Durante escavações de obra da construtora MRV, no bairro Vicente Fialho, em São Luís, no Maranhão, quarenta e três esqueletos humanos foram encontrados. 

Além da ossada, cerca de 100 mil fragmentos também foram achados, entre cerâmicas, materiais líticos (ferramentas de pedra), carvão, ossos e conchas decoradas, pela empresa W Lage Arqueologia e coordenado pelo arqueólogo Wellington Lage.

Estão sendo feitas análises em laboratório para descobrir com precisão quão antigos são esses materiais e os esqueletos. Segundoos pesquisadores, o número de sepultamentos e a quantidade de peças encontradas apontam para um sítio arqueológico, o que pode ter um valor ímpar para o estudo do passado brasileiro.

"Além da importância implícita desses materiais, as datações [preliminares] realizadas oferecem novos panoramas inéditos para a arqueologia do Maranhão e, consequentemente, do Brasil", afirmou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

"Os achados arqueológicos contribuem, ainda, para a escrita de uma história indígena de longa duração."

Vários esqueletos foram localizados embaixo de um sambaqui (espécie de morro de conchas e sedimentos construído na beira de rios e no litoral por populações que habitaram o Brasil há milhares de anos) e podem pertencer, pelo que indicam análises preliminares, a homens e mulheres fortes e de baixa estatura que foram cuidadosamente enterrados. 

Em uma das sepulturas, foi encontrado um vaso de cerâmica que possivelmente é do tipo Mina, um tipo de produção que data de cerca de 5 mil a 7 mil anos atrás e é encontrado em outras áreas do Norte do Brasil – a tradição ceramista dos povos amazônicos remonta a 8 mil anos.

Não é a primeira vez que sítios arqueológicos são descobertos durante obras de engenharia em São Luís, que, segundo pesquisas, é ocupada há mais de 7 mil anos. Um outro sambaqui, o Vinhais Velho, foi encontrado durante a construção da Via Expressa, uma rodovia, e guardava registros de povos pescadores e coletores de marisco que viveram na região há cerca de 3 mil anos.

O trabalho de pesquisa e escavação arqueológica, realizado pela empresa W Lage Arqueologia, começou ainda em 2019 e segue em andamento.

O arqueólogo coordenador do trabalho, Wellington Lage, disse que prefere não dar mais informações enquanto o material está em análise - e em descoberta. Um relatório parcial da W Lage de novembro de 2023 diz que "novos achados estão sendo evidenciados a cada dia".

Os resultados das análises - que indicarão, por exemplo, a datação dos esqueletos e dos fragmentos - devem levar meses para sair, dado o volume de material e o fato de que alguns exames estão sendo feitas fora do Brasil.

A análise mais aprofundada do conjunto de artefatos e esqueletos pode vir a revelar, ainda, mais informações sobre os grupos que habitaram São Luís e quais eram suas práticas funerárias.

A MRV, dona do empreendimento, diz que "vivenciar estas descobertas foi incrível ainda mais porque pudemos e poderemos contribuir para que mais pessoas tenham a oportunidade de estudar e conhecer esta riqueza arqueológica de valor inestimável".

A construtora afirma ter fornecido, desde o início, materiais e colaboradores para o trabalho arqueológico e que buscou atender todas as exigências legais. Por determinação do Iphan, a empresa está construindo um centro na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) para guarda dos itens.

A legislação brasileira não impede a construção de empreendimentos imobiliários em locais de interesse arqueológico, desde que seguido o licenciamento ambiental, o que foi feito. Em casos de interesse arqueológico, o Iphan é incluído no processo.