Educação
Pedro Chaves acredita na literatura como guardiã da história de MS
Presidente da ASL projeta digitalização do acervo, parcerias com universidades e ações nas escolas para valorizar cultura regional
A preservação da memória cultural, o incentivo à leitura e a aproximação entre literatura e educação estão entre as prioridades de Pedro Chaves à frente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras (ASL). Ex-senador por Mato Grosso do Sul, o professor pretende ampliar o acesso ao acervo histórico da instituição, criar novas oportunidades para escritores e levar atividades literárias à Capital e ao interior.
Em entrevista ao JD1, ele também relembra sua atuação no Senado, analisa a construção da identidade sul-mato-grossense e destaca a obra Camalotes e Guavirais, de Ulysses Serra, como referência para quem deseja conhecer a história e a cultura do Estado. Além disso, o educador afirma que não vê a tecnologia como inimiga, e sim como aliada aos livros.
Confira:
JD1 – Professor, o senhor acaba de assumir a presidência da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, diante disso, como o senhor pretende atuar para que a literatura possa ajudar a preservar a memória e a história de Mato Grosso do Sul?
Pedro Chaves – A literatura é uma das formas mais importantes de preservar a memória de um povo. Os documentos oficiais registram os acontecimentos, mas os livros também guardam os costumes, os sentimentos, as experiências e a maneira como uma sociedade compreende a si mesma.
Por isso, nosso plano de gestão tem como uma das prioridades fortalecer a preservação da memória literária e cultural de Mato Grosso do Sul. Pretendemos avançar na digitalização do acervo histórico da Academia, ampliar a acessibilidade de nossas publicações e estudar a criação de uma Biblioteca Virtual da ASL, que possa reunir obras de autores sul-mato-grossenses e materiais importantes para pesquisadores e leitores.
Também queremos valorizar nossos escritores por meio dos concursos literários, das publicações da Academia e de iniciativas que aproximem a literatura da população.
Nosso objetivo é que a Academia não seja apenas guardiã do que foi produzido no passado, mas também uma instituição capaz de incentivar a produção cultural do presente e deixar um legado para as próximas gerações.
JD1 – Na sua trajetória, educação, cultura e política estiveram bastantes próximas. Onde essas áreas ainda precisam avançar juntas?
Pedro Chaves – Acredito que precisamos aproximar cada vez mais o conhecimento, a educação e a cultura das decisões que influenciam a vida da população. A educação forma cidadãos, a cultura amplia nossa compreensão do mundo e a política tem a responsabilidade de criar condições para que essas oportunidades alcancem mais pessoas.
É justamente nesse encontro que vejo um papel importante para a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Nosso plano prevê parcerias com escolas e universidades, projetos de extensão, oficinas, palestras, seminários e atividades que aproximem escritores, pesquisadores, professores e estudantes.
Queremos também criar oportunidades para que universitários participem de projetos de pesquisa, preservação do acervo e produção cultural, sempre buscando a cooperação com as instituições de ensino.
Acredito que precisamos construir pontes. O conhecimento não pode ficar restrito às universidades, assim como a cultura não pode ficar limitada aos espaços culturais. Ambos precisam chegar à sociedade e contribuir para a formação de cidadãos mais conscientes e participativos.
JD1 – Em uma era tão digital, como aproximar os livros físicos às novas gerações?
Pedro Chaves – Eu não vejo a tecnologia como inimiga do livro. Pelo contrário, acredito que podemos utilizá-la para despertar o interesse pela leitura e aproximar os jovens dos escritores e das obras literárias.
Em nosso plano de gestão, estamos propondo a expansão do projeto Leituras & Conversas e a criação dos Clubes de Leitura da ASL em escolas, universidades e outros espaços parceiros. Também queremos ampliar as oficinas de escrita criativa e fortalecer os concursos literários, abrindo oportunidades para estudantes e novos escritores.
Outra iniciativa importante será a Caravana da ASL nas Escolas, com oficinas, palestras, rodas de leitura e encontros com nossos acadêmicos, tanto na Capital quanto no interior.
Além disso, pretendemos avançar na digitalização do acervo e estudar a criação de uma Biblioteca Virtual. Dessa maneira, podemos combinar o valor insubstituível do contato com os livros físicos com as possibilidades de acesso oferecidas pelo ambiente digital.
O mais importante é despertar no jovem o prazer de ler, escrever, questionar e descobrir. Quando a leitura deixa de ser apenas uma obrigação e passa a ser uma experiência de descoberta, ela ganha espaço na vida das pessoas.
JD1 – Mato Grosso do Sul tem uma história marcada por diferentes povos, fronteiras, migrações e manifestações culturais. O senhor acredita que essa diversidade está suficientemente representada na literatura e na memória oficial do Estado?
Pedro Chaves – Mato Grosso do Sul tem uma identidade cultural muito rica, construída por diferentes povos, tradições, migrações e relações de fronteira. Acredito que valorizar essa diversidade é uma tarefa permanente, porque sempre há histórias, autores e manifestações culturais que podem receber mais visibilidade.
Na Academia, queremos contribuir para ampliar esse espaço, valorizando a produção literária regional e estimulando a participação de novos escritores. O fortalecimento dos concursos literários, a abertura de novas oportunidades de publicação e a realização de atividades culturais são caminhos para isso.
Também pretendemos ampliar o diálogo com artistas, pesquisadores, instituições culturais e universidades, além de promover intercâmbios com outras regiões do Brasil e outros países.
Não se trata apenas de preservar aquilo que já é reconhecido, mas de criar oportunidades para que diferentes vozes possam ser conhecidas e valorizadas. Quanto mais conhecermos as histórias que formam nosso Estado, mais completa será nossa compreensão da identidade sul-mato-grossense.
JD1 – Como o senhor acredita que esteja ajudando na melhoria ou acesso à educação no Mato Grosso do Sul?
Pedro Chaves – A educação sempre ocupou um lugar importante em minha trajetória, e acredito que nossa contribuição precisa ir além da formação escolar. É necessário também estimular o pensamento crítico, a leitura, a escrita e o acesso ao conhecimento.
Durante minha passagem pelo Senado Federal, participei de trabalhos legislativos relacionados à educação, incluindo a avaliação da Meta 1 do Plano Nacional de Educação, voltada à educação infantil, e a análise de propostas relacionadas à valorização dos profissionais da educação básica.
Agora, à frente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, quero contribuir por meio de uma atuação cultural e educativa. Nosso plano prevê a Caravana da ASL nas Escolas, oficinas de escrita criativa, Clubes de Leitura, concursos literários e a criação do projeto Academia Estudantil de Letras, aproximando os estudantes da literatura e incentivando a produção de seus próprios textos.
Também buscaremos parcerias com universidades para desenvolver projetos de extensão, pesquisa e preservação da memória cultural.
Acredito que uma instituição como a Academia pode complementar o trabalho das escolas, despertando talentos, formando leitores e mostrando aos jovens que a leitura e a escrita são instrumentos de expressão, conhecimento e transformação.
JD1 – O senhor foi Senador por Mato Grosso do Sul. Existe algum projeto ou legado da sua passagem pelo Senado que o senhor considera especialmente importante para o Estado e que gostaria que fosse lembrado?
Pedro Chaves – Durante minha passagem pelo Senado Federal, dediquei especial atenção à educação, área que sempre esteve muito presente em minha trajetória profissional e pública. Entre os trabalhos mais marcantes desse período, destaco minha atuação como relator da Reforma do Ensino Médio, por meio da Medida Provisória nº 746/2016, que deu origem à Lei nº 13.415, de 2017.
Foi um trabalho de grande responsabilidade, pois tratava de mudanças importantes na organização dessa etapa da educação básica. Em meu relatório, defendi uma proposta que buscava tornar o ensino médio mais conectado às aptidões e aos projetos de vida dos estudantes, com a possibilidade de aprofundamento em diferentes áreas do conhecimento por meio dos itinerários formativos. Também trabalhei pela manutenção de Artes e Educação Física como disciplinas obrigatórias e por medidas relacionadas à ampliação da jornada escolar e ao ensino em tempo integral.
Outro trabalho relevante foi minha atuação como relator na avaliação da Meta 1 do Plano Nacional de Educação, relacionada à ampliação do atendimento na educação infantil. Essas experiências reforçaram minha convicção de que as políticas educacionais precisam ser acompanhadas, avaliadas e aperfeiçoadas continuamente, para que seus objetivos se traduzam em benefícios concretos para a população.
Hoje, em uma nova etapa de minha trajetória pública, vejo na presidência da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras uma oportunidade de continuar contribuindo para a sociedade, agora por meio da literatura, da cultura e da formação de leitores.
Nosso plano de gestão busca ampliar o alcance da Academia, fortalecer os concursos literários, aproximar a instituição das escolas e universidades, preservar nosso acervo e incentivar novos escritores. São atuações diferentes, mas que compartilham uma mesma convicção: o conhecimento, a educação e a cultura são fundamentais para o desenvolvimento de uma sociedade e para a formação de cidadãos mais conscientes e preparados para o futuro.
JD1 – O Estado está completando 49 anos, e o senhor acompanhou diferentes momentos da construção de Mato Grosso do Sul. O que mais mudou na identidade do Estado ao longo dessas décadas e o que não pode se perder?
Pedro Chaves – Mato Grosso do Sul completa 49 anos como Estado em 2026, e sua identidade foi sendo construída pela história, pela diversidade de sua população, pelo desenvolvimento de suas cidades e pela riqueza de suas manifestações culturais.
Acredito que, ao longo dessas décadas, ampliamos nossa capacidade de reconhecer a importância de uma identidade própria, sem perder as raízes históricas e culturais que formaram nosso território.
O que não podemos perder é a memória de como chegamos até aqui, o respeito à diversidade que nos constitui e a valorização das pessoas que contribuíram para construir nosso Estado.
É por isso que considero tão importante fortalecer as instituições culturais. Nosso plano de gestão prevê a preservação e a digitalização do acervo da Academia, a valorização dos escritores regionais e a ampliação das atividades de leitura e produção literária.
Queremos também aproximar a Academia das escolas, para que as novas gerações conheçam os autores, as histórias e as manifestações culturais de Mato Grosso do Sul.
Preservar a memória é garantir que o desenvolvimento não apague nossas origens. Um Estado que conhece sua história tem melhores condições de compreender seu presente e construir seu futuro.
JD1 – Professor, o senhor já ocupou espaços importantes na política e hoje está à frente da Academia de Letras. Em Mato Grosso do Sul, ainda existe uma distância entre quem produz conhecimento e quem toma as decisões políticas? Quem deveria se aproximar mais de quem?
Pedro Chaves –Sempre há espaço para ampliar o diálogo entre quem produz conhecimento e quem toma decisões. Pesquisadores, professores, escritores e artistas contribuem para que a sociedade compreenda melhor sua realidade, enquanto as instituições públicas têm a responsabilidade de considerar informações, evidências e necessidades coletivas em suas decisões.
Não vejo essa aproximação como uma via de mão única. É importante que o poder público esteja aberto ao conhecimento produzido nas universidades e nas instituições culturais, mas também que essas instituições busquem participar dos debates e compartilhar o que produzem.
É uma das razões pelas quais nosso plano de gestão prevê parcerias com universidades, seminários, cursos de extensão, projetos de pesquisa e encontros com escritores, pesquisadores e especialistas.
Queremos que a Academia seja um espaço de diálogo sobre literatura, cultura e temas relevantes para a sociedade, sem perder sua autonomia institucional.
Acredito que o conhecimento precisa circular. Quando há cooperação, respeito às diferentes responsabilidades e disposição para ouvir, criamos melhores condições para decisões mais qualificadas e para uma sociedade mais consciente.
JD1 – Para finalizar, professor... Se o senhor pudesse escolher uma obra, um autor ou um episódio da história de Mato Grosso do Sul para apresentar a alguém que não conhece o Estado, qual seria e por quê?
Pedro Chaves – Eu escolheria Camalotes e Guavirais, de Ulysses Serra, uma obra de referência da literatura sul-mato-grossense e que tem um significado especial para nós, da Academia, porque seu autor foi um dos fundadores da instituição.
O próprio título nos apresenta duas imagens muito representativas da nossa região: os camalotes dos pantanais de Corumbá e os guavirais dos chapadões de Campo Grande. A partir dessas paisagens, Ulysses Serra registra também pessoas, lugares, costumes e lembranças que ajudam a compreender a formação cultural do nosso Estado.
Acredito que essa obra é uma bela porta de entrada para quem deseja conhecer Mato Grosso do Sul não apenas por suas belezas naturais, mas também por sua história, sua memória e sua identidade.
E há algo importante nisso: Mato Grosso do Sul não pode ser resumido a uma única paisagem ou a um único aspecto cultural. Somos Pantanal, Cerrado, cidades, fronteiras, diferentes povos, tradições e histórias que se encontram e se transformam.
Por isso, ao apresentar essa obra, eu também faria um convite para que o leitor conhecesse outros autores sul-mato-grossenses. Temos uma literatura rica, que merece ser lida, preservada e divulgada.
Como presidente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, quero contribuir justamente para isso: para que nossas obras continuem contando a história de quem somos e para que cada vez mais pessoas descubram a riqueza cultural de Mato Grosso do Sul.