Um incêndio de grandes proporções em um terreno baldio na Rua Ciro Macuco, no Jardim Seminário, na região norte de Campo Grande, voltou a expor uma situação que, segundo moradores, já se arrasta há pelo menos dois anos. As chamas começaram por volta das 22h da terça-feira (18), e assustaram moradores do Condomínio Parque Castel di Verona, localizado em frente à área.

De acordo com a síndica do condomínio, Weila de Castro Escobar, a vegetação alta e o acúmulo de lixo e entulho contribuíram para a rápida propagação do fogo. A fumaça tomou conta dos apartamentos e aumentou o temor de que as chamas alcançassem a fiação elétrica.

“Esse incêndio foi uma tragédia totalmente anunciada”, afirmou Weila. Segundo ela, desde 2024 o condomínio encaminha pedidos formais ao poder público, por meio de vereadores, para chamar atenção para as condições dos terrenos da região.

A síndica afirma ainda que a situação chegou à Câmara Municipal de Campo Grande e que indicações parlamentares foram apresentadas durante as sessões. Apesar disso, segundo ela, nenhuma equipe teria sido enviada para realizar a limpeza da área.

Terreno virou ponto de descarte irregular

Além do risco de incêndios, a área em frente ao condomínio é apontada pelos moradores como um ponto de descarte irregular de lixo, restos de obras e outros materiais. A vegetação alta nos lotes próximos também aumenta a preocupação com animais peçonhentos e a presença de pragas.

Weila relata que moradores convivem com mosquitos, roedores, baratas, escorpiões e cobras, alguns deles chegando ao interior do condomínio. A área também é considerada um ponto de insegurança, principalmente por causa do mato alto, que pode facilitar a ação de criminosos. Segundo a síndica, um homem em situação de rua também passou a viver no terreno.

Apesar dos problemas enfrentados pelos moradores, a moradora destaca que a presença do homem em situação de rua no terreno também representa uma questão social que precisa ser enfrentada pelo poder público.

“Eu sinto uma empatia profunda e me preocupo ainda mais ao saber que existe um ser humano residindo ali”, disse. Para ela, a situação ultrapassa uma questão de limpeza urbana e envolve saúde, segurança e dignidade.

Weila, que é mestre em Direito pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), afirma que o caso precisa ser tratado também pela rede de assistência social. Na avaliação dela, o homem deve receber uma abordagem humanizada e ter acesso a acolhimento e condições dignas.

“Não estamos tratando de mero incômodo urbano ou de estética de bairro. Trata-se de uma afronta direta à dignidade da pessoa humana, ao direito à saúde, à segurança e ao meio ambiente equilibrado”, declarou.

Moradores cobram providências

Após o incêndio, a síndica afirma que a comunidade não quer mais apenas novos encaminhamentos ou promessas. A cobrança agora é por ações concretas na região. Entre as medidas solicitadas estão a abordagem social e o acolhimento do homem que vive no terreno, a notificação dos responsáveis pela área para retirada dos resíduos e a limpeza e roçada dos terrenos da Rua Ciro Macuco.

Os moradores também pedem fiscalização e aplicação de multas aos proprietários que mantiverem terrenos baldios abandonados.

Para Weila, o incêndio reforçou a urgência de uma intervenção. “O que aconteceu ontem foi a gota d'água. Cumprimos todas as etapas formais: acionamos vereadores, tivemos indicações lidas nas sessões da Câmara e protocolamos pedidos oficiais. A burocracia andou, mas a limpeza nunca chegou”, afirmou.

A síndica defende que a solução precisa envolver tanto a segurança dos moradores quanto o atendimento à pessoa que vive em situação de vulnerabilidade no local.

“Socorrer e estender a mão a esse morador é um dever estatal e um compromisso de toda a nossa sociedade”, finalizou.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de comunicação da Prefeitura de Campo Grande, para apurar sobre o recebimento dessa demanda, possível limpeza da área e localização e responsabilização do dono da área,mas, até a publicação da reportagem, não obtivemos retorno.