Internacional
Presidente da Ucrânia quer Forças Armadas 50% maiores, mas nega guerra com Rússia
No centro da pior crise de segurança na Europa desde 2014, com quatro frentes de seu território sob a mira de tropas da Rússia, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, anunciou nesta terça (1º) que pretende expandir em 50% suas Forças Armadas.
Ao assinar o decreto autorizando mais 100 mil soldados nos próximos três anos, com aumentos de salário, o presidente ao mesmo tempo disse que isso ocorria "não porque nós teremos uma guerra logo, mas para que tenhamos paz no futuro".
A ambiguidade ante a questão russa é a marca de Zelenski, um comediante que protagonizava uma série na qual ele era um presidente acidental de seu país e que, num exercício de metalinguagem reversa, ascendeu meteoricamente na vida real ao poder.
Em 26 de novembro do ano passado, quando as Forças Armadas da Ucrânia denunciavam a escalada militar russa nas fronteiras, com a validação dos serviços de inteligência dos Estados Unidos, Zelenski disse: "Há uma ameaça hoje de que poderá haver guerra amanhã".
Na linha contrária, a mesma elite hoje alimenta um forte sentimento contrário à Rússia. Mas nem por isso quer ver o seu país envolvido em um conflito fratricida que não terá como vencer militarmente, sugerindo que novas concessões territoriais possam ser inevitáveis.
Segundo a Folha de S.Paulo ouviu de diplomatas ocidentais em Kiev e Moscou, essa percepção de custo da guerra tem se tornado majoritária em círculos mais elitistas das capitais nos dois países.
Esse cenário também justifica a ideia de um Zelenski paz e amor, por assim dizer, talvez disposto a dar a Putin algum símbolo de vitória diplomática, como a aceitação dos termos dos acordos de paz de 2015 no Donbass (leste ucraniano), abrindo caminho para a desmobilização russa.
O problema é que sua margem de manobra é ínfima, e o anúncio de que poderá montar uma espécie de aliança de segurança com Polônia e Reino Unido sugere que outras opções estão em jogo.
Há limites de outra ordem. A ideia de aumentar as Forças Armadas pode até soar popular, mas é preciso ver de onde virá o dinheiro. De 2010 a 2020, o gasto com defesa da Ucrânia quase triplicou, de 1,1% do Produto Interno Bruto para 3,1%, segundo o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (Londres).