Frente a Frente
Educação: Candidatos defendem concursos, PPPs e ensino integral em Sabatina
Entrevisas abordaram valorização dos professores e investimentos na rede estadual
Valorização dos professores, ensino em tempo integral, inclusão, tecnologia nas escolas e redução da evasão estão entre as propostas apresentadas pelos candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul para a educação durante as sabatinas 'Frente a Frente Eleições 2026', com Eduardo Riedel, Fábio Trad, Delcídio Amaral, João Henrique Catan e Lucien Rezende. Confira:
EDUARDO RIEDEL
A Crítica: Governador, a educação é um dos pilares da sua campanha. Ao acompanhar o seu plano de governo, notamos alguns pontos interessantes. Mas, antes disso, é importante falar sobre as PPPs. Nos últimos anos, principalmente nos últimos meses, acompanhamos como as PPPs estão em evidência em Mato Grosso do Sul. No governo de Tarcísio de Freitas, ao qual o senhor inclusive fez alguns elogios, isso já foi aplicado na rede estadual de ensino. Existe o risco de isso acontecer em MS?
Riedel: Eu não usaria a palavra “risco”. Se existe possibilidade? Existe. Por que não neste momento? Porque temos uma rede patrimonial de escolas pronta. A PPP da educação, dentro das experiências existentes no país, está vinculada ao ativo imobiliário.
A parte pedagógica permanece com o Estado. Os professores são do Estado e o conteúdo pedagógico é do Estado. O ativo imobiliário e a administração desse patrimônio ficam com o parceiro privado. Dessa forma, o Estado se concentra naquilo que interessa, que é o aprendizado dos alunos.
Você mantém uma estrutura administrativa escolar com um investimento direto menor do Estado, porque não precisa construir a escola.
Construímos uma escola em Ribas do Rio Pardo por R$ 20 milhões ou R$ 21 milhões. Você retira o dinheiro do caixa do governo e entrega uma escola nova. Poderia entregar a construção a um parceiro privado e pagar um aluguel. É uma discussão financeira.
A PPP funciona nesse sentido. Se tiver viabilidade financeira e a administração puder ser mais bem gerida, é um bom caminho. No nosso caso, não temos essa necessidade porque já temos o patrimônio constituído.
A nossa rede de escolas é muito boa. O que estamos fazendo? Reformando essas escolas. Aplicamos R$ 1,2 bilhão na reforma de 270 escolas.
Quando falo em reforma, não é apenas pintura e conserto do telhado. É reestruturação lógica, elétrica, climatização, laboratório de informática, laboratório de robótica e bibliotecas. É uma reestruturação completa do ambiente escolar. Não temos necessidade de PPP neste momento.
A Crítica: Quando falei em risco, é porque a categoria dos professores considera isso um grande risco para a educação de Mato Grosso do Sul. Se isso for aplicado, sabemos que a PPP poderá trazer infraestrutura para as escolas da rede estadual. Mas, em uma situação como essa, quem será responsabilizado pelo mau desempenho dos alunos: o Estado, o governo ou a empresa?
Riedel: O Estado é responsável pela parte pedagógica, pelo aprendizado e pela estrutura. “Ah, mas quem está conduzindo a estrutura é um terceiro privado.” Tudo bem, mas o Estado é responsável pela vistoria, fiscalização e manutenção dos serviços.
No hospital é a mesma lógica. Na PPP do Hospital Regional de Campo Grande, o parceiro privado construirá o prédio e ficará responsável pelos serviços de hotelaria, alimentação, segurança, limpeza e conservação. Quem é o responsável? O Estado.
O Estado é responsável pelos serviços porque eles continuam públicos e gratuitos para as pessoas. Os médicos que trabalham lá são vinculados ao Estado. Esse é o nosso modelo.
Existem modelos nos quais nem mesmo o médico é do Estado, mas o poder público continua sendo o responsável. Portanto, o Estado será sempre o responsável.
TV Guanandi: Candidato, aproveitando o que o senhor falou sobre os investimentos em educação, com tecnologia nas escolas, inteligência artificial, robótica e educação digital, caso seja reeleito, quais metas concretas o senhor assume até 2030 para melhorar a alfabetização, a proficiência dos alunos e o Ideb?
Riedel: Seguir o que estamos fazendo. A gente aumentou a proficiência. Não sei se você viu o resultado do Pisa, que é internacional.
Você tem o Ideb, as avaliações Saems e Saeb e também o Pisa. Achei interessante dissecar o resultado do Pisa. Mato Grosso do Sul está na nona colocação do país em proficiência.
São avaliadas três dimensões: língua, escrita e leitura; matemática; e ciências. Ficamos em nono lugar em proficiência, que, em última instância, é o que mais nos interessa: o aprendizado do aluno.
Afinal, o melhor salário do Brasil, a escola em tempo integral e a estrutura reposicionada têm um objetivo: o aluno. Nunca podemos nos esquecer disso. Falamos dos professores e da estrutura, mas o objetivo é o aluno.
Dou outro dado que considero muito importante: Mato Grosso do Sul está com 55% dos alunos do ensino médio matriculados em cursos técnicos profissionalizantes, o maior índice do Brasil. A média brasileira é de 16%.
FÁBIO TRAD
A Crítica: Acompanhando o seu plano de governo, o senhor destacou que pretende acabar com a diferença salarial entre professores concursados e professores temporários. O senhor também disse que pretende ampliar gradualmente o efetivo desses profissionais. Agora, se esses dois vínculos tiverem uma remuneração semelhante, como o senhor pretende preservar a carreira daqueles que prestaram um concurso há um tempo?
Fábio Trad: Educação é professor valorizado. Assim que nós tomarmos posse, nós vamos apresentar um plano plurianual de concursos públicos. Previsível, transparente, com segurança jurídica, com estabilidade.
Para quê? Para reduzir progressivamente o número de professores contratados e temporários. Eles são importantes, mas para suprir necessidades temporárias.
À medida que nós escalarmos para essa diminuição, nós vamos, evidentemente, dar um conteúdo didático e pedagógico mais uniforme, com menos flutuação. Isso interfere na qualidade de aprendizagem. Tanto que o nosso Ideb no ensino médio é o pior do Centro-Oeste.
O valor agregado do nosso Ideb é 4,4, mas o Ideb da rede estadual é 4,2. Nós estamos muito aquém da média nacional. Nós precisamos também cuidar da saúde mental dos professores.
Eles estão muito premidos por um excesso de burocracia que tolhe a sua capacidade de liderar, de pilotar, de protagonizar a sala de aula. Ficam muito preocupados com relatórios. Isso também interfere.
Nós temos que detectar o aluno que não está bem logo no início do ano letivo. Não adianta, lá em dezembro, novembro, nós vamos perdê-lo para que, então, professores, psicólogos, assistentes sociais o cerquem para não permitir a evasão, que é alta em Mato Grosso do Sul. Seria muito mais alta se não fosse o programa Pé-de-Meia.
Então, o que nós precisamos fazer na valorização do professor é torná-lo forte, mentalmente são, estável, para que ele possa dar aulas, aulas boas, e aprimorar o ensino do Estado de Mato Grosso do Sul, que, infelizmente, não está bem e os números não mentem.
A Crítica: Essa questão da valorização dos professores, mas também da valorização dos jovens. O senhor propõe criar um programa de permanência integrado ao Pé-de-Meia, programa do presidente Lula, inclusive. Quanto o Estado poderia gastar nesse programa e como o senhor faria para poder alavancar esse projeto, esse programa, para os estudantes das áreas rurais, indígenas e quilombolas? Qual é a principal meta do senhor diante desse público?
Fábio Trad: O Estado de Mato Grosso do Sul previu uma receita de R$ 2,9 bilhões para a educação. Veja você: somando o investimento que o Estado quer fazer este ano em educação, saúde e segurança, mais ou menos R$ 9 bilhões. Só este ano o Estado isentou em R$ 12 bilhões poucas empresas que não pagam impostos, que poderiam contribuir.
E nós não queremos que eles paguem impostos totalmente. Prestem contrapartida, inclusive na educação. Respondendo à tua pergunta: detectar fragilidade na aprendizagem logo no início.
O aluno precisa ser, logo no início, alcançado para que ele não saia do ensino médio. Nós precisamos fortalecer a assistência social e a psicologia nas escolas. Isso é fundamental. Nós precisamos entender o que se passa com esse aluno e estreitar relações com o governo federal e, quem sabe, até suplementar o Pé-de-Meia aqui no plano estadual para ele não sair.
TV Guanandi: Candidato, o senhor falou sobre a saúde mental dos professores. O que seria feito, na prática, por parte do Estado para preservar essa saúde mental? E também o que seria feito para o aluno, nessa detecção de identificar por que ele não está bem? O que seria feito e quanto isso teria de custo para o governo do Estado?
Fábio Trad: Disponibilizando psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais também, porque muitas vezes o problema mental decorre de problemas econômicos, sociais, dentro das casas dos docentes. Nós temos informações nesse sentido.
E esses quadros já estão no governo do Estado, basta mobilizá-los politicamente, liderar com um espírito republicano uma frente em defesa da sanidade mental não só dos professores, dos trabalhadores da educação. Então, você tem merendeiras também.
Isso porque estão muito pressionados para apresentarem índices e, muitas vezes, esses índices não condizem com a realidade. Eles mostram mais do que, na verdade, é. Porque o Ideb, se você abrir o Ideb, além de ser fluxo de aprovação, é o Saeb, sistema de avaliação de matemática e português, e os dois não estão bons em Mato Grosso do Sul.
DELCÍDIO AMARAL
A Crítica: O senhor propõe retomar o percentual de recursos previsto na Lei Estadual nº 2.583, de 2002, para a UEMS. Qual percentual seria destinado à universidade, em quanto tempo e qual seria o impacto desse investimento nas despesas estaduais?
Delcídio Amaral: O objetivo é tornar os gastos com a UEMS despesas obrigatórias, não deixar tirarem recursos da universidade. Um Estado só se desenvolve quando integra governo, universidades, escolas técnicas, produtores e industriais em um projeto de Estado, e não de grupo.
A UEMS seria naturalmente o grande vetor para garantir um projeto especialmente voltado à tecnologia. Estamos vendo grandes empresas se instalando aqui, mas a mão de obra é toda de fora. Por quê? Porque faltou um projeto de Estado para qualificar as pessoas e um projeto de integração, especialmente olhando tecnologia.
Vou bater nessa tecla sistematicamente. Também é preciso cobrar contrapartidas dos grandes investimentos para saúde, educação e segurança pública.
A Crítica: Se houver queda na arrecadação estadual, o valor destinado à UEMS seria reduzido ou preservado?
Delcídio Amaral: Seria preservado. Hoje temos uma dívida de quase R$ 10 bilhões. Tivemos aumento de arrecadação, só que o custeio subiu. Estamos com 60% de folha e 20% de despesa administrativa. Já bateu 80%.
Sabe quanto temos de investimento? 6,9%. Não temos condição de andar dessa maneira. Precisamos racionalizar e fazer os cortes onde forem necessários ou onde possam proporcionar aumento de arrecadação, dando condições para quem está no comércio, emprega e pode faturar e arrecadar mais.
Pergunta: O senhor falou de tecnologia e recursos científicos nas escolas e na UEMS. Como garantir que esses investimentos não fiquem restritos à estrutura e à compra de equipamentos e sejam incorporados à aprendizagem e à capacitação dos estudantes?
Delcídio Amaral: É fazendo integração com as escolas. Vou dar um exemplo. Eu vivia em Santa Catarina e fomos trabalhando em cima dessas teses. Montamos um centro tecnológico, integrando toda a classe produtora, indústria e escolas.
Para vocês terem uma ideia, Florianópolis hoje só é comparável a São Paulo do ponto de vista de startups e desenvolvimento de software. Mas isso precisa da vontade do governo e de sensibilidade para isso.
JOÃO HENRIQUE CATAN
A Crítica: As matrículas de estudantes com autismo passaram de 546 para 3.159 em seis anos, entre 2020 e 2026. Como seu governo pretende dar atenção a essas crianças e adolescentes que precisam de profissionais adequados dentro da sala de aula sem estourar o orçamento público?
Catan: A minha família é fundadora da Escola Juliano Varela, que é a escola que cuida das crianças com síndrome de Down. Então eu falo com a autoridade de quem participou, ajudou a cuidar, ajudou a acolher essas crianças.
Eu sou advogado e tenho no meu nome distribuídas diversas ações contra operadoras de saúde que negam para crianças atípicas, principalmente, um apoio muito importante de serviço fonoaudiológico e atividades multidisciplinares.
A gente reconhece a importância, sabe a evolução que isso tem, sabe que isso realmente integra. Nós vamos ajudar ouvindo.
Eu tenho uma lei chamada Cadastro da Pessoa com Deficiência, que já está implementada e que o governador, o candidato Riedel, não implementa para poder entender as demandas dessas pessoas e devolver isso em serviço, como se fosse uma política pública contínua em Mato Grosso do Sul.
O que nós vamos fazer é ouvir essas mães que são atípicas, porque eu sou um candidato atípico, sou um candidato não típico, não tenho compromisso com atraso. Não tenho compromisso com equívoco.
A Crítica: O senhor falou que vai melhorar a aprendizagem. Com o aumento do número de escolas em tempo integral no Estado, como vai medir se os alunos estão aprendendo de fato na sua gestão e quais resultados vai cobrar dessas escolas?
Catan: O índice IEE, que é o Índice Inclusivo Educacional, coloca Mato Grosso do Sul com 16% das crianças e adolescentes saindo das escolas aprendendo matemática básica. Isso é uma vergonha. Isso demonstra por que nós temos um dos piores índices de evasão escolar.
As crianças não estão ficando na escola. A escola não é mais um lugar de acolhimento. Na condição de deputado estadual, a gente recebe emendas para poder colocar ar-condicionado. Você coloca o ar-condicionado, cai a energia, tem que refazer o quadro de luz.
Não tem computador, não tem aula diferente. Os professores não são avaliados, não tem autoavaliação. Em qualquer escola particular, hoje, o próprio aluno avalia o seu professor.
O professor hoje recebe 70% dele, menos do que os outros 30% que são convocados. No nosso governo essa política vai acabar.
Nós vamos promover a estruturação, programas de intercâmbio para jovens, vamos respeitar escolas cívico-militares, impor escolas charter e fazer um grande programa inclusivo e transformador.
TV Guanandi: O senhor defende uma gestão baseada em metas. Qual resultado, caso seja eleito, se compromete a entregar ao final dos quatro anos? Qual será o foco principal: redução da evasão escolar, aumento da jornada dos estudantes ou alfabetização? Qual será o ponto central e qual resultado pretende entregar?
Catan: Nós queremos tornar a escola um lugar onde a criança seja acolhida. Sejamos sinceros aqui: a classe média em Mato Grosso do Sul, todos nós aqui, se tiver oportunidade, não quer matricular seu filho na escola pública. Nós queremos fugir da escola pública, queremos fugir da saúde pública. Todo lugar que o Estado participa há falhas.
Então nós precisamos entender, precisamos chamar os servidores, precisamos promover uma equiparação para que ele torne a aula interessante.
Hoje em dia, os melhores professores já estão na internet, nem mais na escola eles estão. Então nós precisamos dar condições para modernizar, ajudar a capacitar mais os professores, reconhecendo, dando equiparação salarial para eles, criando programas que levem os jovens para fora do país para estudar.
Que programa inovador a gente tem? Sai sem aprender matemática, física. Como vamos tornar isso gostoso e diferente no mundo atual da tecnologia?
Nós vamos levar a tecnologia para dentro da escola. Eu vou colocar computador, vou colocar celular de última geração na mão dos estudantes.
LUCIEN REZENDE
A Crítica: A maioria dos professores da rede estadual é formada por temporários. O senhor afirma que pretende valorizar professores e realizar mais concursos. O que faria de diferente? Essa realidade é resultado de falta de prioridade política ou de acomodação do governo?
Lucien Rezende: Na questão da educação, foi prometido, Mato Grosso do Sul sabe, todos os profissionais da educação sabem que foi prometido que ia ter equiparação salarial. Isso não aconteceu.
Hoje ganha em torno de R$ 11 mil a R$ 12 mil um professor, o temporário ganha a metade. Então, isso não é justo. E vou além: não só na questão do professor, como os administrativos também ganham mal. E aí não estou nem colocando a questão do aluno. Basta ver o Ideb, como é que está o nosso Estado. Está ruim.
No nosso governo nós queremos fazer a equiparação salarial e queremos fazer concurso público para realmente todos terem o direito de estar dentro da educação com o conforto que o Estado pode oferecer. Não é justo tratar o igual diferente.
A Crítica: Um governo de esquerda pode ampliar ou manter essa rede sem prejudicar os alunos ou os professores concursados?
Lucien Rezende: Eu vejo que, se você equiparar o salário, você não está agredindo o efetivo. Parabéns para o efetivo que fez o concurso e passou. Eu acredito que, se equiparar o salário, você está sendo justo com quem trabalha.
O que eu vejo é má vontade política de poder atender, de melhorar o salário de quem ensina, para poder ter uma educação de qualidade, para a gente melhorar no Ideb. Tudo passa pela educação. Então, eu acredito que tem que valorizar, sim, todos os profissionais da educação.
TV Guanandi: O senhor defende a ampliação da escola em período integral. Como garantir que o tempo adicional tenha atividades permanentes que contribuam efetivamente para a formação dos alunos, com investimento, tecnologia e mais profissionais?
Lucien Rezende: Há uns 20 anos a gente começou a fazer esse debate e apresentar essa proposta de educação em período integral. Sempre a direita, a extrema direita, falava que era inviável pela questão do custo. Hoje a gente já está vendo candidato defendendo a educação em período integral.