Saúde
87% das brasileiras reconhecem risco de câncer de mama voltar, mas termo “recidiva” ainda é pouco conhecido
Pesquisa mostra que a maioria das mulheres entende a possibilidade de retorno da doença, mas apenas 39% já ouviu falar no termo usado para definir a recidiva
Embora o câncer de mama seja um tema conhecido entre as brasileiras, ainda existem lacunas importantes sobre o que acontece depois do tratamento inicial. Uma pesquisa realizada pela Ipsos a pedido da Novartis Brasil mostra que 87% das mulheres reconhecem que existe a possibilidade de a doença voltar, mas apenas 39% afirmam já ter ouvido falar em “recidiva”, termo utilizado pelos médicos para definir o retorno do câncer após o tratamento.
O levantamento ouviu 400 mulheres com mais de 35 anos, das classes A, B e C, entre 24 e 30 de abril de 2026. O desconhecimento sobre o termo chama atenção quando comparado a outras expressões relacionadas à doença: 87% já ouviram falar em quimioterapia, 84% em biópsia, 77% em tumor maligno e 73% em metástase. Os dados indicam que, apesar de muitas mulheres saberem que o câncer pode retornar, parte delas ainda tem pouco contato com informações sobre a continuidade do cuidado e as estratégias utilizadas para reduzir esse risco.
Quando o assunto é explicado, porém, a importância do acompanhamento após a cirurgia é reconhecida pela maioria. Segundo a pesquisa, 90% das entrevistadas concordam que, mesmo depois da retirada de um tumor em estágio inicial, pode ser recomendado um tratamento adicional para ajudar a evitar que a doença volte. Além disso, 64% consideram que, em determinados casos, o tratamento complementar pode continuar por até 10 anos.
Para a mastologista Maira Caleffi, os resultados mostram a necessidade de aproximar a informação médica do cotidiano das pacientes. Segundo ela, a falta de conhecimento sobre a recidiva também pode dificultar a compreensão sobre a importância da adesão ao tratamento adjuvante, quando indicado.
A especialista afirma que evidências apontam que apenas cerca de metade das mulheres consegue completar os cinco anos recomendados de terapia endócrina adjuvante. Para ela, o cenário reforça a necessidade de estratégias que ajudem as pacientes a permanecerem no tratamento pelo período indicado pela equipe médica.
A percepção sobre o acompanhamento contínuo também aparece nos resultados: 63% das entrevistadas consideram importantes o acompanhamento e o tratamento ao longo do tempo para reduzir o risco de retorno da doença. A avaliação ganha relevância porque o câncer de mama inicial, mesmo quando tratado, pode apresentar risco de recidiva durante muitos anos.
O câncer de mama inicial é aquele que está localizado na mama e, em alguns casos, nos linfonodos próximos, sem evidências de disseminação para outras partes do organismo. O tratamento pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia e outras estratégias, definidas de acordo com as características de cada caso. Mesmo após essas etapas, algumas pacientes permanecem sob risco de a doença retornar.
A recidiva pode ocorrer na própria região onde o tumor estava, em áreas próximas ou em outras partes do corpo. Quando o câncer retorna em locais distantes, é classificado como doença metastática. Por isso, o acompanhamento médico não termina necessariamente após a cirurgia ou a conclusão das primeiras etapas do tratamento.
Segundo a pesquisa, a questão é especialmente relevante entre pacientes com câncer de mama inicial do subtipo RH+/HER2-, considerado o mais comum. Estimativas citadas no levantamento apontam que cerca de uma em cada três pacientes desse grupo pode ser classificada como de alto risco de recidiva, dependendo de fatores clínicos e das características do tumor.
Consulta pública discute novo tratamento no SUS
O debate sobre o cuidado após o tratamento inicial também ocorre no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A abertura da Consulta Pública nº 61/2026 da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) permite que a sociedade se manifeste sobre a inclusão de uma nova opção de tratamento adjuvante para pacientes com câncer de mama inicial RH+/HER2- consideradas de alto risco de recidiva.
A consulta pública é uma etapa do processo de avaliação de tecnologias em saúde e permite a participação de pacientes, familiares, profissionais da área, organizações da sociedade civil e demais interessados. As contribuições podem incluir opiniões, experiências e informações relacionadas à proposta em análise.
Para Maira Caleffi, ampliar o acesso a informações e às opções terapêuticas disponíveis no SUS é fundamental para que o tratamento possa ser individualizado. Ela também destaca a importância da navegação de pacientes, estratégia que oferece orientação e suporte ao longo da jornada de tratamento.
A pesquisa reforça, assim, que conhecer o risco de retorno da doença é apenas uma parte da questão. Para as pacientes, entender o significado da recidiva, manter o acompanhamento médico e seguir corretamente o tratamento indicado podem ser etapas importantes para a continuidade do cuidado.