Política
Frente a Frente: Delcídio apresenta propostas para governar Mato Grosso do Sul
Candidato defendeu investimentos em educação, integração na segurança e novo planejamento econômico para o Estado
O candidato ao Governo de Mato Grosso do Sul Delcídio Amaral (PRD) é o terceiro entrevistado da série Frente a Frente – Eleições 2026, realizada por seis veículos de comunicação do Estado. Durante a sabatina, o ex-senador apresentou propostas para o Estado e abordou temas como uso de tecnologia nos serviços públicos, qualificação profissional, infraestrutura e integração dos diferentes modais de transporte.
Ao responder porque almeja ser governador, Delcídio disse que pretende colaborar com sua experiência. "Poucos brasileiros tiveram essa chance. Tenho certeza de que, com tudo aquilo que adquiri ao longo da minha caminhada e também como senador da República, posso ajudar bastante o Estado".
Meio ambiente e sustentabilidade
Ao responder ao JD1 sobre como pretende ampliar hidrovias, dragagens e portos sem aumentar a pressão ambiental sobre o Pantanal, Delcídio Amaral afirmou que o plano de governo apresentado inicialmente foi retificado. O candidato ressaltou sua ligação com a região e defendeu a exploração do potencial logístico de Corumbá e do Rio Paraguai associada à preservação ambiental. “Sou pantaneiro e conheço muito bem o Pantanal. Minha família está lá há mais de 100 anos. O Pantanal é um dos poucos exemplos de sustentabilidade. Você tem uma atividade econômica aliada à sustentabilidade e ao respeito ao meio ambiente”, afirmou.
Delcídio também defendeu a entrada do Pantanal no mercado de sequestro de carbono como alternativa para conciliar preservação e geração de renda. Na réplica, perguntado se abriria mão de uma obra caso estudos apontassem impactos significativos ao bioma, citou a situação do Rio Paraguai e sustentou que o trecho brasileiro enfrenta principalmente problemas de assoreamento. “O nosso lado é só assoreamento, é só areia. Então não é o que falavam. E mais, por que eles não questionam o Rio Taquari? O Rio Taquari tinha um projeto bancado pelo Banco Mundial e o meio ambiente não deixou. Assorearam a área inteira e nós perdemos produção e, mais do que nunca, geração de riqueza”, declarou.
Já ao ser questionado pelo SBTMS sobre a política de neutralidade de carbono até 2030, Delcídio avaliou que a meta não será alcançada nesse prazo e apontou o gás natural como combustível de transição. “Isso é wishful thinking. Achar, esperar, não vai acontecer. Você vai ter transição. E essa transição é importante, passa pelo gás natural”, disse.
Segundo o candidato, o petróleo ainda permanecerá na matriz energética durante esse processo, antes da ampliação das fontes renováveis. “O discurso é bonito, a gente compreende bem isso, as complicações climáticas que isso tem trazido, mas o petróleo vai continuar. E a transição do petróleo é o gás natural, para depois incorporar todo um programa energético de energias renováveis. Difícil mudar, por enquanto. Em 2030, nem pensar”, completou.
Arrecadação e finanças públicas
Ao responder ao Correio do Estado sobre quais medidas fiscais adotaria caso fosse eleito, Delcídio Amaral afirmou que Mato Grosso do Sul enfrenta dificuldades nas contas públicas e citou um déficit nominal de quase R$ 500 milhões no segundo bimestre e uma dívida de R$ 10 bilhões. Para ele, o Estado precisa rever a política de incentivos e ampliar a arrecadação a partir do estímulo às pequenas e médias empresas. “Você tem que cumprir contrato, mas, ao mesmo tempo, pode exigir contrapartidas também de quem aqui investe. Você precisa arrecadar mais, e arrecadar mais incentivando quem mais contrata, que são os pequenos e as médias empresas”, afirmou.
Sobre os gastos que cortaria nos primeiros 100 dias de governo, Delcídio defendeu uma revisão da política de incentivos fiscais e apontou o ICMS como um dos primeiros pontos a serem analisados. “Tem alguns incentivos que a gente precisa rever, respeitando o contrato. Eu não vou quebrar contrato nenhum. [...] O primeiro desafio nosso, ICMS. O ICMS tem afugentado muitos investimentos em Mato Grosso do Sul e nós precisamos ver, por setor, como é que a gente ajusta esse novo desenho da carga tributária”, disse.
Já ao ser questionado pelo Campo Grande News sobre como levaria para o setor público a experiência de planejamento de longo prazo adquirida no setor privado, Delcídio afirmou que a falta de planejamento é um dos problemas enfrentados tanto por Mato Grosso do Sul quanto pelo país. “Eu vim de empresas que planejam 20 anos de cenário, otimista, pessimista, mediano. Eu acho que um dos grandes problemas que Mato Grosso do Sul tem, e não é só Mato Grosso do Sul, o Brasil também é assim, a função planejamento, ela desapareceu”, declarou.
O candidato defendeu a criação de um planejamento capaz de estabelecer uma direção de longo prazo para o Estado e citou como referência o ex-chanceler alemão Helmut Kohl. “Nós podemos montar um planejamento para dar um norte, para onde o Estado vai. [...] Ele dizia assim para mim: ‘Delcídio, o governo dá um norte, o restante deixa o pessoal fazer’. E nós podemos fazer isso, mas com um viés social fundamental e importante”, completou.
Educação
Ao responder A Crítica sobre a proposta de retomar recursos previstos em lei para a UEMS, Delcídio Amaral defendeu que os gastos com a universidade sejam transformados em despesas obrigatórias. Segundo o candidato, a instituição deve ter papel central na formação de mão de obra e no desenvolvimento tecnológico do Estado. Ele também relacionou a medida à chegada de grandes empresas e à necessidade de qualificação profissional. “Porque faltou um projeto de Estado para qualificar as pessoas e um projeto de integração, especialmente olhando tecnologia”, afirmou.
Sobre a possibilidade de queda na arrecadação estadual, Delcídio disse que os recursos destinados à UEMS seriam preservados. O candidato citou o peso da folha e das despesas administrativas nas contas estaduais e defendeu a redução de outros gastos para ampliar a capacidade de investimento. “Nós não temos condição de andar dessa maneira. Então, o que é importante, que é fundamental? Nós temos que racionalizar e fazer os cortes onde esses cortes são necessários”, disse.
Já ao ser questionado pela TV Guanandi sobre como fazer com que os investimentos em tecnologia sejam incorporados ao aprendizado dos estudantes, e não fiquem restritos à compra de equipamentos, Delcídio defendeu a integração das escolas com o setor produtivo. Como exemplo, lembrou uma experiência em Santa Catarina, onde participou da criação de um centro tecnológico reunindo diferentes setores. “Nós montamos um centro tecnológico, integrando todo mundo, toda a classe produtora, indústria, as escolas”, declarou.
O candidato também citou Florianópolis como referência na área de startups e desenvolvimento de software e atribuiu o avanço à articulação entre os diferentes setores. Para Delcídio, um projeto semelhante depende da participação direta do poder público. “Mas isso precisa da vontade do governo e sensibilidade para isso”, completou.
Saúde
Questionado pela TV Guanandi sobre como pretende reduzir as filas de espera na saúde durante os quatro anos de governo, Delcídio Amaral afirmou que a prioridade é reorganizar o sistema de atendimento, respeitar a ordem dos pacientes e ampliar o uso de tecnologia. Segundo ele, ferramentas como atendimento a distância e um cadastro único dos usuários poderiam diminuir a procura presencial por unidades de saúde e facilitar o acompanhamento dos pacientes.
“Isso é simples: é seguir o rito e usar a tecnologia. Por que não implementamos aqui uma tecnologia moderna para atender a saúde? Não estou dizendo que vamos chegar nisso agora. Mas por que não usar a tecnologia para aliviar postos de saúde? Atender à distância, receita, fazer um cadastro único das pessoas que utilizam o sistema de saúde em Mato Grosso do Sul. Somos um Estado com uma população pequena, tem tudo para dar certo”, afirmou.
Ao Correio do Estado, Delcídio foi questionado sobre como desafogar a Santa Casa de Campo Grande, que recebe pacientes de diferentes regiões de Mato Grosso do Sul e também da Bolívia e do Paraguai. Ele defendeu uma legislação nacional específica para o atendimento de saúde nas regiões de fronteira e afirmou que municípios como Corumbá e Ponta Porã enfrentam situação semelhante.
“Você vê a Santa Casa, como é que pode funcionar? 2,6% da tabela do SUS, enquanto outros hospitais têm 9%, têm 10%. A Santa Casa paga R$ 800 mil de energia elétrica. Por que não colocaram placa solar lá? Para ela gerar a própria energia em um Estado ensolarado como Mato Grosso do Sul? Eu estive lá agora, está faltando tomógrafo. Isso aí é do tempo do onça. Está faltando e ninguém faz nada. É um pequeno passo. Por que não fazer?”, declarou.
Segurança
Ao SBTMS, Delcídio Amaral foi questionado sobre a proposta prevista em seu programa de governo de adotar câmeras corporais nos uniformes dos policiais. O candidato defendeu que a medida faça parte de uma política mais ampla de investimento em tecnologia e inteligência, acompanhada da ampliação de viaturas e armamentos e do reforço do efetivo da Polícia Militar.
“Hoje o que vale é inteligência, segurança de inteligência. As cidades que são primeiras em segurança têm o conceito de cidade inteligente: câmera, internet, uma central de comando. E as câmeras corporais fazem parte desse processo. Eu sei que, para muitas pessoas, esse é um dispositivo incômodo, mas tem servido para esclarecer muitos delitos ocorridos no Brasil. Sou tecnológico mesmo e radical em tecnologia. Quero ver meu Estado assim, especialmente na segurança pública”, afirmou.
Questionado se havia conversado com representantes da categoria sobre o uso das câmeras corporais, Delcídio disse que ainda não tratou do assunto com o sindicato e reconheceu que existem resistências à medida. Ele afirmou, porém, que pretende dialogar com os policiais, sem necessariamente abandonar a proposta diante de posições contrárias.
“Eu converso, dialogo com todo mundo. Mas tenho posições pessoais também. Não necessariamente pelo fato de algum segmento ser contra eu sou obrigado a acompanhar. É um tema polêmico, inegavelmente. Acho que teremos uma grande caminhada pela frente, como também um projeto com essa profundidade do ponto de vista de tecnologia, porque ele muda muitos conceitos”, disse.
Ao portal A Crítica, Delcídio foi questionado sobre os limites da atuação do governo estadual no enfrentamento às organizações criminosas que atuam na fronteira de Mato Grosso do Sul, considerando que parte das políticas para a região é de responsabilidade federal. Ele defendeu a integração entre as forças estaduais e federais e citou o Sisfron como instrumento para reunir informações, tecnologia e ações de segurança.
“É impossível não promover essa integração. Não é a Polícia Militar ou a Polícia Civil do Estado que vai resolver. Essa integração que o Sisfron começou é absolutamente fundamental. Mas, se não houver unificação de informações, dados e mobilizações, não vai funcionar. Tanto é que, como isso está dissociado, olha o crime organizado. O crime organizado está tomando conta de tudo, inclusive das instituições”, afirmou.
Desenvolvimento econômico, tecnologia e inovação
Ao Campo Grande News, Delcídio Amaral afirmou que Mato Grosso do Sul ainda tem potencial econômico pouco explorado, principalmente nas áreas de logística, energia e tecnologia. Ele citou os rios Paraná e Paraguai como alternativas de transporte, criticou a situação da ferrovia e defendeu maior aproveitamento do gás natural boliviano. Segundo o candidato, o Estado poderia agregar valor à produção mineral e aproveitar melhor instrumentos como as ZPEs. Delcídio também apontou potencial para transformar Campo Grande em um polo tecnológico voltado, entre outras áreas, ao atendimento da indústria e do agronegócio.
“Estamos perdendo oportunidades extraordinárias para mudar o perfil de Mato Grosso do Sul. Temos um absoluto potencial para inovação, mas você tem que ter um projeto para criar essa sinergia com essa inteligência que vem vindo. Esses caras que estão sendo formados em tecnologia estão indo embora para São Paulo, Florianópolis e Curitiba porque não tem um projeto estruturado para isso. É muito bonito falar em tecnologia, mas você tem que ir fundo e colocar gente competente para fazer. Você imagina um polo tecnológico aqui atendendo indústria e produtor rural? É espetacular”, afirmou.
Ao JD1 Notícias, Delcídio foi questionado sobre o diferencial de sua proposta para incentivar startups, incubadoras, aceleradoras e empreendimentos de base tecnológica, medidas que também aparecem em programas de outros candidatos. Ele disse que sua experiência profissional na área e o conhecimento de modelos desenvolvidos em outros estados, principalmente Santa Catarina, seriam usados para estruturar a iniciativa em Mato Grosso do Sul.
“Eu tenho legitimidade para isso porque conheço tecnologia e sei como é o babado. Santa Catarina eu acompanhei muito de perto. Sei onde estão os pontos fracos, os pontos fortes, onde tem que buscar gente, eventualmente de fora, para qualificar essa turma e colocar esse polo tecnológico em pé. Se isso for feito, não tenho dúvida nenhuma de que vai ter um impacto no perfil econômico e social do Estado. Porque não adianta gerar riqueza para meia dúzia. Você tem que capilarizar esse desenvolvimento e focar em tecnologia”, declarou.
"Vim para essa campanha. É um partido pequeno, um partido com poucos recursos, mas temos muita coisa para debater e discutir. Estou vindo para ajudar. Não indo para o segundo turno, não tem problema. Quero ajudar quem chegar, porque acho que posso fazer muitas contribuições importantes para o meu Estado, Mato Grosso do Sul", finalizou.