Segunda no Azul
Segunda no Azul
Qual é o seu custo de vida?
Em 1994, com uma nota de cem reais, você comprava muita coisa no mercado. Hoje, essa mesma nota compra por volta de trinta e três reais. Leia de novo: o poder de compra da mesma cédula despencou para menos de um sétimo do que já foi.
Não é impressão sua. É matemática — e vem de dados do DIEESE, a partir da Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos. E é uma matemática que deveria nos fazer parar e pensar.
Um estudo recente, apresentado pela Agência Brasil no início de 2026, mostrou que, em quase vinte anos, o custo da alimentação do brasileiro subiu mais de 300% — enquanto a inflação geral do país foi de 186%. Ou seja: comer ficou muito mais caro do que a inflação oficial do IBGE. E há um detalhe ainda mais perverso, que o próprio estudo chama de "inflação invisível": produtos que mantêm o mesmo preço, mas trocam ingredientes bons por baratos. O sorvete que recebe menos leite e mais açúcar. O chocolate que perde cacau. Pagamos o mesmo por menos qualidade — e nem percebemos.
Mas e como chegamos até aqui?
Volte comigo à Revolução Industrial. A promessa daquela época era luminosa. Com as linhas de produção, produziríamos cada vez mais a um custo cada vez menor. Roupas para todos, comida farta e barata, e as maravilhas que chegavam — a energia elétrica, o automóvel. Prometeram-nos uma era de abundância. Trabalharíamos menos em casa e teríamos uma qualidade de vida muito melhor.
Pouco mais de um século depois, a conta não fecha.
Moramos em casas cada vez menores. Nossa comida tem qualidade cada vez pior. Vivemos mais anos, é verdade — mas que anos? Uma velhice cada vez mais marcada pela dependência de remédios, por demências, por perda severa de mobilidade. Realidades que não eram o padrão na vida dos nossos avós e bisavós. E o mais irônico de tudo: apesar da explosão de produtividade que nos prometeram, temos cada vez menos tempo. Menos tempo para cozinhar. Menos tempo para cuidar da própria saúde. Menos tempo para viver.
Isso me lembra um personagem de O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry. Num dos planetas, o principezinho encontra um homem de negócios ocupadíssimo, contando estrelas sem parar. O menino pergunta para que serve contar estrelas. O homem responde que serve para possuí-las. E para que serve possuí-las? Para comprar mais estrelas. O menino insiste, com aquela lógica desconcertante das crianças, até que o homem simplesmente não sabe mais o que responder. Passou a vida inteira contando — e nunca soube o porquê.
Não estaríamos nós fazendo exatamente a mesma coisa?
Corremos o risco de passar a vida contando cifras na conta bancária, do mesmo jeito que aquele homem contava estrelas — sem nunca parar para perguntar para quê. Acumulamos números que, ano após ano, compram cada vez menos. É a corrida atrás do vento: muito esforço, muita velocidade, nenhum destino.
E talvez seja por que existe hoje um movimento crescente de êxodo urbano — pessoas deixando os grandes centros em busca de um ritmo de vida mais humano e reencontrando conhecimentos básicos: o contato com a terra, a produção do próprio alimento, o tempo dedicado aos relacionamentos familiares e a vida em comunidade. Os números confirmam a tendência: segundo o Censo de 2022 do IBGE, capitais como Porto Alegre perderam 5,4% da população, e Belém, 6,5%. A campeã em perdas foi Salvador com uma perda de 9,6% da população.
E aqui vem a surpresa que só quem faz o teste descobre: o custo de vida no interior é muito menor. Faça a experiência. Viaje para uma cidadezinha e repare. As mesas são mais fartas. Os espaços de convívio, maiores. E a vida em comunidade funciona de verdade — todo mundo conhece todo mundo, e dificilmente alguém fica sem teto ou sem comida por muito tempo, porque a própria comunidade se organiza e reergue quem caiu, sem depender de nenhuma instituição pública.
Há um dado que parece paradoxal, mas que explica tudo: a renda média das pequenas cidades é menor que a dos grandes centros. À primeira vista, isso soa como desvantagem. Mas é justamente o contrário. A renda é menor porque o custo de vida é menor — e, ainda assim, a qualidade de vida costuma ser superior. Menos dinheiro, mais vida. Eis a conta que a cidade grande não quer que você faça.
Basta olhar o o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), calculado a partir de dados do IBGE segundo a metodologia do PNUD — o mesmo programa das Nações Unidas que criou o IDH usado no mundo inteiro. Ele mede qualidade de vida por três pilares: saúde, educação e renda.
E o que esse índice revela é revelador. Águas de São Pedro, uma cidadezinha do interior paulista com menos de três mil habitantes, tem um dos maiores índices do país. Pequenas cidades do interior de Santa Catarina, como Joaçaba, também aparecem no seleto grupo de desenvolvimento humano "muito alto". Enquanto isso, a média das 27 capitais brasileiras fica bem abaixo. Ou seja: várias cidadezinhas que a maioria de nós nunca ouviu falar oferecem, comprovadamente, mais qualidade de vida do que as grandes capitais para onde todos correm justamente em buscar de uma melhor qualidade de vida.
Precisamos ter a coragem de refletir até que ponto este experimento — os grandes centros urbanos, a industrialização até do que comemos e do padrão de casa em que vivemos — realmente valeu a pena. Do ponto de vista puramente financeiro, os números sugerem que não: até ganhamos numericamente mais dinheiro, mas conseguimos comprar cada vez menos do básico para viver.
Repare que uma nova promessa já está sendo anunciada. Segundo os arautos da tecnologia, com a revolução da inteligência artificial nossa produtividade será ainda maior. Teremos superabundância de produtos e alimentos. As pessoas talvez nem precisem mais trabalhar. A promessa é sedutora, brilhante, quase irresistível.
Mas é exatamente aqui que a memória se torna nossa melhor aliada. Porque essa promessa nós já ouvimos antes. Foi feita há duzentos anos, no início da Revolução Industrial.
Será que não estamos caindo, de novo, na mesma promessa?
Pense nisso.