Segunda no Azul
Segunda no Azul
Você já escreveu o seu testamento?
Faça um exercício comigo. Ele é desconfortável, mas poucos são tão reveladores.
Imagine que a sua vida chegou ao fim. As pessoas que você ama estão reunidas, e alguém precisa dizer algumas palavras sobre quem você foi. Não sobre o que você teve — sobre quem você foi. Agora responda, com honestidade: o que você gostaria que fosse dito? E, mais duro ainda: o que, realisticamente, seria dito, se sua vida terminasse hoje, do jeito que você a tem conduzido?
A distância entre essas duas respostas é o mapa mais preciso que existe da sua vida.
Esse exercício não é novo. Os filósofos antigos o praticavam sob o nome de memento mori — "lembra-te de que vais morrer". Não como mórbida obsessão, mas como bússola. Porque quem tem a coragem de olhar para o próprio fim ganha uma clareza rara sobre o presente. De repente, o que parecia urgente se revela trivial, e o que andava esquecido se mostra essencial.
Nenhum sábio explorou isso com mais profundidade do que o rei Salomão. Diz a tradição que ele teve tudo o que um homem pode desejar: ouro, poder, conhecimento, prazeres sem limite. E, no fim, escreveu o Eclesiastes — um dos textos mais desconcertantes já produzidos pela humanidade. Sua conclusão, depois de possuir tudo? "Vaidade de vaidades, tudo é vaidade." Ou, numa tradução mais crua: sopro, fumaça, algo que a mão tenta segurar e escapa. O homem que teve tudo nos avisa, do alto de toda a sua riqueza, que a acumulação em si não preenche nada.
É um alerta que atravessa três milênios e chega, atualíssimo, ao nosso extrato bancário.
Porque existe um feitiço silencioso na nossa época, e ele tem nome: a corrida dos ratos. É a imagem do rato que corre na rodinha da gaiola — muito esforço, muita velocidade, nenhum destino. Ele corre, corre, corre, e continua exatamente no mesmo lugar.
E aqui está o que quase ninguém percebe: há dois tipos de pessoas nessa corrida, e elas parecem opostas, mas são idênticas. Existe quem não tem dinheiro e persegue dinheiro a todo custo. E existe quem já tem muito dinheiro e continua perseguindo mais, com a mesma sofreguidão. Olhamos para a segunda e pensamos que ela "venceu". Não venceu. Está na mesma rodinha da primeira — apenas com uma gaiola maior e mais bem decorada. O rato rico e o rato pobre correm lado a lado, e nenhum dos dois sai do lugar.
Como saber se você entrou nessa corrida? O diagnóstico é simples e implacável: repare quantas das suas decisões de vida são tomadas com base, primeiro, no critério financeiro.
Onde vou morar? Depende do dinheiro. Vou me casar? Quando estiver financeiramente pronto. Vou ter filhos? Não sei se cabe no orçamento. Qual profissão vou seguir? A que pagar melhor. Onde vou trabalhar? Onde render mais. O que vou estudar? O que der mais retorno.
Repare que, quando o dinheiro vira o primeiro critério de toda decisão importante, ele deixou de ser ferramenta e virou senhor. Ele não está mais a serviço da sua vida — a sua vida está a serviço dele. Esse é o feitiço.
E o feitiço tem uma característica cruel: ele nunca acaba. É como no livro Mil e Uma Noites (Arabian Nights), onde a jovem Sherazade ao contar ao sultão uma história por noite, sempre deixando o melhor para a noite seguinte, acaba evitando que sua sentença de morte se cumpra tendo em vista que o sultão fica com sono e dorme. Nós fazemos igual. Adiamos a vida que realmente queremos viver para o próximo degrau. "Quando eu ganhar mais." "Quando eu quitar isto." "Quando eu alcançar aquilo." Sempre a próxima noite. Sempre o próximo capítulo.
Só que, ao contrário do conto, a nossa história tem uma última noite de verdade. E ela chega sem avisar.
É nessa noite que surge a pergunta que ninguém quer fazer cedo demais, mas que todos acabam fazendo tarde demais: valeu a pena? Se eu pudesse voltar, teria escolhido os mesmos caminhos? Teria trabalhado tanto para pagar por coisas que nem me trouxeram alegria? Teria trocado tantos jantares em família por horas extras? Teria adiado tanto o essencial em nome do urgente?
A beleza do exercício do memento mori — "lembra-te de que vais morrer" é que ele permite que você faça essa pergunta agora — enquanto ainda há tempo de mudar a resposta.
Porque o testamento mais importante que você deixará não é o cartório. Não é a divisão de bens, o inventário, o saldo que sobra. O verdadeiro testamento são as memórias que você plantou, os valores que você viveu na frente de quem te observava, o tipo de presença que você foi para as pessoas que dependiam de você. Isso não se transfere em vida nem se perde na morte. Isso fica.
Então talvez valha a pena fazer, hoje, a única pergunta que realmente importa: se a minha vida continuar exatamente no rumo em que está, o testamento que estou escrevendo é o que eu gostaria de deixar?
Se a resposta for sim, siga em paz. Você está entre os poucos que acordaram do feitiço.
Se for não, essa é a melhor notícia que você receberá hoje. Porque ainda dá tempo de reescrever. A caneta ainda está na sua mão.
E a última noite ainda não chegou. Pense nisso.