Opinião
OPINIÃO: Cuidar também é educar: a escola na valorização da vida
Há sofrimentos que não aparecem no boletim escolar. Eles não chegam escritos no caderno, não são revelados por uma prova e, muitas vezes, escondem-se atrás de um sorriso, de um silêncio prolongado, de ausências frequentes ou de uma mudança repentina de comportamento. Por isso, quando falamos em educação, precisamos falar também de cuidado, pertencimento e saúde mental.
Ao longo de mais de três décadas dedicadas à educação, como professor, diretor de escola, coordenador pedagógico e gestor público, aprendi que nenhum estudante deixa seus sentimentos do lado de fora quando atravessa o portão da escola. Cada criança e cada jovem chega à sala de aula trazendo sonhos, medos, conflitos, inseguranças e experiências que nem sempre consegue transformar em palavras.
Por trás de uma dificuldade de aprendizagem, de uma reação agressiva, do isolamento ou da indisciplina, pode existir um pedido de ajuda que ainda não encontrou outra forma de se expressar. Nem todo silêncio significa tranquilidade. Às vezes, o estudante que menos fala é justamente aquele que mais precisa ser escutado.
É nesse contexto que a campanha brasileira de conscientização e prevenção ao suicídio assume enorme importância. O Setembro Amarelo contribui para romper tabus e lembrar que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Mas sua mensagem não pode ficar restrita a cartazes, palestras isoladas ou atividades realizadas durante um único mês. A valorização da vida precisa estar presente no cotidiano das escolas durante todo o ano.
A escola ocupa um lugar central na vida de crianças e adolescentes. É nela que convivem, constroem amizades, enfrentam conflitos, descobrem habilidades e aprendem a lidar com frustrações. Também é nesse ambiente que podem se tornar visíveis situações de ansiedade, solidão, bullying, discriminação, violência e sentimentos de inadequação.
O psicólogo norte-americano Thomas Joiner, em sua teoria interpessoal do comportamento suicida, chama atenção para sentimentos como a ausência de pertencimento e a percepção de ser um peso para as outras pessoas. Essa reflexão ajuda a compreender por que o acolhimento e a construção de vínculos são tão importantes. Uma escola na qual o estudante se sente visto, respeitado e parte de uma comunidade também se transforma em espaço de proteção.
Nesse processo, o desenvolvimento das competências socioemocionais é fundamental. Autoconhecimento, autocuidado, empatia, cooperação, capacidade de relacionamento e tomada responsável de decisões não são aprendizagens secundárias. Elas ajudam crianças e jovens a compreender o que sentem, reconhecer limites, enfrentar frustrações, construir relações saudáveis e procurar ajuda.
Trabalhar essas competências não significa ensinar o estudante a esconder a tristeza ou suportar silenciosamente a dor. Ao contrário: significa ajudá-lo a nomear suas emoções, comunicar seu sofrimento e compreender que pedir ajuda é uma atitude de coragem. A própria Base Nacional Comum Curricular reconhece competências como autoconhecimento, autocuidado, empatia e cooperação como dimensões essenciais da formação humana.
Em minha trajetória, vi estudantes recuperarem a confiança porque um professor percebeu que algo não estava bem. Vi equipes escolares mobilizarem famílias, profissionais da saúde e serviços de proteção. Vi a arte, o esporte, a cultura e os projetos coletivos devolverem a muitos jovens a possibilidade de se expressar, construir vínculos e reencontrar perspectivas de futuro.
Essas experiências me ensinaram que a escola nem sempre terá todas as respostas, mas não pode permitir que as perguntas ignoradas continuem sem voz e sem atenção.
Isso não significa transformar professores em psicólogos ou atribuir aos educadores responsabilidades clínicas. Significa preparar os profissionais da escola para reconhecer mudanças preocupantes, acolher sem julgamento e acionar a família e a rede especializada. A escola não substitui o cuidado profissional, mas pode ser a ponte entre o sofrimento e a ajuda.
Em Mato Grosso do Sul, essa compreensão está presente no trabalho da Secretaria de Estado de Educação. Por meio da Coordenadoria de Psicologia e Serviço Social Educacional, a SED atua na articulação das escolas com as áreas da saúde, assistência social, justiça e segurança pública, buscando assegurar suporte pedagógico e socioassistencial, proteção de direitos e condições para que os estudantes permaneçam na escola.
Esse olhar tem resultado em iniciativas concretas. Na Escola Estadual Dom Aquino Corrêa, em Três Lagoas, estudantes produziram murais e mensagens acolhedoras e participaram de palestras e ações de conscientização. Em Corumbá, a Escola Estadual Dr. João Leite de Barros desenvolveu o projeto “Mais Amor, por favor!”, com rodas de conversa e atividades voltadas ao autoconhecimento, à inteligência emocional e ao enfrentamento da ansiedade, da depressão e do bullying.
Na Escola Estadual Maria da Glória Muzzi Ferreira, em Três Lagoas, os próprios estudantes criaram o portal Superatio, reunindo informações sobre saúde emocional e orientações para a busca de apoio profissional. São experiências que demonstram como a prevenção se fortalece quando os jovens deixam de ser apenas destinatários e passam a participar da construção das ações.
O psiquiatra brasileiro Neury José Botega, uma das principais referências nacionais na prevenção ao suicídio, ressalta a necessidade de levar a sério os sinais de sofrimento e superar a ideia equivocada de que seriam apenas tentativas de “chamar atenção”. Quando alguém demonstra uma dor profunda, a atenção é justamente aquilo de que necessita. Acolher, escutar e encaminhar podem fazer uma diferença decisiva.
As famílias também precisam fazer parte desse compromisso. Escola e família não devem procurar culpados, mas construir caminhos de cuidado. Quando existe diálogo e articulação com os serviços de saúde e assistência social, aumentam as possibilidades de uma intervenção segura e no momento necessário.
O suicídio é um fenômeno complexo, relacionado a fatores sociais, familiares, psicológicos, culturais e individuais. Não existe uma causa única, e nenhuma tragédia deve ser explicada de maneira apressada. Toda abordagem precisa evitar julgamentos, exposição indevida, romantização da dor e mensagens simplistas.
Depois de tantos anos na educação, tenho cada vez mais convicção de que educar não é somente ensinar conteúdos ou preparar para o mercado de trabalho. É formar pessoas capazes de compreender suas emoções, conviver com as diferenças e construir relações saudáveis. É proteger o presente para que o futuro continue sendo uma possibilidade.
Nenhuma escola pode resolver sozinha todas as dores do mundo. Mas toda escola pode ajudar a garantir que nenhum estudante precise enfrentá-las sozinho.
Cuidar também é educar. E, em determinados momentos, esse cuidado pode salvar uma vida.
Hélio Queiroz Daher
Secretário de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul
*Quem estiver passando por sofrimento emocional deve procurar uma pessoa de confiança e os serviços de saúde de sua cidade. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas. Em situação de risco imediato, é necessário buscar um serviço de urgência.*