Economia
Endividamento de risco cresce 75% em cinco anos e atinge 20,3 milhões de brasileiros
Relatório do BC aponta que 17% das pessoas com dívidas no sistema financeiro enfrentam dificuldades para pagar os compromissos
O número de brasileiros em situação de endividamento de risco chegou a 20,3 milhões em junho de 2026, um aumento de 75% em cinco anos. O grupo representa 17% das pessoas com dívidas no sistema financeiro. Os dados constam no REF (Relatório de Estabilidade Financeira), divulgado pelo BC (Banco Central) nesta terça-feira (27).
O endividamento de risco é caracterizado quando o consumidor apresenta pelo menos dois sinais de dificuldade financeira. Entre eles estão atrasos superiores a 90 dias no pagamento das dívidas, comprometimento de mais da metade da renda com empréstimos, uso simultâneo de modalidades de crédito com juros elevados ou renda restante abaixo da linha da pobreza.
Em junho de 2021, os endividados de risco correspondiam a 9,7% das pessoas com dívidas no sistema financeiro. O percentual subiu para 13,1% em 2022, recuou ligeiramente para 13% em 2023 e voltou a avançar nos anos seguintes, chegando a 14,7% em junho de 2025 e aos atuais 17%.
O avanço ocorre em um cenário de juros altos, com a taxa básica de juros (Selic) em 13,75% ao ano, e de maior utilização de modalidades de empréstimo com custos elevados. Segundo o Banco Central, o comprometimento da renda dos brasileiros com o pagamento de dívidas atingiu cerca de 38% no primeiro semestre de 2026, o maior patamar da série histórica de 21 anos.
O impacto é especialmente intenso entre consumidores de menor renda, que têm uma parcela maior do orçamento comprometida com empréstimos e financiamentos. Com menos dinheiro disponível para despesas essenciais, como alimentação, moradia e transporte, essas famílias ficam mais vulneráveis a atrasos e à contratação de novas dívidas para cobrir compromissos anteriores.
O Banco Central também demonstrou preocupação com a expansão dos serviços financeiros digitais. Embora a tecnologia tenha facilitado o acesso ao crédito, a oferta constante de empréstimos pode aumentar a exposição de consumidores de menor renda a contratos incompatíveis com sua capacidade de pagamento.
A autoridade monetária alerta ainda para os riscos relacionados a práticas comerciais que incentivam contratações inadequadas e à exposição dos usuários a fraudes, golpes e ataques cibernéticos.
“A digitalização dos serviços financeiros amplia a exposição a fraudes, golpes, ataques cibernéticos e modelos de negócios que podem explorar comportamentos impulsivos dos consumidores”, afirma o Banco Central no relatório.
Banco Central avalia endurecer regras
Diante da piora dos indicadores, o Banco Central avalia adotar regras mais rigorosas para a concessão de empréstimos, principalmente nas modalidades consideradas mais arriscadas. Uma das possibilidades em análise é exigir que as instituições financeiras mantenham mais recursos próprios para cobrir eventuais perdas com inadimplência.
A medida pode levar os bancos a aumentar o rigor na avaliação dos clientes antes de liberar novos financiamentos. Em agosto, o Comef (Comitê de Estabilidade Financeira) já havia sinalizado que a instituição preparava ações para reduzir os riscos associados ao endividamento das famílias.
Apesar do crescimento do número de brasileiros em situação de risco, o Banco Central avalia que o cenário não representa uma ameaça relevante à estabilidade do sistema financeiro nacional. Segundo a instituição, os bancos continuam com níveis confortáveis de capitalização e liquidez, além de provisões consideradas adequadas para cobrir as perdas esperadas.