A percepção de ter as finanças sob controle nem sempre corresponde à realidade. É o que mostra uma pesquisa da Serasa Experian, que identificou quatro perfis financeiros entre trabalhadores brasileiros: os que “vivem o agora”, os “apertados”, os que estão “organizando o futuro” e os “consolidados”.

O levantamento aponta uma diferença significativa entre a avaliação que os próprios trabalhadores fazem da organização financeira e os indicadores de inadimplência. Entre aqueles que afirmam “viver o agora”, por exemplo, a nota média dada à própria organização financeira foi de 7,23. Apesar disso, 66% foram negativados nos 12 meses anteriores à pesquisa.

“Isso demonstra muito bem o paradoxo entre curto e longo prazo que esse tipo de perfil representa”, afirmou Délber Lage, diretor de Soluções para RH da Serasa Experian.

Entre os demais grupos, as notas atribuídas à própria organização financeira foram de 5,53 entre os “apertados”, 7,45 entre os que estão “organizando o futuro” e 8,45 entre os “consolidados”. Já os índices de negativação foram de 55%, 24% e 6%, respectivamente.

Os números mostram que a percepção sobre a própria situação financeira não necessariamente acompanha a capacidade de manter as contas em dia. O grupo que “vive o agora”, por exemplo, apresenta índice de negativação superior ao dos trabalhadores que se consideram “apertados”.

Mulheres são maioria entre os financeiramente instáveis

Entre os trabalhadores classificados como “apertados”, que enfrentam maior instabilidade financeira, 70% são mulheres. Segundo Lage, esse grupo possui pouca margem para lidar com imprevistos, já que não conta com uma reserva financeira suficiente para enfrentar situações de emergência.

“É um constante jogo de equilíbrio. Essas pessoas estão muito expostas a qualquer situação de emergência, porque não têm composição de poupança para atender”, explicou.

Na outra ponta estão os “consolidados”, grupo caracterizado por uma trajetória profissional mais estável e maior capacidade de poupança e planejamento. Nessa situação, os trabalhadores conseguem organizar as finanças pensando também no longo prazo.

“Nem todos estão tendo essa opção de escolha, de guardar ou não”, ponderou Lage.

Renda semelhante, comportamentos diferentes

A pesquisa também mostra que uma renda semelhante não significa necessariamente o mesmo comportamento financeiro.

Entre os trabalhadores “apertados”, 43% recebem entre dois e quatro salários mínimos. No grupo que está “organizando o futuro”, esse percentual chega a 47%, uma diferença relativamente pequena.

Apesar da proximidade na faixa de renda, a capacidade de chegar ao fim do mês com dinheiro disponível é bastante diferente. Apenas 12% dos “apertados” afirmam conseguir terminar o mês com recursos suficientes. Entre os que estão “organizando o futuro”, esse percentual sobe para 47%.

A diferença também aparece nos índices de inadimplência: 62% dos trabalhadores “apertados” foram negativados, contra 18% daqueles que estão organizando as finanças para o futuro.

IA começa a fazer parte da organização financeira

A inteligência artificial também já passou a integrar a rotina financeira dos trabalhadores brasileiros. De acordo com o levantamento, 60% dos entrevistados já utilizaram alguma ferramenta de IA para lidar com questões relacionadas às finanças.

Entre os que utilizaram a tecnologia, 74% afirmam confiar nas sugestões recebidas. No grupo que “vive o agora”, o uso é ainda mais frequente: 73% já recorreram à IA.

A finalidade, porém, muda conforme a situação financeira. Entre os trabalhadores “apertados” e os que “vivem o agora”, a tecnologia é utilizada principalmente para organizar as finanças ou buscar alternativas para negociar dívidas e administrar o dinheiro.

Já entre os “consolidados” e aqueles que estão “organizando o futuro”, o uso está mais relacionado à busca de conhecimento sobre investimentos e a dúvidas sobre formação de patrimônio.

Crédito pode ser emergência ou planejamento

O levantamento também analisou a relação dos trabalhadores com o crédito. O recurso pode ter diferentes impactos dependendo da finalidade, dos juros e da capacidade de pagamento de quem contrata.

Para quem está “apertado”, o crédito costuma aparecer como uma alternativa para resolver situações emergenciais e fechar as contas do mês. Já os trabalhadores “consolidados” tendem a ter maior possibilidade de planejamento e comparação entre as opções disponíveis antes de assumir uma dívida.

“Uma coisa sou eu pegar um crédito a uma taxa menor que 1% ao mês para financiar um imóvel e outra coisa sou eu pegar um crédito de emergência a 18% ao mês para fechar a conta no final do mês”, exemplificou Lage.

Segundo ele, quando o crédito emergencial é utilizado de forma recorrente por quem já enfrenta dificuldades financeiras, as parcelas podem aumentar ainda mais a pressão sobre o orçamento.

Por outro lado, para quem possui maior estabilidade, o crédito pode ser utilizado de maneira planejada para aquisição de bens e construção de patrimônio, desde que as parcelas caibam no orçamento.

“Então, consequentemente, eu consigo gerenciar melhor esse crédito e usá-lo para construir mais patrimônio, para trazer mais ativos, sem que isso comprometa o meu mês a mês”, concluiu.