Existe uma cena que se repete em milhares de famílias brasileiras. Uma pessoa trabalha a vida inteira sonhando com o dia em que poderá parar. Conta os anos, depois os meses, depois os dias. Finalmente se aposenta. E, poucos meses depois, para espanto de todos inclusive dele mesmo está de volta ao trabalho.

Esse paradoxo diz mais sobre nós do que imaginamos.

 Os números confirmam que não se trata de um caso isolado. Segundo pesquisa do SPC Brasil e da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), mais de um terço dos aposentados brasileiros continua trabalhando, e entre os que têm de 60 a 70 anos esse percentual sobe para 42,3%. E o movimento só cresce: entre janeiro e julho de 2025, o número de currículos cadastrados por profissionais com 60 anos ou mais aumentou 42,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.

 É verdade que boa parte volta por necessidade financeira e isso é um problema real, que merece sua própria coluna. Mas há um dado que não se explica só pelo bolso: 56% dos que seguem na ativa dizem que continuam trabalhando para se sentir mais produtivos. Ou seja, mesmo quem poderia parar, muitas vezes escolhe não parar. Por quê?

 A resposta, eu suspeito, foi esquecida em algum ponto dos últimos dois séculos.

Poucas gerações atrás, ninguém falava em aposentadoria como a conhecemos. E, curiosamente, as pessoas viviam com mais equilíbrio entre o trabalho, a família e a comunidade. O trabalho não era o vilão de que se queria fugir era parte da vida, tão natural quanto comer ou dormir. Algo mudou. E o que mudou foi a nossa relação com o próprio ato de trabalhar.

 Aqui épreciso fazer uma distinção que se perdeu: existe uma diferença abissal entre trabalho e escravidão.

Quando alguém exerce uma função apenas pelo retorno financeiro sem se importar com o impacto que gera na vida dos outros, sem qualquer ligação com seus talentos e sua vocação essa pessoa passa a lutar contra si mesma todos os dias. E lutar contra si mesmo é uma das formas mais eficientes de adoecer. É o funcionário que se esgota tentando acumular dinheiro suficiente para um dia parar de fazer aquilo que odeia. É o profissional que vive em conflito com a própria função até o corpo cobrar a conta. Nos dois casos, o trabalho virou uma espécie de escravidão voluntária.

Mas o trabalho, na sua origem, era outra coisa completamente diferente. Ele existia para dignificar. Para ser a expressão de um talento a serviço de algo maior do que nós mesmos. Aristóteles já entendia que administrar a própria vida inclusive o trabalho era uma questão de virtude, não apenas de sobrevivência.

 E a ciência moderna, curiosamente, confirma a intuição antiga. Um extenso estudo japonês, conhecido como Estudo de Coorte Ohsaki, acompanhou mais de 43 mil adultos por sete anos e chegou a uma conclusão impressionante: as pessoas que não encontravam um senso de ikigai a razão de ser, o propósito de vida apresentaram risco significativamente maior de mortalidade, inclusive por doenças cardiovasculares. Não é força de expressão: viver sem propósito, literalmente, adoece e encurta a vida.

Não à toa, os habitantes de Okinawa, uma das regiões mais longevas do planeta, atribuem sua longevidade justamente ao ikigai o que os motiva a levantar todas as manhãs com um sentido claro de propósito. E veja que bonito: para eles, esse propósito é exatamente o ponto de encontro entre o que amamos, aquilo em que somos bons, o que o mundo precisa e aquilo pelo qual podemos ser remunerados. É a definição perfeita de trabalho digno.

Aí está a chave que a educação financeira precisa resgatar. Organizar o dinheiro não é uma questão de planilha — é uma questão de descobrir como o seu trabalho pode, ao mesmo tempo, sustentar você e dignificar você. Como aquilo que você faz para viver pode servir ao próximo em vez de apenas encher a sua conta.

Até porque somos seres únicos, com vocações únicas. E quando encontramos o trabalho que conversa com quem realmente somos, o desejo de parar o quanto antessimplesmente evapora. Você não conta os dias para fugir daquilo que dá sentido à sua vida.

O apsentado que volta a trabalhar, mesmo sem precisar do dinheiro, não é um homem que fracassou em descansar. É um ser humano tentando reencontrar aquilo que sempre esteve ali, esperando ser redescoberto: a dignidade de se sentir útil, de contribuir, de ter uma razão para levantar de manhã.

 alvez o problema nunca tenha sido o trabalho. Talvez tenha sido termos aceitado, nos últimos duzentos anos, um modelo que nos transformou em máquinas e depois nos vendeu a aposentadoria como a fuga dessa máquina. Mas ninguém precisa fugir de um trabalho que ama.

 E agora? Será que eu encontrei um trabalho do qual eu não queira fugir? Pense nisso.