% dos alunos alcançaram o nível mínimo de proficiência em matemática — bem abaixo da média de 69% dos países da OCDE.

Pense nisso com calma. Como ensinar um aluno a interpretar uma planilha de orçamento, a entender uma taxa de juros composta, a ler um contrato de financiamento, se ele ainda não consegue extrair o sentido básico de um parágrafo? Educação financeira sem compreensão leitora é como pedir para alguém calcular em uma língua que ele não fala. Prova maior disso é que a edição mais recente do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) mostra que apenas 10% dos brasileiros são considerados proficientes em leitura, escrita e matemática nas situações do dia a dia.

A ilusão da nova disciplina de educação financeira está em achar que basta inserir um nome novo na grade curricular para que o problema se resolva. Não resolve. Currículo não é lista de compras — é arquitetura de pensamento. E essa arquitetura, no Brasil, está rachada na base.

Se quisermos realmente resolver isso pela raiz, talvez precisemos olhar para o passado antes de seguir em frente. Antigamente, a educação clássica ensinava as crianças em três etapas: primeiro a usar bem as palavras, depois a pensar com lógica, e só depois a se expressar e convencer os outros. Ou seja: primeiro se formava um bom leitor e um bom pensador — só depois vinha a matemática mais difícil. Porque sem dominar bem a linguagem, fica complicado entender números e contas mais complexas.

Nossa dificuldade crônica em exatas não começa na matemática. Começa muito antes, na ausência de uma base sólida de leitura, interpretação e raciocínio lógico. Forme-se primeiro um bom leitor, e depois um bom aluno em educação financeira virá com mais facilidade.

Tenha clareza do seguinte: Não existe solução simples para um problema complexo! E qualquer um que prometa o contrário — seja um curso de finanças com promessa de resultado em trinta dias ou uma nova disciplina na escola para formar uma nova geração menos endividada — está vendendo um atalho que a realidade não confirma.

Até porque a verdadeira reforma começa muito antes da sala de aula e muito longe do Ministério da Educação. Começa numa cena pequena, quase invisível: um pai ou uma mãe sentada ao lado do filho, lendo uma história em voz alta, sem celular por perto, sem pressa.

A semente da próxima geração não endividada começa numa estante de livros. Antes de qualquer planilha. Pense nisso.