CG127ANOS
Higa, guardião da memória de Campo Grande, registra há cinco décadas a história da Cidade Morena
Acervo atravessa gerações; aos 75 anos, fotógrafo garante que ainda está em busca da “grande foto”
Falar de Roberto Higa é revisitar uma história que começa antes mesmo da criação de Mato Grosso do Sul, em 1977. Há mais de cinco décadas, o repórter fotográfico acompanha, pelas lentes de suas câmeras, as transformações políticas, urbanas, sociais e culturais que ajudaram a construir a identidade do Estado e, especialmente, de Campo Grande.
Higa é um patrimônio de Mato Grosso do Sul. E seu acervo ajuda a explicar o porquê. Nele estão as primeiras fotografias da criação do Estado, registros da celebração popular e da primeira missa daquele período histórico. Sua câmera acompanhou ainda a construção do Estádio Universitário Pedro Pedrossian, o Morenão, a abertura e urbanização de ruas, mudanças na arquitetura, o crescimento dos bairros, novas edificações e diferentes etapas da transformação da Capital.
São imagens de um tempo em que fotografar exigia muito mais do que fazer o clique e conferir imediatamente o resultado em uma tela. O filme precisava ser revelado em laboratório, entre a sala escura, produtos químicos e a espera. Só depois surgia a fotografia que o profissional havia enxergado no instante em que apertou o disparador.
Higa atravessou toda essa transformação. Das câmeras robustas e pesadas, filmes e equipamentos que exigiam uma verdadeira bagagem, chegou às máquinas compactas, lentes mais versáteis e, finalmente, à fotografia digital. Mas guarda até hoje aquela que abriu o caminho para tudo o que viria depois.
“Eu ainda tenho a primeira câmera”, conta. Foi sua primeira companheira de uma trajetória que faria dele não apenas testemunha, mas também guardião da memória de Campo Grande.
O compromisso de guardar a história
Ao longo da carreira, Higa apontou suas lentes para a política, a vida pública, a cultura, o cotidiano e os acontecimentos que marcaram Mato Grosso do Sul. Fotografou autoridades e anônimos, grandes eventos e cenas aparentemente corriqueiras que, décadas depois, adquiriram valor histórico.
Mais do que produzir milhares de fotografias, porém, Higa teve a preocupação de preservar aquilo que registrava. Guardou, organizou e catalogou seu acervo. É justamente essa decisão, tomada ao longo de décadas, que permite que tantas imagens permaneçam disponíveis para contar a história da cidade. “Muita gente fez foto, mas quem guardou fui eu. Preservou, catalogou. Eu queria dar continuidade”, afirma.
A cidade diante de suas lentes
No aniversário de 127 anos da Capital, a trajetória de Roberto Higa ganha um significado especial. Ele conhece Campo Grande não apenas porque percorreu suas ruas durante décadas, mas porque documentou sua transformação.
Higa fotografou ruas sendo abertas e urbanizadas, córregos canalizados, antigos pontos de alagamento e as mudanças que alteraram a paisagem urbana. Registrou a Rua Maracaju, o Relógio da 14 de Julho, o comércio do centro, a arquitetura, as edificações, a implantação das sinalizações horizontais e verticais nos cruzamentos e o crescimento dos bairros.
Onde Campo Grande crescia, Higa estava com sua câmera.
As imagens permitem hoje colocar frente a frente duas cidades: aquela que existiu e a Campo Grande dos 127 anos. Ruas foram transformadas, prédios desapareceram ou surgiram, bairros cresceram, costumes mudaram e personagens se foram. As fotografias permaneceram.
E permaneceram porque alguém entendeu que não bastava fazer o clique. Era preciso guardar.
Quando perguntado se, ao fotografar, pensa no presente ou no futuro, Higa não escolhe nenhum dos dois. Para ele, existe uma palavra anterior: compromisso.
“Eu penso no meu compromisso. Eu tenho compromisso, que é continuar até o dia que eu morrer, continuar escrevendo a história. Eu vou continuar fotografando.”
Talvez seja essa uma das melhores definições para sua relação com Campo Grande: escrever a história sem caneta, usando luz, enquadramento e memória.
A busca pela grande foto
Neste mês de aniversário da cidade, a equipe do JD1 Notícias foi recebida por Higa e por Sandra, sua companheira há 50 anos. Ela acompanhou boa parte dessa trajetória construída entre câmeras, filmes, coberturas, viagens e acontecimentos históricos. Hoje, permanece ao lado do marido também durante o tratamento de um câncer na orofaringe.
A doença trouxe limitações, mas não o afastou da fotografia. A voz está mais baixa e, durante a conversa, Higa recorre à saliva artificial, já que seu organismo deixou de produzi-la em decorrência do tratamento. O olhar, porém, continua procurando imagens.
A tecnologia também tornou sua bagagem mais leve. As câmeras mudaram, os equipamentos diminuíram, os filmes deram lugar aos arquivos digitais. Algumas companhias, no entanto, permaneceram: Sandra, o olhar atento e a inseparável escada que tantas vezes o ajudou a encontrar um ângulo diferente para suas fotografias.
Para Higa, enxergar a história muitas vezes significou subir alguns degraus.
Depois de mais de cinco décadas fotografando e de milhares de imagens preservadas, seria natural imaginar que ele pudesse escolher entre elas a fotografia definitiva de sua carreira.
Higa pensa diferente.
“A gente vive em função da grande foto. Eu tô procurando a grande foto até hoje. Tudo pra mim é uma fotografia. Eu vivo em busca daquela foto que vai encerrar, fechar.”
A declaração ganha outra dimensão quando vem de alguém que registrou a criação de um Estado e acompanhou, imagem por imagem, a transformação de uma Capital.
Talvez esteja justamente aí a dimensão da trajetória de Roberto Higa. Durante décadas, ele fotografou pessoas que fizeram história, acontecimentos que marcaram Mato Grosso do Sul e transformações que construíram a Campo Grande que chega aos 127 anos. Com o passar do tempo, porém, aconteceu algo que nenhuma câmera conseguiria registrar em um único enquadramento: o fotógrafo também se tornou parte dessa história.
Higa ainda procura a grande foto.
Enquanto ela não chega, Campo Grande permanece revelada em milhares de outras imagens preservadas por seu olhar — retratos de ruas, bairros, pessoas, festas, obras e acontecimentos que poderiam ter desaparecido com o tempo, mas permaneceram porque, em algum momento da história, Roberto Higa estava lá.
E fez o clique.