Há crianças que chegam à escola carregando silêncios que ninguém percebe. Algumas ainda não encontraram palavras para falar sobre seus medos, suas dores e seus sonhos. Outras aprenderam cedo demais a acreditar que não possuem talento, que sua história não importa ou que determinados lugares não foram feitos para elas.

Então surge uma música.

Um pincel toca o papel. O corpo começa a dançar. Uma cortina se abre. Pela primeira vez, aquela criança percebe que também pode criar algo bonito, ocupar um palco e ser escutada.

É nesse instante que a arte deixa de ser apenas uma atividade escolar e se transforma em acolhimento, pertencimento e possibilidade de futuro.

A arte alcança lugares aos quais nem sempre as palavras conseguem chegar. Ela permite que sentimentos guardados encontrem uma forma de existir. Por meio dela, o estudante pode falar sem precisar explicar tudo, revelar sua identidade, reconhecer sua história e descobrir capacidades que talvez permanecessem escondidas.

Durante muito tempo, tratamos a arte como algo secundário: um momento de recreação, uma apresentação em data comemorativa ou um enfeite nos corredores. Mas a arte não é um intervalo da aprendizagem. Ela também é conhecimento, linguagem, memória e uma maneira profundamente humana de compreender o mundo.

A educadora Ana Mae Barbosa, uma das maiores referências brasileiras da arte-educação, ajudou o país a compreender que ensinar arte não significa apenas distribuir materiais ou reproduzir técnicas. Significa ensinar o estudante a criar, apreciar, interpretar e contextualizar aquilo que vê. Significa ajudá-lo a perceber que toda produção artística carrega uma história — e que a história dele também merece ser contada.

Essa oportunidade assume um valor ainda maior na escola pública

Para muitas crianças e jovens, é nela que acontece o primeiro contato com um instrumento musical, uma peça teatral, uma apresentação de dança ou uma exposição. Sem a escola, essas experiências poderiam permanecer distantes, reservadas às famílias que conseguem pagar por cursos, ingressos e instrumentos.

Quando a escola pública oferece arte, não está simplesmente acrescentando uma atividade ao cotidiano. Está derrubando uma barreira social. Está dizendo a cada estudante, independentemente de sua origem ou condição econômica: a cultura também é sua, o palco também é seu, o direito de criar também lhe pertence.

Democratizar a arte é democratizar o direito de sentir, imaginar e sonhar

Essa democratização é ainda mais urgente nas comunidades marcadas pela pobreza, pela violência e pela ausência de oportunidades. Para muitos jovens, o tempo fora da escola não é preenchido por cursos, viagens ou atividades culturais. É um tempo atravessado pelas desigualdades da própria realidade, muitas vezes com exposição ao aliciamento pelo tráfico, ao uso de drogas e a diferentes formas de violência.

Nenhum projeto artístico, sozinho, pode resolver problemas sociais tão profundos. Mas a arte pode representar uma poderosa rede de proteção. Pode oferecer ao jovem um grupo ao qual pertencer, um professor em quem confiar, uma rotina, uma responsabilidade e um motivo para acreditar em si mesmo.

Onde antes havia uma tarde vazia, pode nascer um ensaio. Onde havia isolamento, pode surgir um grupo. Onde o jovem acreditava não ter valor, pode aparecer o reconhecimento de um talento. E onde parecia existir apenas um caminho, a arte pode revelar muitos outros.

Investir em cultura também significa disputar o futuro de nossos jovens

Um adolescente que encontra uma banda, um grupo de teatro, uma companhia de dança ou um ateliê dentro da escola passa a ocupar seu tempo com experiências que exigem compromisso, disciplina, convivência e persistência. Aprende que ninguém realiza uma apresentação sem ensaiar, que os erros fazem parte do processo e que o resultado coletivo depende da dedicação de cada participante.

A cultura também pode se transformar em profissão e renda. Por trás de um espetáculo existem músicos, atores e bailarinos, mas também iluminadores, sonoplastas, figurinistas, cenógrafos, produtores, técnicos, fotógrafos, designers, escritores e muitos outros trabalhadores. Apresentar esse universo aos jovens é mostrar que a criatividade também pode abrir caminhos profissionais.

Lev Vygotsky mostrou que a imaginação e a capacidade de criar não são dons reservados a poucas pessoas. Elas se desenvolvem a partir das experiências, das relações sociais e das referências culturais oferecidas a cada criança. Quanto mais amplo for o contato com a arte, maiores serão suas possibilidades de imaginar outros caminhos para a própria vida.

Por isso, a arte também ajuda a fortalecer a permanência na escola.

A permanência não se constrói apenas com matrícula, frequência e avaliações. O estudante permanece quando se sente reconhecido, quando encontra amigos, referências e oportunidades, quando percebe que sua presença faz diferença e que existe um lugar onde sua voz não será ignorada.

Às vezes, é o ensaio da banda que o faz voltar no dia seguinte. É o grupo de teatro que lhe oferece amizade e acolhimento. É a dança que lhe devolve a confiança. É o desenho que revela uma capacidade que ninguém havia percebido. A arte pode ajudar a escola a recuperar o vínculo com aquele jovem que começava a se afastar e mostrar-lhe que ele não precisa desistir de si mesmo.

Por isso, é preocupante que o Brasil, um país de imensa riqueza cultural, ainda invista tão pouco e de forma tão descontínua na área. A cultura costuma estar entre as primeiras políticas atingidas por cortes, como se fosse dispensável. Mecanismos de incentivo, entre eles a Lei Rouanet, também foram transformados em alvos de disputas e desinformação política, quando o debate deveria se concentrar em aperfeiçoar a fiscalização, democratizar os recursos e levar oportunidades culturais a todas as regiões.

A questão central não é a defesa de uma lei específica, mas a defesa do direito à cultura. Investir em arte não é financiar um luxo. É construir oportunidades, gerar trabalho, fortalecer identidades e criar alternativas para crianças e jovens que não podem esperar.

Em Mato Grosso do Sul, iniciativas do Governo do Estado, realizadas pela Fundação de Cultura, apoiam a produção e a circulação artística, os projetos comunitários e a valorização das tradições regionais. Na educação, a Secretaria de Estado de Educação, por meio do seu Núcleo de Arte e Cultura — o NUAC — coordena o Programa Arte e Cultura na Escola, oferecendo atividades de música, dança, teatro e artes visuais no contraturno da Rede Estadual de Ensino.

São ações importantes, mas o verdadeiro sentido delas não está nos nomes dos programas ou das instituições. Está na criança que venceu a vergonha e conseguiu subir ao palco. No adolescente que aprendeu a tocar as primeiras notas. No estudante que encontrou em um grupo artístico um espaço de amizade e acolhimento. Na família que se emocionou ao descobrir um talento que talvez nunca tivesse sido revelado.

Em Mato Grosso do Sul, essa missão também significa reconhecer a riqueza das culturas indígenas, pantaneiras, fronteiriças, quilombolas, rurais e urbanas que formam nossa identidade. Cada canto, ritmo, traço, gesto e narrativa carrega a memória de um povo. Quando essas expressões entram na escola, o estudante aprende que sua origem não deve ser escondida, mas reconhecida e celebrada. Pois a arte também educa para a democracia porque ensina que todas as vozes podem participar da construção de algo coletivo. Em uma apresentação, ninguém precisa apagar o outro para ser visto. Cada instrumento, movimento, personagem e cor possui sua importância. A beleza nasce justamente do encontro entre as diferenças.

Toda vez que uma criança canta, pinta, dança, representa ou toca um instrumento dentro de uma escola pública, ela afirma, ainda que silenciosamente: “Eu estou aqui. Eu tenho uma história. Eu também sou capaz”.

A escola verdadeiramente democrática não é apenas aquela que abre os portões para todos. É aquela que oferece a cada estudante motivos para permanecer, espaço para criar e coragem para acreditar que seu futuro não está determinado pelas dificuldades do lugar onde nasceu.

Entre a rua e o palco, entre a violência e um instrumento, entre a desistência e a oportunidade, uma política pública pode ajudar um jovem a fazer uma escolha diferente.

Investir em arte e cultura é garantir que essa escolha exista.

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Hélio Queiroz Daher
Secretário de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul