Brigas internas, informações truncadas e o desespero de uma mãe. Essa não é a primeira vez que Monica Bessa, 28 anos, precisa recorrer a imprensa e as redes sociais para garantir o tratamento de João Lucas Garcete Bervig, de apenas dois anos. O garotinho sorridente nasceu com uma doença rara, a miopatia metabólica. A enfermidade afeta exclusivamente o músculo esquelético, e em João Lucas a doença afetou a coluna cervical e o tórax, fazendo com que o menino não consiga sustentar o próprio corpo.

“A situação do João é de ciência da Sesau e já enfrentei vários problemas, numa luta diária para que ele não fique sem atendimento”, conta Monica, que explica que o menino precisa de atendimento home care, já conquistado na justiça. “Como ele não consegue sustentar o próprio corpo e tem sérios problemas respiratórios, o João Lucas precisa de atendimento especializado 24 horas por dia”, explica.

E pela segunda vez, ele corre o risco de ficar sem atendimento. A primeira foi em março devido a falta de pagamento da empresa responsável. Na ocasião, o secretário de Saúde Ivandro Fonseca confirmou a situação e apontou que estariam mudando a empresa. Tão logo o caso se tornou público, a Prefeitura acertou parte da dívida e o atendimento continuou. O problema, no entanto, não foi totalmente resolvido.

Segundo Mônica, a Sesau afirmou que falta apenas uma carta de empenho. “Na Sesau eu falei no setor de comprar, mais específico e me informaram que está tudo certo, que está liberado o atendimento do João, mas que falta essa carta de empenho, no entanto, nenhuma empresa de home care de Campo Grande tem a autorização de atendimento do João, porque eles fizeram outra licitação e não me confirmaram qual empresa ganhou, e eu liguei em todas as empresas e ninguém teve a resposta da prefeitura”, explicou.  

Persistente, a estudante de enfermagem afirmou que liga todos os dias. “Ontem (14) falaram que faltou alguns documentos, há sempre uma desculpa e isso já faz um mês”, enumera ela que já procurou a Defensoria, mas sabe que o problema é urgente.

“Fui na defensoria mas eles alegam que posso entrar com o seqüestro somente quando o home care não for mais, e que todo o trâmite vai levar no mínimo seis meses e aí eu teria que arcar com o atendimento do João, algo que eu não tenho condições”, lamenta.

Atendimento tem custo mensal de R$ 28 mil


O atendimento mensal de João Lucas no sistema home care tem custo de R$ 28 mil e desde que nasceu ele ficou quase seis meses em no Hospital Regional na Capital. A mãe, era moradora em Bonito e teve que mudar a vida e a rotina da família, para atender a criança. Ela tem mais um filho, um menino de nove anos, tem que se dedicar integralmente ao pequeno, que além de tudo faz alimentação por sonda.

Ir para casa foi somente com determinação judicial, quando Mônica conseguiu o home care, que é o tratamento domiciliar com enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, médico e fonoaudiólogo por tempo vitalício.

Agora, o menino está com a vida nas mãos da Prefeitura. “Uma das donas do home care conversou comigo e vai segurar mais uns dias, mas alguém vai ter que arcar, não temos condições, eu não posso ver meu filho morrer por falta de ação da Prefeitura, eles estão brincando com a vida do João”, reclama.

A mãe faz um desabafo. “Até quando uma criança vai ficar a mercê de governantes que visam somente o seu próprio bem? Às vezes me sinto tão impotente, pois lutamos tanto para conseguir as coisas, são tantos nãos, tantos julgamentos, tanta a vida exposta, e para quê? Para que seja cumprida uma ordem judicial, um direito do João? Não queremos mais que o direito dele, o direito de ter ele em casa, de dar uma vida feliz, um direito a ele de não ficar enfiado em um hospital, de ele ter um pouco de vida dentro de todas as limitações que a vida já deu para ele. João corre o risco de ficar sem atendimento, e por quê? Porque os trâmites da prefeitura são demorados, porque eles resolvem que mesmo com a garantia vitalícia eles fazem apenas contratos anuais. E quem sofre? Nós? A família do João, que vive correndo contra o tempo, que vive lutando contra reinternações”, desabafou.
 
Outro lado

A reportagem entrou em contato com a Sesau que informou que o caso está na Central de Compra (Cecom) e que seriam levantadas mais informações sobre o assunto.