A polarização política tem ultrapassado o debate sobre candidatos e propostas e afetado também as relações pessoais. Discussões entre familiares, rompimento de amizades e desgaste emocional são algumas das consequências desse cenário, especialmente em períodos eleitorais. Nesse contexto, a expressão “psicose política” ganhou espaço nas redes sociais para descrever situações em que convicções e narrativas políticas passam a ter mais importância do que os fatos.

Apesar do nome, o termo não corresponde a um diagnóstico clínico de doença mental ou transtorno psiquiátrico. Segundo a psicanalista Fabiana Guntovitch, a expressão é utilizada para caracterizar um afastamento da realidade em situações nas quais as crenças individuais se sobrepõem às evidências.

“Quando a gente fala em psicose, a primeira coisa que a gente pensa é desconexão com a realidade. Ou seja, você tem os fatos, mas a crença e a narrativa são mais importantes que os fatos apresentados. Então você tem um descolamento da realidade que você pode apelidar de psicose”, explica a especialista.

Redes sociais ampliam a tensão política

A presença constante da política nas redes sociais transformou a maneira como a população acompanha as eleições e os acontecimentos do país. Informações, opiniões e debates chegam aos celulares em tempo real, mantendo os usuários expostos a conteúdos políticos durante boa parte do dia.

Essa dinâmica pode intensificar divergências e dificultar o diálogo entre pessoas com posicionamentos diferentes. Uma conversa sobre candidatos, partidos ou propostas pode rapidamente se transformar em uma discussão marcada por irritação, frustração e resistência a opiniões contrárias.

A exposição contínua a conflitos políticos também pode provocar cansaço mental, ansiedade e preocupação com o futuro do país. Em situações de maior tensão, o debate deixa de ser apenas uma forma de participação cidadã e passa a interferir no bem-estar emocional.

Quando a divergência política afeta os relacionamentos

Para Fabiana Guntovitch, o problema não está no interesse da população pela política. Acompanhar decisões públicas, discutir propostas e participar do debate democrático são atitudes importantes. A dificuldade surge quando a identificação com um candidato ou partido passa a determinar a maneira como as pessoas enxergam e tratam umas às outras.

“A questão não é se a população está mais consciente, mais inserida nas questões políticas, porque isso é algo muito necessário. Hoje o que a gente vê é que existe uma polarização política tamanha que veio de encontro à polarização afetiva da população: ou você ama quem eu amo cegamente, ou eu não te amo mais”, analisa a psicanalista.

A chamada polarização afetiva acontece quando as diferenças políticas deixam de representar apenas opiniões distintas e passam a interferir diretamente nos sentimentos e nos vínculos pessoais. Nesse cenário, discordar de um familiar ou amigo pode ser interpretado como uma rejeição pessoal, mesmo quando a relação envolve outros valores e experiências compartilhadas.

O resultado pode ser o afastamento entre pessoas próximas, conflitos dentro de casa e dificuldades para manter conversas respeitosas sobre assuntos públicos.

Como lidar com opiniões diferentes?

Em um ambiente de forte polarização, reconhecer que pessoas próximas podem ter visões políticas distintas é um passo importante para preservar os relacionamentos. Isso não significa abrir mão das próprias convicções, mas compreender que a divergência faz parte da convivência democrática.

Estabelecer limites para discussões que provocam desgaste, evitar a exposição excessiva a conteúdos que alimentam conflitos e priorizar o respeito durante as conversas são algumas medidas que podem ajudar a reduzir a tensão.

Também é importante distinguir críticas a ideias e posicionamentos de ataques pessoais. A possibilidade de discordar sem romper vínculos contribui para relações mais saudáveis e para um debate político menos hostil.

A política faz parte da vida em sociedade, mas não precisa ocupar todos os espaços das relações pessoais. Preservar o diálogo e reconhecer a humanidade de quem pensa diferente são atitudes que ajudam a impedir que as divergências eleitorais se transformem em conflitos permanentes.

 

*Com informações do SBT News