Opinião
OPINIÃO: Não deixar ninguém para trás
O abandono escolar quase nunca acontece de repente. Antes que um estudante deixe definitivamente a escola, surgem sinais: faltas recorrentes, queda no rendimento, isolamento, desinteresse e enfraquecimento dos vínculos com colegas e professores.
Por isso, acompanhar a frequência não deve ser apenas uma obrigação administrativa. Cada ausência precisa ser observada como parte de uma história que talvez ainda não conheçamos. Uma carteira vazia pode revelar dificuldades de transporte, necessidade de trabalhar, problemas familiares, questões de saúde física ou emocional, violência, gravidez, responsabilidade de cuidar dos irmãos ou dificuldades de aprendizagem.
Pode revelar, também, algo mais silencioso: o estudante deixou de acreditar que consegue aprender ou de sentir que pertence àquele lugar.
É nesse espaço entre as primeiras faltas e o afastamento definitivo que a Busca Ativa Escolar se torna necessária. Seu propósito não deve ser apenas localizar quem está ausente, mas compreender por que essa ausência acontece e criar condições para que o estudante retorne, permaneça e aprenda.
Essa distinção é importante. Telefonar para a família ou registrar uma ocorrência pode fazer parte do processo, mas não representa, por si só, uma política de cuidado. Buscar ativamente exige escuta, acompanhamento e disposição para enfrentar as causas que afastam crianças e jovens da escola.
Paulo Freire nos ensinou que a educação se realiza pelo diálogo. No contexto da Busca Ativa, isso significa conversar com as famílias sem julgamentos e escutar o estudante antes de atribuir sua ausência à falta de interesse ou de responsabilidade.
Há situações em que um contato realizado no momento certo impede o rompimento do vínculo escolar. Em uma experiência da Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul, uma jovem de 17 anos deixou de frequentar as aulas após enfrentar problemas familiares e dificuldades relacionadas à distância. A escola percebeu sua ausência, procurou a família, ouviu a estudante e encontrou uma alternativa para seu retorno. Ela retomou os estudos, recuperou a frequência e voltou a construir sua trajetória escolar.
A história poderia ter terminado de outra maneira. Se suas faltas fossem tratadas apenas como números, talvez ela se tornasse mais uma jovem distante da escola. O que mudou seu caminho não foi uma medida extraordinária, mas a decisão de alguém de perceber que ela não estava presente e perguntar o motivo.
Outras experiências mostram que o acompanhamento diário da frequência, o contato imediato com as famílias, as visitas domiciliares e o acolhimento no retorno podem reduzir significativamente o abandono. Há escolas que chegaram a índices próximos de zero ao transformar esse cuidado em uma prática permanente.
Esses resultados não devem ser vistos como propaganda ou como uma fórmula pronta. Eles demonstram que o abandono pode ser prevenido quando existe acompanhamento individualizado e quando a ausência deixa de ser naturalizada.
A tecnologia pode ajudar nesse processo. Em Mato Grosso do Sul, um sistema permite identificar estudantes com frequência irregular e organizar o acompanhamento dos casos. Contudo, nenhum sistema substitui a sensibilidade dos profissionais que conhecem os estudantes, observam mudanças de comportamento e constroem relações de confiança com as famílias.
Os dados emitem alertas; são as pessoas que escutam, acolhem e encontram caminhos.
Também é preciso reconhecer que a escola não consegue enfrentar sozinha todas as situações que provocam o afastamento. Determinados casos exigem a participação dos serviços de saúde e assistência social, do Ministério Público Estadual e de outras instituições responsáveis pela garantia dos direitos de crianças e adolescentes.
Uma rede de proteção somente funciona quando existe diálogo entre seus integrantes, clareza de responsabilidades e compromisso das gestões públicas. Quando os serviços não se comunicam ou não recebem as condições necessárias para atuar, os encaminhamentos se perdem e o cuidado se fragmenta. Nessa desarticulação, quem mais sofre é a criança ou o jovem que já se encontra em situação de vulnerabilidade.
A família ocupa um lugar essencial nesse trabalho, mas sua participação não pode ser lembrada apenas no momento da crise. A aproximação com a escola precisa ser construída durante todo o ano, com canais permanentes de diálogo. Muitas famílias também enfrentam dificuldades e precisam ser acolhidas para que possam participar da solução.
Trazer o estudante de volta, entretanto, não encerra a Busca Ativa. O retorno sem acolhimento pode produzir um novo afastamento. É necessário identificar o que ele deixou de aprender, oferecer apoio pedagógico, reconstruir os vínculos e ajudá-lo a recuperar a confiança em si mesmo.
O estudante que retorna não pode ser recebido como alguém que falhou. Deve ser reconhecido como alguém cuja trajetória foi afetada por circunstâncias que precisam ser compreendidas e enfrentadas.
A permanência escolar depende de um conjunto de condições: aprendizagem significativa, ambiente seguro, relações respeitosas, apoio emocional e sentimento de pertencimento. Estar matriculado não é o mesmo que estar verdadeiramente incluído.
Cada estudante que retorna representa muito mais do que a recuperação de uma matrícula ou a melhoria de um indicador. Representa um projeto de vida que pode continuar sendo escrito.
A Busca Ativa Escolar é, portanto, uma responsabilidade compartilhada e uma escolha ética: a escolha de não aceitar que alguém desapareça da escola sem que procuremos saber o que aconteceu.
Não deixar ninguém para trás significa perceber a ausência, escutar sem julgar, procurar a família, mobilizar os serviços necessários e oferecer condições reais para o retorno. Significa dizer a cada criança e a cada jovem: sua presença importa, sua história não será ignorada e a escola ainda é um lugar para você.
Hélio Queiroz Daher
Secretário de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul