Em um cenário quase pós-apocalíptico, com até 300 mil unidades consumidoras sem energia elétrica, algumas delas por mais de 20 horas e sem água, Campo Grande viveu, nos últimos dias, o desafio de se reconstruir após ser castigada por chuva intensa e ventos que chegaram a 87 km/h, conforme dados do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima).

Sob a ótica do planejamento urbano, da engenharia civil e da gestão de riscos, os danos simultâneos gerados na cidade, como queda da energia elétrica, sinalização semafórica prejudicada, além de danos em drenagem, arborização, mobilidade e edificações públicas, pode ser tratado, tecnicamente como "possível vulnerabilidade sistêmica,", conforme especialista do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul (Crea-MS), ouvido pela reportagem.

Nas primeiras 24 horas após o temporal, a Prefeitura de Campo Grande contabilizou mais de 100 chamados relacionados a quedas de árvores. Ao todo, 26 escolas foram danificadas de alguma forma, entre elas a Escola Municipal Antônio José Paniago, que teve o teto do laboratório completamente arrancado. A UPA Universitário também teve parte da estrutura da recepção danificada.

“Por segurança, o acesso pela porta principal foi temporariamente suspenso por cerca de três horas, enquanto a equipe responsável e a Defesa Civil realizavam as avaliações necessárias. Nesse período, os pacientes tiveram acesso à unidade por uma entrada alternativa e permaneceram em área interna, aguardando atendimento. Após a liberação da Defesa Civil e a realização dos ajustes necessários pela equipe de manutenção, o acesso principal foi reaberto e o atendimento normalizado por volta das 21h. Não houve registro de pessoas, pacientes ou servidores feridos”, informou a Prefeitura em nota enviada ao JD1 Notícias.

Apesar da dimensão dos estragos, o engenheiro civil e de Segurança do Trabalho, Luiz Henrique Moreira de Carvalho, coordenador da Câmara Especializada de Engenharia Civil do Crea-MS, pondera que somente os danos registrados não permitem classificar Campo Grande como preparada ou despreparada para enfrentar eventos climáticos extremos.

“A preparação de uma cidade para eventos extremos não é uma condição binária. Ela deve ser medida por indicadores objetivos de prevenção, resistência, capacidade de resposta e velocidade de recuperação. Do ponto de vista da engenharia, um evento meteorológico severo pode produzir danos mesmo em uma cidade adequadamente planejada e mantida [...] Entretanto, quando diversos sistemas urbanos apresentam falhas simultâneas — energia elétrica, sinalização semafórica, drenagem, arborização, mobilidade e edificações públicas — isso deve ser tratado tecnicamente como um sinal de possível vulnerabilidade sistêmica, que precisa ser investigada.”

Luiz Henrique Moreira de Carvalho, coordenador da Câmara Especializada de Engenharia Civil do Crea-MS

Segundo Luiz Henrique, Campo Grande dispõe de instrumentos de planejamento urbano, estrutura municipal de Defesa Civil, planejamento de drenagem e mecanismos de resposta a eventos adversos. No entanto, as interrupções simultâneas em diferentes serviços reforçam a necessidade de avaliar permanentemente a capacidade de resistência e recuperação da infraestrutura urbana.

“Campo Grande possui instrumentos institucionais e de planejamento para enfrentar eventos climáticos severos, mas os episódios de falhas simultâneas evidenciam vulnerabilidades que devem ser identificadas, mensuradas e tratadas de maneira contínua.”

O crescimento da cidade também deve entrar nessa avaliação. A expansão urbana aumenta as áreas impermeabilizadas e, consequentemente, o volume de água que escoa pela superfície, exigindo atualização constante da infraestrutura.

Para o engenheiro, a ocorrência de danos durante uma tempestade, isoladamente, não comprova falta de planejamento. A repetição dos mesmos problemas, principalmente nos mesmos pontos, porém, pode servir de alerta.

Bocas de lobo obstruídas, galerias sem manutenção, redes que se tornaram insuficientes diante do crescimento urbano, árvores sem manejo adequado, estruturas deterioradas e equipamentos essenciais sem sistemas de redundância são alguns dos fatores que podem indicar danos que poderiam ser reduzidos por meio de ações preventivas.

“A pergunta técnica não deve ser apenas se ‘choveu ou ventou muito’, mas se o evento ultrapassou a capacidade tecnicamente prevista ou se encontrou uma infraestrutura que já apresentava vulnerabilidades conhecidas ou previsíveis”, resume.

Arborização

Entre os principais impactos do temporal estiveram as quedas de árvores e galhos. Para o engenheiro, reduzir as ocorrências sobre fios e postes não significa simplesmente retirar árvores das ruas, mas planejar a arborização considerando as características de cada região.

“O princípio adequado é o da árvore correta no local correto, acompanhado de manejo técnico durante todo o ciclo de vida da arborização.”

O especialosta explica que os problemas aparecem quando não há compatibilidade entre espécie, porte, local de plantio, rede elétrica, largura das calçadas, edificações e demais estruturas urbanas. Uma das medidas indicadas seria conhecer detalhadamente a arborização existente na cidade.

“O planejamento deve iniciar com um inventário georreferenciado das árvores, contemplando espécie, porte, idade aproximada, condições fitossanitárias, inclinação, cavidades, raízes, interferências com a rede e classificação de risco.”

Serviços essenciais

O apagão provocado pelo temporal também trouxe à tona a dependência de serviços essenciais do fornecimento convencional de energia. Para Luiz Henrique, uma cidade do porte de Campo Grande deve incluir a continuidade desses serviços no planejamento urbano e na gestão de riscos.

“Isso não significa instalar um grupo gerador em cada equipamento urbano, mas classificar previamente os ativos críticos e adotar níveis de redundância compatíveis com o risco e com a função de cada serviço. Nos principais corredores viários e cruzamentos estratégicos podem ser considerados sistemas de alimentação ininterrupta, baterias, nobreaks, monitoramento remoto e protocolos de atuação rápida dos agentes de trânsito.”

Defesa Civil

O chefe da Defesa Civil Municipal, Eneas Netto, explicou que as informações registradas por diferentes órgãos foram cruzadas para acelerar os atendimentos e, ao mesmo tempo, documentar os prejuízos provocados pelo temporal.

Eneas também explicou por que o sistema de alerta da Defesa Civil não disparou diretamente nos celulares durante a tempestade. Segundo ele, o evento estava classificado no nível laranja, considerado intermediário.

“O alerta que toca diretamente nos aparelhos é utilizado quando chegamos ao nível vermelho. Dia 10 estávamos no nível intermediário, que é o laranja”, afirmou.

O município também atua em conjunto com a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil. Conforme Eneas, o Governo do Estado colocou equipes à disposição para auxiliar Campo Grande nos trabalhos após o temporal.