Um grupo de estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) está organizando um ato "anti-greve" como forma de demonstrar o repúdio de parte dos alunos com a ameaça da paralisação das aulas. Na semana passada, os servidores públicos da universidade deflagraram greve. O ato foi marcado para acontecer no dia 3 de novembro, em frente à Reitoria da instituição.

Um evento foi criado no Facebook para convocar os estudantes, que já somam mais de 300 em apoio.

O estudante de Engenharia de Produção, Mateus Correa, é um dos organizadores do ato que pretende ser uma "resposta" dos discentes à possibilidade de paralisação das aulas. "O ato a favor da continuidade das aulas na UFMS surgiu porque a nossa universidade é frequentemente vítima de greves que prejudicam o andamento normal e pleno das aulas, o que prejudica os estudantes a continuarem em seus cursos e a se formarem", explicou. Para Mateus, a questão é de respeito ao direito à educação. 

Entre os principais motivos para a paralisação de diversas universidades e instituições públicas de ensino tem girado em torno da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241, aprovada em 1º turno na Câmara recentemente, que limita os gastos federais ao orçamento do ano anterior corrigido pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A proposta tem causado alvoroço e dividido opiniões entre os que acreditam ser uma saída para o reequilíbrio das contas do país e entre os que a rechaçam por acarretar uma possível precarização em setores como saúde e educação. Mateus afirma que o ato não entra na discussão da PEC. Para ele, a greve é desnecessária."A discussão sobre PEC pode ser feita sem greves e nos momentos oportunos com quem desejar discutir. A participação e a contestação são elementos fundamentais da nossa democracia, inclusive sobre a PEC 241, porém ela não é o mérito do nosso ato. Queremos somente a continuidade das aulas e da universidade."

O estudante também levanta a questão dos alunos que se prejudicam, além de academicamente, também financeiramente com a greve. "Como ficam os alunos que não moram efetivamente em Campo Grande e os alunos que precisam trabalhar para se manterem? Avançar no curso, para muitos, é poder conseguir um estágio; e, concluir, é conseguir um emprego mais sustentável", ressalta.

Mas o ato não conta com o apoio de todos os estudantes. O estudante de Engenharia Elétrica, Matheus Carneiro, é contra o ato e acredita haver uma "distorção" no entendimento sobre o direito à educação. O estudante ressalta o fato de que estudantes secundaristas entenderam os prejuízos com a reforma do ensino médio (MPV 746) e o que significa o congelamento de investimentos em saúde, educação e outros setores fundamentais da sociedade - por isso a paralisação massiva em escolas públicas do país. "O movimento anti-grevista deixa claro que não se propõe ao debate mais amplo, que querem apenas ter o direito de se formar. Essa é, infelizmente, uma visão muita rasa de enxergar a realidade.[...] Como defender o "direito à educação" com falta de recursos?  Como defender o "direito à educação" quando grande parte da juventude está fora das universidades?", diz.

Sobre os estudantes que se prejudicam financeiramente durante a greve, por pagamento de aluguel, por exemplo, Matheus diz que há de se pensar no quadro maior para minimizar os efeitos. "As perspectivas para o futuro são ainda piores levando em consideração os efeitos nefastos dos cortes no orçamento público. Se a greve não acontecer hoje, inevitavelmente acontecerá amanhã. Em 2013 conheci pessoas que quase desistiram de estudar por ficarem meses sem passe de ônibus, mas optaram pela mobilização e saíram vitoriosas. Quando o coletivo sobressai ao indivíduo, ninguém fica pra trás".

Apesar disso, Matheus afirma não acreditar que o ato tenha algum efeito determinante na greve e que o debate sobre a questão deve sim ser fomentado já que a paralisação envolve o futuro das gerações que estão por vir. 

Além do ato, uma página no Facebook foi criada em apoio aos estudantes anti-grevistas. A página, intitulada "UFMS e UFGD - Estudantes contra a greve"reúne informações sobre os atos e sobre o movimento anti-grevista.