O deputado federal Carlos Marun (PMDB) em entrevista ao JD1 Notícias falou sobre o momento político "extremamente conturbado". Para Marun apensar do cenário político, o Congresso não pode simplesmente ficar paralisado. O deputado defende a "retomada imediata da reforma da Previdência". 

Confira a entrevista completa do deputado federal Carlos Marun:

Jornal de Domingo - Como vê o atual momento político?

Carlos Marun - Extremamente conturbado, com muitos apostando na instabilidade, com os setores do Poder Judiciário obtendo uma hegemonia que é incompatível com o equilíbrio que deve existir entre os poderes.

Jornal de Domingo - Acredita que o Temer pode cair?

Carlos Marun - Não, não acredito em sua queda.

Jornal de Domingo - Como está o clima no Congresso para aprovação das reformas?

Carlos Marun - É óbvio que o atual cenário político atrapalha. Essa instabilidade atrapalha. Agora essa instabilidade se voltaria contra qualquer governo que tentasse fazer essas reformas de que o Brasil necessita, então pelo menos é positivo e nós temos hoje um governo que não se dispõe a recuar, mesmo diante desse enfrentamento. Eu entendo que o Congresso neste momento não pode simplesmente ficar paralisado esperando uma eventual denúncia do Ministério Público contra o presidente Temer. A busca ensandecida do Ministério Público por delações é a evidência de que ele não possui provas suficientes para sequer pedir esse indiciamento, daí resulta que a denúncia que iria acontecer no dia 19 de junho não aconteceu. Então nós do Congresso não podemos ficar paralisados, esperando a chegada dessa eventual denúncia, que pode até não acontecer. Assim sendo, eu sou daqueles que defendo a retomada imediata da discussão da reforma da Previdência. Ela é necessária. Nós não perdemos votos em relação a ela com essa crise, mas perdemos tempo. Então eu penso que é chegada a hora de recuperarmos o tempo perdido. Temos de ter coragem para enfrentar essa situação, para que cada parlamentar assuma sua responsabilidade em relação ao futuro do Brasil, votando contra ou a favor da reforma da Previdência. 

Jornal de Domingo - As reformas trabalhista e da Previdência não prejudicam o trabalhador?

Carlos Marun - Ao contrário. Não existe como achar que vamos conseguir ter uma classe trabalhadora vivendo bem num país que vai mal. A nossa legislação trabalhista é da década de 40, ou seja, absolutamente incompatível com as transformações que  aconteceram nas relações de trabalho. A nossa previdência ela é também incompatível com as atuais características da população brasileira. Nós vivemos hoje muito mais, felizmente. Nossa expectativa média de vida passa de 75 anos, então é natural que tenhamos que trabalhar um pouco mais antes de nos aposentarmos e é basicamente isso que a reforma pretende: acabar com privilégios e adequar os limites de aposentadoria à nova expectativa de vida dos cidadãos brasileiros.

Jornal de Domingo - A sua proposta de criar uma CPI sobre a delação da JBS foi entendida por alguns setores como um "ataque" à PGR. O que o senhor diz a respeito disso?

Carlos Marun - Essa afirmação é completamente inverídica. Agora realmente nós precisamos saber a verdade e entendo que a população brasileira tem o direito de saber a verdade sobre todas essas circunstâncias desse acordo, que a própria imprensa brasileira entende como escandaloso e benevolente. Há várias situações controversas e por isso entendemos que a análise dessas circunstâncias deve ser um dos objetos de investigação dessa CPI. Nós já conseguimos as assinaturas suficientes e estamos agora aguardando os partidos indicarem seus membros e esperamos que isso aconteça já na próxima semana.

Jornal de Domingo - O senhor criticou nessa semana a decisão do juiz que rejeitou o pedido de Temer para processar Joesley por calúnia e a votação no STF para tirar o processo da delação da JBS das mãos do ministro Edson Fachin. Para o senhor, hoje há uma politização do Judiciário?

Carlos Marun - Eu entendo que nesse momento de crise o que todos nós devemos é cumprir a lei e observamos a sua absoluta literalidade. Eu comentava isso essa semana durante o jantar com um ministro do STJ, que concordou comigo. Nesse momento, devemos reduzir ao máximo as interpretações heterodoxas e partirmos para uma observância ortodoxa da lei, ou seja, literal da lei. Nesse sentido, é óbvio que não existe uma relação entre o escândalo do Petrolão e a delação da JBS. Não são a mesma coisa. Então não existe motivo para o ministro Fachin ser o juiz natural deste caso da JBS. Essa situação deveria ter sido distribuída por sorteio entre os ministros do STF e não ter ido diretamente para a o ministro Fachin, até porque não cabe ao Ministério Público escolher o juiz que vai deliberar sobre as pendências que ele apresenta ao  Judiciário. Então é um erro agora diante deste questionamento que aconteceu com muita propriedade no STF, a maioria dos ministros terem buscado um jeitinho. Ao meu ver, o ministro Fachin errou em aceitar essa pretensão, tanto que ele tem devolvido vários processos que chegam a ele. Quanto à decisão do juiz que rejeitou o pedido do presidente Temer de processar o Joesley é mais absurda ainda. Quando você é ofendido e não pode responder à Justiça, praticamente a Justiça está dando um salvo conduto para que você busque uma reparação pelas próprias mãos. Não se pode exigir respeito à lei de alguém ao qual é negado o direito de acessar a Justiça. Jamais esse magistrado poderia ter tomado essa decisão e de plano recusar uma ação como a que propôs o presidente Michel Temer, até porque todo o Brasil sabe que ele foi ofendido na entrevista do Joesley à revista Época. Então é um ativismo político onde se misturam ideologias, se misturam preferências políticas  acabam interferindo na decisão de juízes. Isso não pode acontecer. Juiz tem de cumprir a lei, não inventar a lei.

Jornal de Domingo - Como o senhor vê a delação premiada?

Carlos Marun - A delação premiada é um instrumento válido e legal de combate ao crime. O grande equívoco que está se cometendo é entender que a delação por si só é prova de alguma coisa. Esse entendimento é completamente equivocado. A delação é remunerada e é feita por criminosos. Quem delata, a princípio, cometeu um crime e leva vantagens ao se propor a revelar detalhes desse crime em troca de benefícios, que podem ser tanto em relação à sua liberdade pessoal quanto ao seu patrimônio. Temos visto delações em que os criminosos acabam autorizados a manter parte dos ganhos que obtiveram com sua atuação criminosa. Então ela não pode ser vista como prova. Ou o delator apresenta provas do que diz, ou os órgãos que têm tarefa de investigar usam as informações para fazer uma investigação a partir daí para que a situação seja comprovada. Hoje a delação é posta de uma forma supervalorizada, já traz prejuízos imediatos aos delatados e a delação pode ser até instrumento de uma disputa comercial. Uma empresa delata outra até para obter ganhos financeiros, como esse caso em que a JBS teve ganhos bilionários com a situação que promoveu. Então a delação deve ser avaliada de outra forma, é válida, mas tem de cumprir a lei e não pode por si só ser usada como prova. Nesse caso do Joesley, nós temos várias questões controversas. Primeiro a lei define claramente que o chefe da organização criminosa não pode receber o perdão judicial. Isso está claro na lei. Então o Joesley, que evidentemente é o chefe dessa organização, não poderia ter recebido esse perdão judicial, independentemente do tamanho das informações e das necessidades. Ele não poderia porque a lei não autoria o Ministério Público a conceder no o acordo esse perdão judicial. Além disso, é evidente o cometimento de crimes que foram cometidos depois do acordo de delação, especialmente esses ganhos na véspera da explosão do escândalo. Eu entendo que essa situação, essa luta do Ministério Público por manter o Joesley fora da cadeia, tem de ser enfrentada. O lugar de Joesley Batista é, pelo menos por um tempo, atrás das grades.