O mundo dos vinhos tem histórias realmente incríveis. A uva Carménère, a mais plantada e emblemática do Chile, foi trazida da França por volta de 1850, os produtores de vinho chilenos resolveram importar mudas europeias, em especial francesas, para produzir em seu país vinho de maior qualidade. Assim, foram trazidas mudas de Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah etc, porém a Carmenère acabou vindo meio que por engano. Ela foi plantada desde então junto com a Merlot e acabou, digamos, esquecida. Corria o ano de 1863, quando a filoxera, uma praga agrícola de origem americana que destrói completamente as parreiras, apareceu na Europa dizimando centenas de vinhedos.

A velocidade de expansão foi surpreendente e, em pouco tempo, cerca de cinco anos, as principais regiões produtoras estavam afetadas. Não existe como deter esta praga, a não ser com uma técnica de enxerto de um broto de uva fina sobre uma raiz de uva de mesa, mais rústica, que a filoxera não ataca. Aconteceu de a uva Carménère, e somente ela, não produzir bem com o enxerto então, como consequência, ela não foi mais plantada e com o tempo foi dada como extinta.

Neste meio-tempo, os chilenos já estavam produzindo vinhos das uvas finas e puderam assim abastecer o mercado internacional.
Uma das peculiaridades do Chile é o fato de não ter sido vítima da praga devido a sua condição geoclimática, protegido pelo Oceano Pacífico, Cordilheira dos Andes, Deserto do Atacama e pelas geleiras, ao sul. As parreiras chilenas podem ser plantadas a “pé-franco”, isto é, plantadas diretamente no solo, sem necessidade de enxertá-las sobre raízes de outras uvas, como se faz em todo o mundo. A filoxera existe até os nossos dias, tanto que o sistema de enxertia é usado até hoje. Um dos mais recentes casos de aparecimento da praga foi em 1980 na região de Tokai, na Turquia, que produz os melhores vinhos de sobremesa do mundo.

Passaram-se assim mais de cem anos. Em 24 de novembro de 1994, um ampelógrafo (que é o profissional que estuda os tipos de uvas e vinhas) francês chamado Jean-Michel Boursiquot estava no Chile para o Congresso Sul-Americano de Viticultura e Enologia. Em visita a um vinhedo local, identificou que, entre as vinhas de Merlot, encontravam-se uvas misturadas, algumas que amadureciam mais tarde que as outras, e teve um palpite de que talvez fossem mudas de Carménère. O curioso é que ele nunca tinha visto, pessoalmente, vinhas desta uva, já que estavam teoricamente extintas há mais de um século. Mas ele conhecia as folhas, conservadas, em algumas coleções e museus, e resolveu assim fazer alguns testes. Os resultados identificaram que se tratava na realidade da antiga variedade Carménère, cultivada inadvertidamente, misturada com pés de Merlot.

Hoje ela se tornou a uva nacional do Chile e o maior símbolo da sua viticultura, sendo que é plantada comercialmente quase que apenas naquele país, desnecessário dizer que Jean-Michel é considerado quase um herói nacional.

Vinhos desta uva podem ter a cor vermelha rubi, com bordas sangue até violeta, geralmente intenso, dependendo do modo de maturação. No olfato pode apresentar aromas de frutas vermelhas, herbáceos, especiarias e se tiver amadurecimento na madeira pode despertar aromas como chocolate, charuto, tostado. Na boca contém taninos mais “leves” que a Cabernet Sauvignon, por exemplo, não chegando à delicadeza da Pinot Noir. Apresenta um vinho de corpo leve a médio e geralmente com pouca ou média persistência.

Algumas dicas de combinação com esta casta são carnes vermelhas sem muita gordura, cordeiro assado (famosa no Chile), lasanha à bolonhesa, queijos maduros e peixes gordos (dourado).
 
“O vinho molha e tempera os espíritos e acalma as preocupações da mente... ele reaviva nossas alegrias e é o óleo para a chama da vida que se apaga. Se você bebe moderadamente em pequenos goles de cada vez, o vinho gotejará em seus pulmões como o mais doce orvalho da manhã... Assim, então, o vinho não viola a razão, mas sim nos convida gentilmente a uma agradável alegria”
 
Sócrates, filósofo ateniense do século 2. Um dos fundadores da filosofia ocidental.