Inconformada
Mãe de travesti assassinada entra no processo e pede prisão de autor confesso
Helena da Silva ingressou como assistente de acusação e busca reverter a decisão da Justiça que concedeu liberdade a Deivison Felipe Alves de Brito durante audiência de custódia
Helena da Silva dos Anjos, de 60 anos, mãe da travesti Nathalia dos Anjos Molin, de 33 anos, assassinada a tiros no dia 5 de junho deste ano em uma residência localizada na rua São Roque, na Vila Taquarussu, em Campo Grande, ingressou no processo como assistente de acusação no caso.
Inconformada com a soltura do autor confesso, Deivison Felipe Alves de Brito, de 30 anos, que admitiu ter efetuado os disparos que causaram a morte de Nathalia e do marido dela, Ademar Spacino Junior, de 38 anos, Helena vai atuar ao lado do Ministério Público (MPMS), responsável pela ação penal.
Para atuar na assistência de acusação, ela contratou o advogado Wilian Frata. Em entrevista ao JD1, o ele afirmou que a tese de legítima defesa apresentada por Deivison não deve prevalecer.
"Teve três tiros nas costas, e a legítima defesa, ela não é cabível nesse caso, inclusive teve mais tiros, teve que recarregar o revólver, ele fugiu do local, então assim, o fato dele ter fugido, o fato de ter tiros nas costas, o fato de já vem tendo desentendimentos ali, então tudo isso configura que não foi uma legítima defesa", explicou.
Segundo o advogado, a habilitação da mãe da vítima já foi formalizada nos autos.
"Nós entramos no processo, habilitamos o processo, ela se abriu como assistente de acusação, nos habilitamos e estamos provando ali que não pode ter sido uma legítima defesa", destacou Wilian Frata.
Além de contestar a versão apresentada pelo acusado, o advogado pediu à Justiça que seja decretada a prisão preventiva de Deivison Felipe Alves de Brito, atualmente em liberdade mediante medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica.
"Estamos tentando provar que ele é perigoso, que corre risco para a ordem pública assim, ele ficar na rua, independente de que ele é réu primário ou não", afirmou, rebatendo os argumentos utilizados pela Justiça para conceder liberdade ao acusado com base nos bons antecedentes.
Em tom crítico, Wilian Frata também questionou a decisão que permitiu a soltura do investigado, "Ele matou duas pessoas brutalmente, a sangue frio... a família das pessoas que morreram? Tá chorando, nunca mais vai ter de volta", destacou o advogado.
Em seguida, acrescentou, "Eu queria saber se a justiça é tratada da mesma forma, da mesma forma se fosse duas pessoas heterossexuais e ricas, se o assassino ia estar na rua", questionou.
No pedido protocolado à Justiça, o advogado requer que a decisão seja revista e que seja expedida ordem de prisão contra Deivison Felipe Alves de Brito. Para a assistência de acusação, as medidas cautelares atualmente impostas são insuficientes.
"As cautelares fixadas não neutralizam nenhum dos riscos identificados. A monitoração eletrônica e o recolhimento noturno não impedem o contato cotidiano do autuado com a testemunha que com ele coabita, tampouco sua circulação diurna pela própria vila em que os fatos ocorreram e em que residem os familiares e vizinhos das vítimas."
Ainda conforme a manifestação apresentada ao Judiciário, o advogado sustenta que, "O trauma que clama por tutela é o da mãe que perdeu a filha com três tiros pelas costas."
A defesa da família também pediu, com urgência, a juntada dos laudos necroscópicos, do laudo pericial do local do crime e do exame balístico. Além disso, solicitou a preservação e requisição das imagens de câmeras de monitoramento da via pública mencionadas por testemunha presencial.
Os pedidos ainda serão analisados pela Justiça, e o processo tramita na 2ª Vara do Tribunal do Júri, presidida pelo juiz Aluizio Pereira dos Santos. Paralelamente, também tramita no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul um pedido de prisão apresentado pelo Ministério Público Estadual, que se mostrou inconformado com a soltura do acusado durante a audiência de custódia.
Fotos do caso:
Mãe diz que vida perdeu o sentido após morte da filha
Helena dos Anjos, de 60 anos, mãe da travesti Nathalia dos Anjos Molin, desabafou na sexta-feira (5), dia em que o crime ocorreu. Ela esteve na residência onde a filha foi morta, na Vila Taquarussu, e pediu Justiça.
"Quero que ele fique na cadeia e pague pelo que fez", afirmou ao JD1. Emocionada, Helena relatou o sofrimento causado pela perda da filha.
"Eu perdi meu filho... para mim não tem... não tem sentido uma vida dessa... porque eu perdi meu filho... eu perdi o gênero que tem uma família boa...", declarou.
A mãe também atribuiu o crime a um suposto sentimento de ódio em razão do relacionamento homoafetivo das vítimas.
Por outro lado, ainda no local do crime, o pai do autor negou qualquer motivação relacionada a preconceito. Segundo ele, o caso teria ligação com desentendimentos anteriores entre os envolvidos e, na data dos fatos, a esposa do investigado teria sido vítima de comportamento agressivo por parte das vítimas.
De acordo com essa versão, Deivison Felipe teria agido para defender a companheira. As versões apresentadas pelas partes são conflitantes e seguem sob investigação das autoridades.
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