E se, em vez de levar os estudantes ao cinema, fosse possível levar o cinema até eles? Foi a partir dessa ideia que nasceu o CineCG nas Escolas, projeto idealizado pela produtora executiva Aline Rezende que leva filmes produzidos em Campo Grande e em Mato Grosso do Sul para escolas da Rede Municipal de Ensino.

“Eu sempre pensei que o cinema poderia chegar mais perto dessas pessoas. Não só como diversão, mas como uma oportunidade de conhecer outras histórias, conversar, aprender e também se reconhecer naquilo que está assistindo”, explica Aline.

Realizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), por meio da Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande (FUNDAC), a iniciativa conta com a parceria da Secretaria Municipal de Educação (SEMED). A proposta é ampliar o acesso à cultura, valorizar o audiovisual produzido no Estado e aproximar crianças e adolescentes de filmes, artistas e profissionais que muitas vezes parecem distantes da realidade escolar.

A escolha de levar as sessões para dentro das escolas também responde a dificuldades práticas que podem impedir o acesso de turmas inteiras às salas de cinema, como transporte, segurança e logística. Com o projeto, a escola passa a ser também um espaço de exibição, conversa e formação de público.

Para Aline, a iniciativa também tem relação com sua própria trajetória. Ela convive com uma doença rara e afirma que a condição mudou muitas coisas em sua vida, mas não tirou sua vontade de trabalhar, criar e desenvolver novos projetos.

“Isso nunca tirou de mim a vontade de trabalhar, de criar e de continuar desenvolvendo projetos. Acho que, de certa forma, isso até me deu mais força para buscar caminhos e fazer acontecer”, afirma.

Segundo a produtora, transformar ideias em projetos que cheguem ao público é uma das principais motivações para continuar atuando na área cultural.

“Gosto de trabalhar, gosto de pensar projetos e principalmente, de ver uma ideia sair do papel e chegar até quem realmente precisa ter acesso a essas oportunidades”, diz.

O CineCG nas Escolas, segundo Aline, nasceu justamente dessa vontade de levar o cinema a lugares onde ele nem sempre consegue chegar.

“Não é simplesmente passar um filme dentro de uma escola. É criar uma oportunidade. Às vezes, para aquele aluno, pode ser o primeiro contato mais próximo com o cinema e com uma produção feita aqui”, destaca.

Para o diretor e realizador Filipi Silveira, que participa do projeto como convidado, a resposta é não. Segundo ele, o trabalho de formação de público acompanha sua própria trajetória e ganha um significado especial quando os filmes chegam às crianças e adolescentes.

Filipi conta que conhece Aline há muitos anos. Ela trabalhou com o pai dele e, atualmente, os dois também trabalham juntos. Foi ele quem a apresentou ao universo do cinema, experiência que, segundo o diretor, acabou se tornando um divisor de águas na trajetória profissional dela.

A ideia do projeto surgiu durante esse processo, quando Aline percebeu a possibilidade de levar produções de Mato Grosso do Sul para estudantes da rede municipal. Para Filipi, existe um valor especial em permitir que filmes já realizados continuem encontrando público.

“Fazer um filme é maravilhoso, mas levar o filme até as pessoas é ainda mais especial”, afirma.

Para ele, uma obra não deixa de existir quando termina a produção. O filme ganha novos significados quando encontra quem está do outro lado da tela.

“Um filme não termina quando a gente coloca o ponto final na produção. Ele continua existindo quando encontra alguém, quando provoca uma pergunta, uma emoção, uma lembrança ou até uma conversa que a gente não esperava”, destaca.

Um dos momentos mais especiais das sessões é a exibição do filme “Curta ser Saudável”, que conta com a participação do pai de Filipi Silveira,  o saudoso ex-vereador Cristovão Silveira abordando a importância da Lei da Cantina Saudável.

Cinema que abre espaço para conversas

CineCG nas Escolas Foto: divulgação

As sessões do CineCG não terminam quando os créditos sobem. Depois da exibição, cerca de 20 minutos são reservados para debate e mediação. É nesse momento que os estudantes podem conversar com os profissionais convidados, fazer perguntas e conhecer um pouco dos processos que acontecem por trás das produções.

Entre os convidados estão Filipi Silveira e Ara Martins. Filipi leva aos estudantes experiências como diretor e ator, enquanto Ara apresenta possibilidades relacionadas à animação e aos processos de criação de personagens, imagens e movimentos. A ideia é mostrar que o audiovisual é formado por diferentes profissões, linguagens e caminhos.

Aline conta que, durante as atividades, uma das primeiras reações percebidas pela equipe é a curiosidade dos estudantes.

“Quando chegamos às escolas, percebemos primeiro muita curiosidade. Muitos alunos ficam animados simplesmente por terem uma atividade diferente dentro da escola e, aos poucos, vão se envolvendo com o filme e com a conversa”, relata.

Segundo ela, o momento mais significativo acontece quando os alunos começam a relacionar o que viram na tela com as próprias experiências.

“O que mais chama nossa atenção é quando eles começam a fazer perguntas, comentar as cenas e relacionar o que assistiram com a própria realidade. Também existe uma surpresa muito grande quando percebem que aquelas produções foram feitas aqui, em Mato Grosso do Sul”, afirma.

Uma das experiências que mais marcou Filipi ocorreu na Escola Municipal Carlos Vilhalba Cristaldo. Na ocasião, foram exibidos dois filmes que abordavam bullying, inclusão e preconceito. O que veio depois da sessão, porém, acabou tomando proporções que nem a equipe esperava.

“Os alunos começaram a aprofundar os temas, contar suas próprias experiências e, de repente, a conversa tomou caminhos que ninguém havia planejado. Falamos de preconceito, de inclusão, de situações vividas por eles e até de luto”, relata.

A turma era do quarto ano, e o encontro acabou reunindo crianças, professora e equipe do projeto em uma conversa marcada por relatos, emoção e acolhimento.

“Naquele momento ficou muito claro para mim que o cinema havia conseguido fazer aquilo que considero uma das coisas mais bonitas da arte: criar um espaço para que as pessoas se reconheçam umas nas outras”, afirma Filipi.

Um encontro especial entre memória, cinema e afeto

Um dos momentos mais especiais das sessões é a exibição do filme “Curta ser Saudável”, que conta com a participação do pai de Filipi Silveira, abordando a importância da Lei da Cantina Saudável.

Para Filipi, rever o pai na tela é muito mais do que assistir novamente a um filme. É reencontrar uma memória, uma voz e uma presença que o cinema conseguiu preservar e que, a cada exibição, ganha novos espectadores.

Seu pai faleceu em 2017, mas continua presente por meio das imagens e, de certa maneira, continua ensinando. Hoje, uma nova geração de estudantes pode conhecer sua participação e entrar em contato com uma mensagem de cidadania que permanece viva por meio do audiovisual.

Como resume Filipi:

“Meu pai se foi em 2017, mas continua, por meio do cinema, ensinando esta nova geração sobre cidadania. Cinema é isso: eterno!”

Crianças também ensinam

Produtor Filipi Silveira Foto: divulgação

A experiência também mudou a maneira como Filipi enxerga a formação de público. Para ele, existe um risco em imaginar que levar cinema para uma escola significa simplesmente explicar aos estudantes o que eles acabaram de assistir.

“Não subestime uma criança. Às vezes, quando pensamos em formação de público, imaginamos que precisamos explicar tudo para os alunos. Mas a experiência me ensinou justamente o contrário. Eles têm muito a nos ensinar também”, diz.

A troca, segundo ele, acontece nos dois sentidos. A equipe chega com o objetivo de apresentar uma produção e conversar sobre cinema, mas também sai das escolas levando novas experiências.

“A cada escola que visitamos, eu vou com a intenção de apresentar um filme, conversar sobre cinema e contribuir para a formação de público. Mas também volto para casa tendo aprendido alguma coisa com aquelas crianças”, conta.

Aline também destaca que esse retorno dos estudantes reforça o sentido do projeto.

“Para nós, esse retorno é muito importante, porque mostra que não estamos apenas exibindo um filme. Estamos criando um momento de acesso, troca e descoberta para alunos que muitas vezes têm poucas oportunidades de participar de atividades culturais como essa”, afirma.

Quando o cinema produzido em MS encontra novos públicos

Outro eixo do CineCG é valorizar a produção audiovisual feita no próprio Estado. Ao assistir a filmes produzidos em Campo Grande e em Mato Grosso do Sul, os estudantes têm contato com histórias e profissionais que estão mais próximos de sua realidade.

A proposta também cria uma via de mão dupla: os alunos conhecem a produção regional, enquanto os realizadores encontram novos espectadores. Com isso, o projeto contribui para ampliar a circulação dos filmes e fortalecer o audiovisual sul-mato-grossense.

A iniciativa prioriza especialmente escolas localizadas em regiões periféricas e rurais de Campo Grande, buscando alcançar estudantes que enfrentam mais dificuldades para participar de atividades culturais realizadas fora do ambiente escolar.

Aline explica que esse objetivo esteve presente desde a criação do projeto. “O Cine CG nas Escolas nasceu da vontade de levar cinema e cultura para crianças e jovens, principalmente em regiões de maior fragilidade financeira, onde esse acesso muitas vezes é limitado”, afirma.

O projeto foi contemplado pela PNAB Municipal de Campo Grande, o que possibilitou tirar a ideia do papel e levá-la às escolas públicas. A inclusão também está presente na própria equipe do projeto. Aline Rezende é formada em Artes e é uma pessoa com deficiência. Sua atuação na criação e na produção executiva acrescenta uma dimensão de representatividade à iniciativa e apresenta aos estudantes outra possibilidade de ocupação de espaços na cultura e no audiovisual.

“Para mim e para o Filipi Silveira, que convivemos com doenças raras, desenvolver projetos como esse também representa continuar trabalhando, criando e mostrando que ainda temos muito a contribuir”, destaca Aline.

Filipi também destaca que ele e Aline são agentes culturais PCDs. Em uma das atividades, a presença de uma professora com deficiência na escola tornou o encontro ainda mais significativo para a equipe.

Para Filipi, é justamente nessa troca que está uma das maiores riquezas do projeto. “A gente chega levando filmes, mas muitas vezes volta levando histórias”, resume.

E é nesse movimento, de escola em escola, filme em filme e conversa em conversa, que o CineCG nas Escolas tenta construir uma relação mais próxima entre os estudantes e o cinema produzido em Mato Grosso do Sul. No fim, a proposta é simples: se os estudantes não conseguem ir ao cinema, o cinema vai até eles.