A Polícia Federal indiciou 16 funcionários e ex-funcionários da Voepass pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo no inquérito que apura a queda do avião ATR 72-500, ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo (SP). O acidente matou as 62 pessoas que estavam a bordo da aeronave, e o resultado da investigação foi apresentado nesta quinta-feira (6), durante coletiva de imprensa.

 Segundo o delegado André Almeida Azevedo Ribeiro, responsável pelo caso, as investigações concluíram que os indiciados tiveram condutas que influenciaram diretamente o desfecho da tragédia. Além do crime contra a segurança do transporte aéreo, a Polícia Federal apontou a prática de falsidade ideológica ao identificar que havia orientação para que pilotos deixassem de registrar falhas mecânicas no diário de bordo, evitando que a aeronave fosse retirada de operação para manutenção.

 De acordo com o laudo final, o avião entrou em uma área de intensa formação de gelo enquanto apresentava falha no sistema de degelo da asa direita. O acúmulo de gelo comprometeu o desempenho da aeronave, provocando perda gradual de velocidade, seguida de perda de controle e queda. A investigação também concluiu que os procedimentos previstos para esse tipo de situação não foram executados integralmente antes do acidente. 

Os investigadores afirmam que o problema no sistema de degelo não surgiu no dia da tragédia. Conforme o relatório, a falha já havia sido registrada em voos anteriores, mas não foi lançada oficialmente no diário de bordo, impedindo que a aeronave fosse encaminhada para manutenção. A Polícia Federal classificou a omissão como uma quebra direta das responsabilidades atribuídas às tripulações.

 O documento revela ainda que, apenas no voo imediatamente anterior ao acidente, realizado pela mesma tripulação, o alerta de falha no sistema de degelo da asa direita foi acionado oito vezes. Após o pouso, às 11h21, o comandante comentou com o copiloto sobre o gelo acumulado na aeronave. "Ó lá o gelo, o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui. Foi o gelo que voou. (...) Chegamos vivos. (...) Ufa, chegamos vivos", disse. Mesmo diante do relato, a aeronave voltou a decolar de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP), quando ocorreu o acidente que matou o piloto Danilo Romano, o copiloto Humberto de Campos e os demais ocupantes.

Entre os indiciados estão o presidente da companhia, José Luiz Felício Filho, diretores das áreas de Operações, Manutenção, Segurança Operacional e Engenharia, gerentes dos centros de controle operacional e de manutenção, pilotos, despachantes operacionais e o mecânico responsável pela liberação da aeronave. A investigação aponta que todos tiveram participação, em diferentes níveis, nas decisões e procedimentos que permitiram que o avião continuasse operando.

 Confira a nota da Voepass na íntegra

“A VOEPASS informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação IOSA (IATA Operational Safety Audit), concedida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional.

Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional.

A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função.

Desde o início das investigações, a VOEPASS colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente.

A VOEPASS reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários.”