Hoje, Mato Grosso do Sul celebra 49 anos de existência e tem na indústria de celulose um dos símbolos da transformação de sua economia. Tradicionalmente reconhecido pela força da agropecuária, o Estado amplia sua presença no mercado internacional com a instalação de grandes fábricas, a expansão das florestas plantadas e a industrialização de matérias-primas. O avanço tem como principal cenário a região leste, onde o chamado Vale da Celulose reúne investimentos bilionários e modifica a dinâmica econômica de municípios como Ribas do Rio Pardo, Três Lagoas e Inocência.

Os números mostram a dimensão desse crescimento. Entre janeiro e agosto de 2026, os segmentos de celulose e papel movimentaram US$ 3,15 bilhões em exportações industriais, o equivalente a 40% de tudo o que a indústria sul-mato-grossense exportou no período. Em 2025, as vendas externas chegaram a US$ 3,12 bilhões, com o envio de 6,91 milhões de toneladas ao mercado internacional. No mesmo ano, o setor empregava 24.430 trabalhadores, mais de três vezes o contingente registrado em 2010.

A produção também ganhou força. Segundo o Observatório da Indústria da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (Fiems), o valor bruto da produção do setor alcançou R$ 20,4 bilhões em 2024. O resultado acompanha a expansão da base florestal e a chegada de empreendimentos que ampliam a capacidade industrial do Estado, agregam valor à matéria-prima e fortalecem a participação de Mato Grosso do Sul no comércio exterior.

Para a economista Daniela Teixeira Dias, esse movimento representa uma mudança importante na estrutura econômica estadual, que historicamente tem na produção agropecuária uma de suas principais características. A instalação de indústrias permite avançar além da exportação de produtos in natura e ampliar o processamento dentro do próprio território.

“Quando a gente começa a perceber o desenho que tem ocorrido nos últimos anos no que diz respeito à indústria, percebe que o Estado tem estimulado bastante a entrada de indústrias. Quando a gente fala de logística e tem um processamento mais próximo da matéria-prima, isso traz reduções de custos importantes”, explica.

Economista Daniela Teixeira Dias Foto: arquivo pessoal

A economista também destaca o papel dos incentivos fiscais na atração de empresas. Na avaliação dela, essas medidas ajudam a tornar o Estado mais competitivo na disputa por grandes projetos industriais. Além disso, a transformação da matéria-prima amplia o valor agregado dos produtos e contribui para a geração de empregos, com reflexos sobre diferentes setores da economia.

Entre os principais investimentos está a fábrica da Suzano, em Ribas do Rio Pardo, inaugurada em 2025. Com aporte de R$ 22,2 bilhões e capacidade para produzir 2,55 milhões de toneladas de celulose por ano, a unidade consolidou o município como um dos principais centros dessa atividade no Estado. Em Inocência, o projeto da chilena Arauco prevê investimento de US$ 4,6 bilhões e capacidade anual de 3,5 milhões de toneladas. Em maio de 2026, as obras haviam alcançado 58% de execução física, com previsão de início das operações em setembro de 2027.

Bataguassu também está no horizonte de expansão do setor. A Bracell planeja instalar uma fábrica com investimento estimado em R$ 16 bilhões, projeto que depende das etapas de licenciamento ambiental e implantação. Com os empreendimentos previstos, Mato Grosso do Sul busca ampliar sua capacidade produtiva e consolidar uma cadeia industrial que envolve desde o cultivo de eucalipto até o transporte e a exportação da celulose.

Os efeitos desse crescimento, no entanto, vão além dos limites das fábricas. Segundo Daniela, grandes empreendimentos movimentam a economia durante a construção e continuam gerando impactos na fase de operação, quando passam a demandar trabalhadores, fornecedores e serviços. O aumento da população também amplia o consumo e abre espaço para novos negócios.

“Essas indústrias são capazes de modificar toda uma estrutura econômica, também no sentido de pessoas e de geração de renda desses municípios. A gente percebe que isso acaba desencadeando um impacto em cadeia, que vai até a geração de outros empregos, de outros segmentos, e também a constituição de outras empresas”, afirma.

A mudança já pode ser percebida em cidades que recebem grandes investimentos. Em Ribas do Rio Pardo, por exemplo, a chegada de trabalhadores de diferentes regiões contribui para o crescimento populacional e aumenta a procura por moradia, comércio e serviços. Em uma estimativa feita durante a fase de instalação da fábrica da Suzano, Daniela avaliou que a população do município poderia até dobrar após a conclusão das obras e a consolidação da operação industrial.

“Se eu tenho mais pessoas, logo tenho outras necessidades latentes. Tenho necessidade de restaurante, de comércio, de escolas. Cabe também ao município e ao Estado acompanhar esses movimentos”, ressalta a economista.

O desafio, portanto, é fazer com que o desenvolvimento industrial seja acompanhado por investimentos em infraestrutura e serviços públicos. A ampliação da oferta de moradias, escolas, atendimento de saúde e mobilidade urbana será fundamental para atender à população e garantir que os benefícios econômicos se convertam em qualidade de vida.

A logística também ocupa posição estratégica nesse cenário. A concessão da Rota da Celulose prevê melhorias em 870 quilômetros de rodovias, com investimentos estimados em R$ 10 bilhões, para facilitar o escoamento da produção. A capacidade de transportar a celulose com eficiência será determinante para sustentar a expansão do setor e fortalecer a competitividade das empresas instaladas no Estado.

Ao completar 49 anos de criação, Mato Grosso do Sul reúne, no Vale da Celulose, um dos exemplos mais expressivos de diversificação de sua economia. A força da agropecuária continua sendo uma marca estadual, mas a expansão industrial acrescenta novas possibilidades de geração de renda, emprego e desenvolvimento regional. Para transformar os bilhões investidos em benefícios duradouros, o próximo passo será conciliar o crescimento da produção com planejamento urbano, infraestrutura e atendimento às necessidades da população.

Mato Grosso do Sul Foto: Marcos Maluf