Política
Tensão com os EUA reforça aproximação do Brasil com bloco do Sudeste Asiático
Visita do secretário-geral da Asean ao país ocorre em meio ao aumento das tarifas americanas e amplia uma estratégia brasileira de diversificação das relações comerciais e diplomáticas
A relação cada vez mais tensa entre Brasil e Estados Unidos deu um peso extra à visita do secretário-geral da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), Kao Kim Hourn, ao país. Recebido nesta terça-feira (18) pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, no Itamaraty, o diplomata discutiu formas de ampliar a cooperação com uma região que já tem participação importante no comércio brasileiro.
A aproximação, no entanto, começou antes do atual conflito comercial com Washington. Em julho, o governo de Donald Trump impôs duas sobretaxas a produtos brasileiros. Uma delas foi de 25%, sob a justificativa de que políticas do Brasil em áreas como comércio digital, sistema financeiro, etanol e propriedade intelectual prejudicariam empresas americanas. Depois, outra tarifa de 12,5% foi aplicada no âmbito de uma investigação sobre medidas de combate ao trabalho forçado. Nos produtos atingidos pelas duas medidas, a sobretaxa chega a 37,5%.
Durante o encontro, Mauro Vieira apresentou a relação com a Asean como parte da estratégia brasileira de diversificação das parcerias externas. O comércio entre o Brasil e os 11 países do bloco chegou a US$ 38,4 bilhões em 2025, colocando a associação como o quinto maior parceiro comercial do país. O Brasil teve saldo positivo de US$ 10,3 bilhões nas trocas, equivalente a 15% de todo o superávit comercial brasileiro registrado no ano passado.
"Nesse ritmo, o intercâmbio comercial deverá ultrapassar aquele com parceiros tradicionais do Brasil, como os EUA e a União Europeia, em um futuro próximo”, afirmou Vieira.
Segundo o ministro, o Brasil já exporta mais para Singapura do que para a Alemanha e supera as vendas para a França quando considerados os mercados de Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia.
Parceria começou antes da crise
O Brasil recebeu, em 2022, o status de Parceiro de Diálogo Setorial da Asean, tornando-se o primeiro país latino-americano a alcançar essa condição. Desde então, os dois lados mantêm um programa de cooperação para o período de 2024 a 2028. Em outubro do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou da cúpula da associação em Kuala Lumpur, na Malásia, na primeira vez que um chefe de Estado brasileiro esteve em um encontro desse nível.
Agora, o governo brasileiro busca avançar para uma Parceria de Diálogo Plena, que ampliaria os temas e os canais de negociação entre o país e o bloco. Kao Kim Hourn confirmou que o pedido está sendo analisado pela associação.
A Asean reúne Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã e Timor-Leste, que se tornou o 11º integrante em 2025. Juntos, os países representam um mercado de cerca de 700 milhões de pessoas. O Produto Interno Bruto (PIB) do bloco também praticamente dobrou na última década, chegando a aproximadamente US$ 4,5 trilhões.
Comércio, energia e tecnologia
A agenda do secretário-geral da Asean no Brasil vai além do comércio. A comitiva também tem reuniões previstas com representantes dos ministérios de Minas e Energia, Ciência, Tecnologia e Inovação e Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, além de contatos com empresários e integrantes da comunidade acadêmica.
No Ministério de Minas e Energia, foram discutidos temas como segurança energética, fontes renováveis, bioenergia e combustíveis sustentáveis. Para o governo brasileiro, o aprofundamento da relação com o Sudeste Asiático amplia os espaços de cooperação em áreas estratégicas e acompanha o crescimento da importância econômica da região.
Embora uma eventual Parceria de Diálogo Plena não represente, por si só, um acordo de livre comércio ou uma redução automática de tarifas, a iniciativa amplia os canais de interlocução entre Brasil e Asean. O movimento ocorre em um cenário internacional marcado pela disputa de influência entre Estados Unidos e China, enquanto o bloco asiático mantém relações econômicas e diplomáticas com as duas potências, além de União Europeia, Japão e outras grandes economias.