Em meio a uma crise financeira que já provocou falta de medicamentos e insumos, atraso no pagamento de profissionais e até suspensão de cirurgias, contratos da Santa Casa de Campo Grande entraram na mira do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS). Nesta sexta-feira (11), a Operação Antidotum foi deflagrada para investigar suspeitas de fraudes e desvios de recursos envolvendo a Associação Beneficente Santa Casa e a operadora Santa Casa Saúde.

A operação ocorre justamente quando a maior unidade hospitalar de Mato Grosso do Sul enfrenta dificuldades para manter parte dos serviços. Enquanto a instituição cobra recursos públicos, aponta desequilíbrio econômico-financeiro e relata problemas para custear equipes, medicamentos e materiais, a investigação do MPMS indica que milhões de reais podem ter sido pagos por meio de contratos com irregularidades.

Segundo o MPMS, a Operação Antidotum cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 36 de busca e apreensão em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO). A investigação é conduzida pelo Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção), com participação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado).

Um dos contratos investigados foi firmado pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande para digitalização de prontuários. O acordo previa pagamento de R$ 1,8 milhão por ano e duração de três anos, alcançando R$ 5,4 milhões.

A suspeita do Ministério Público é de que foram realizados pagamentos sem a correspondente prestação dos serviços contratados. Conforme a investigação, somente no primeiro ano do contrato, R$ 1,4 milhão teria sido desviado.

A apuração também chegou a contratos da Santa Casa Saúde, operadora controlada pela Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande. De acordo com o MPMS, foram identificadas irregularidades em acordos firmados com empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico.

Os investigadores apontam ainda que o proprietário dessas empresas mantinha ligações com a diretoria da Santa Casa. As companhias estavam registradas no mesmo endereço, mas, durante a apuração, foi constatado que o imóvel estava desocupado.

Somente em 2025, segundo o Ministério Público, a Santa Casa Saúde pagou aproximadamente R$ 9,6 milhões às empresas investigadas. Até o momento, o prejuízo estimado nesse núcleo da investigação é de pelo menos R$ 3,5 milhões.

Outro ponto levantado pelo MPMS envolve a fiscalização dos contratos. Segundo a investigação, informações referentes a contratos, pagamentos e prestações de contas eram sistematicamente omitidas de órgãos de controle, entre eles o Conselho Fiscal da própria Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado.

O prejuízo total ainda está sendo calculado.

Operação ocorre em meio à falta de recursos

As suspeitas investigadas ganham peso diante da situação enfrentada atualmente pelo hospital. Nas últimas semanas, a Santa Casa voltou ao centro das discussões entre Município, Estado, Ministério Público e Judiciário por causa do risco de desabastecimento e de redução da assistência prestada aos pacientes do SUS.

No início de setembro, o próprio MPMS informou que havia intensificado as tratativas para impedir a interrupção de serviços considerados essenciais. Reuniões emergenciais realizadas nos dias 24 e 28 de agosto discutiram a falta de medicamentos, gases medicinais e outros insumos, além do risco de paralisações.

Os encontros tiveram participação de representantes da Santa Casa, da Secretaria de Estado de Saúde (SES) e da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau). A manutenção de serviços laboratoriais e de outras áreas necessárias ao funcionamento do hospital também entrou na pauta.

O problema não começou agora. Em novembro de 2025, o Ministério Público ajuizou uma ação civil pública cobrando da Santa Casa, do Estado e do Município medidas para regularizar os serviços contratados pelo SUS.

Entre as providências determinadas pela Justiça estavam a recomposição dos estoques de medicamentos e de Órteses, Próteses e Materiais Especiais (OPMEs), a regularização da anestesiologia, medidas para reduzir a superlotação do Pronto-Socorro e a manutenção dos atendimentos de média e alta complexidade.

Posteriormente, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) manteve a determinação para apresentação de um plano destinado à retomada integral dos serviços e estabeleceu multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento, inicialmente limitada a 30 dias.

Em dezembro do ano passado, outro acordo intermediado pelo MPMS envolveu R$ 54,1 milhões e permitiu o pagamento de profissionais que acumulavam mais de seis meses de atrasos contratuais.

Cirurgias suspensas

A situação voltou a aparecer nesta semana. Na quinta-feira (10), a Santa Casa confirmou a suspensão temporária das cirurgias cardíacas pediátricas congênitas eletivas.

Segundo a instituição, dos dois cirurgiões cardíacos pediátricos que atuavam no serviço, um precisou se afastar por problema de saúde e a outra profissional pediu rescisão do contrato. Quatro crianças aguardavam cirurgia.

Embora tenha relacionado a suspensão diretamente à falta de profissionais, a Santa Casa também voltou a apontar dificuldades financeiras. O hospital afirmou que a manutenção dos serviços destinados aos pacientes do SUS depende do cumprimento das obrigações contratuais pelos gestores públicos.

A instituição reconheceu que os pagamentos previstos estavam sendo realizados, mas alegou a existência de um desequilíbrio econômico-financeiro que comprometeria a manutenção de equipes, medicamentos, insumos e materiais.

A Santa Casa informou ainda que um aporte de R$ 4 milhões anunciado pelo poder público ainda não havia chegado ao caixa da instituição até aquela quinta-feira.

O cenário coloca, agora, duas discussões sobre recursos da Santa Casa lado a lado. De um lado, o hospital sustenta que enfrenta dificuldades financeiras para manter serviços e cobra recursos suficientes para bancar a assistência prestada pelo SUS. Do outro, uma investigação criminal apura se parte do dinheiro da instituição foi direcionada a contratos com serviços não executados ou com irregularidades.

A investigação não elimina a discussão sobre a responsabilidade do Estado e do Município pelo financiamento dos serviços contratualizados. Também não significa que todos os problemas financeiros enfrentados pelo hospital tenham origem nos contratos investigados. Mas acrescenta uma questão à crise: além de quanto dinheiro chega à Santa Casa, passa a estar sob investigação como parte dos recursos que passaram pela instituição foi administrada.

A dimensão dessa questão ainda depende do avanço das investigações. O MPMS afirma que o prejuízo total não está fechado. Somados apenas os valores apontados até agora, a investigação menciona R$ 1,4 milhão supostamente desviado no primeiro ano do contrato de digitalização e prejuízo mínimo de R$ 3,5 milhões relacionado aos contratos da operadora.

Enquanto esses valores são apurados, a crise assistencial permanece com efeitos concretos sobre o funcionamento do hospital. O Ministério Público acompanha desde o ano passado o risco de falta de medicamentos, insumos e profissionais, e a Justiça já precisou determinar medidas para impedir a redução dos serviços.