Opinião
OPINIÃO: Quando a merenda alimenta também a comunidade
Um prato de comida servido em uma escola pública nunca é apenas um prato de comida. Há muito mais ali. Há cuidado, saúde, aprendizagem e permanência na escola. Mas há também agricultura, trabalho, renda e desenvolvimento. Quando compreendemos essa dimensão, a alimentação escolar deixa de ser vista apenas como uma obrigação do poder público e passa a ser entendida como uma política capaz de transformar o território onde a escola está inserida.
Essa compreensão está na própria concepção do Programa Nacional de Alimentação Escolar, o PNAE. A alimentação adequada durante o período escolar contribui não apenas para atender às necessidades nutricionais dos estudantes, mas também para seu desenvolvimento, aprendizagem e formação de hábitos alimentares saudáveis.
É uma relação aparentemente simples, mas fundamental: é muito mais difícil ensinar quando a fome ocupa o lugar da atenção.
Josué de Castro, um dos grandes estudiosos brasileiros da fome e da alimentação, ajudou o país a compreender que a fome não pode ser tratada como uma fatalidade individual ou natural. Ela é também resultado das condições sociais e econômicas de uma sociedade. Essa compreensão continua atual quando pensamos no papel da escola pública. Garantir alimentação adequada é também criar condições para que o estudante possa aprender e se desenvolver.
A experiência da Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul nos permite enxergar essa política em grande escala.
São mais de 250 mil refeições servidas diariamente nas escolas estaduais. Se considerarmos o número de refeições preparadas e servidas todos os dias, podemos dizer que a educação estadual administra, na prática, a maior rede de restaurantes de Mato Grosso do Sul.
Por trás de cada prato existe uma grande operação de planejamento, compra, armazenamento, preparo, acompanhamento nutricional e prestação de contas. E o modelo adotado pela Rede Estadual possui uma característica importante: a aquisição dos gêneros alimentícios é descentralizada, com as próprias unidades escolares realizando suas compras, dentro das regras, dos cardápios e das orientações técnicas estabelecidas.
Essa opção aproxima a gestão dos recursos da realidade de cada escola e de cada comunidade.
Em um Estado com a extensão territorial e a diversidade de Mato Grosso do Sul, isso faz diferença. A realidade de uma escola localizada na Capital não é necessariamente a mesma de outra situada na fronteira, no Pantanal ou em um pequeno município do interior. A descentralização permite que a execução da política dialogue melhor com essas diferenças.
Mas há uma dimensão desse modelo que merece ainda mais atenção: a escola também faz parte da economia da comunidade onde está inserida.
Quando uma escola compra alimentos em sua região, o dinheiro público não percorre apenas o caminho entre o orçamento e o prato do estudante. Ele circula. Chega ao produtor rural, às cooperativas, aos fornecedores e aos pequenos negócios. Movimenta o comércio, estimula a produção, gera riqueza e ajuda a criar e preservar empregos.
E estamos falando de um impacto expressivo. Somente em 2026, são R$ 83 milhões destinados à aquisição de alimentos pelas escolas da Rede Estadual. Pela natureza descentralizada do modelo, esse recurso possui capacidade de movimentar as economias locais nos municípios onde nossas escolas estão presentes.
Há um efeito social importante nessa circulação. O recurso que compra o alimento gera atividade econômica; essa atividade gera renda e emprego; e esses empregos alcançam também pais, mães e familiares dos estudantes que frequentam nossas escolas.
Assim, em determinadas comunidades, o recurso público destinado a colocar comida no prato do estudante pode contribuir também para colocar renda dentro da casa desse mesmo estudante.
A escola compra na comunidade, a compra movimenta a economia, a economia gera trabalho e o trabalho sustenta famílias.
É nesse ponto que a agricultura familiar ganha uma importância ainda maior.
No mínimo 30% dos recursos federais do PNAE destinados à aquisição dos alimentos devem ser aplicados na compra direta da agricultura familiar. Essa política cria mercado para pequenos produtores, associações e cooperativas e aproxima a produção local das escolas.
Não se trata apenas de cumprir um percentual. Quando a escola compra frutas, verduras, legumes e outros produtos da agricultura familiar, estamos falando de alimentos que saem do campo e chegam ao prato dos estudantes. Mas estamos falando também de renda que faz o caminho inverso: sai da escola e chega ao produtor.
Em algumas comunidades, quem planta o alimento servido na escola pode ser pai, mãe, avô, avó ou familiar de quem está sentado na sala de aula.
É uma relação poderosa. O alimento percorre poucos quilômetros, enquanto o recurso que o compra circula por muitas mãos dentro da própria comunidade.
Essa lógica é reconhecida internacionalmente. Programas de alimentação escolar que utilizam a produção local não são vistos apenas como políticas nutricionais. Eles também podem fortalecer pequenos produtores, gerar empregos, ampliar renda e estimular sistemas alimentares locais mais sustentáveis.
Forma-se um círculo virtuoso: a agricultura familiar produz, a escola compra, o estudante se alimenta, a compra gera renda, a renda sustenta empregos e parte dessa riqueza permanece no território onde vivem nossos estudantes.
Há ainda outro compromisso indispensável: a qualidade daquilo que colocamos no prato.
A redução da presença de alimentos ultraprocessados e a ampliação dos alimentos in natura ou minimamente processados representam uma mudança importante na alimentação escolar. Não se trata apenas de trocar um produto por outro. Trata-se de reconhecer que a escola também participa da construção dos hábitos alimentares de crianças e adolescentes.
Aquilo que colocamos no prato todos os dias também educa.
Uma criança que encontra frutas, verduras, legumes e refeições preparadas com ingredientes básicos no ambiente escolar vivencia cotidianamente outras possibilidades de alimentação. Nesse sentido, o próprio cardápio pode ser compreendido como instrumento de educação alimentar.
E fortalecer a agricultura familiar e reduzir os ultraprocessados são duas escolhas que se encontram justamente nesse ponto: quanto mais aproximamos a escola dos alimentos produzidos no território, maior é a possibilidade de oferecer comida fresca, diversificada e conectada aos hábitos e à cultura alimentar de cada região.
É claro que um modelo descentralizado traz responsabilidades. Autonomia não pode significar ausência de acompanhamento. São indispensáveis o planejamento dos cardápios, a atuação dos nutricionistas, a orientação às equipes escolares, o controle da qualidade dos produtos, a fiscalização e a correta aplicação dos recursos públicos.
O desafio é fazer com que a possibilidade de comprar mais perto signifique também comprar melhor.
A experiência da Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul mostra que alimentação escolar, aprendizagem, agricultura familiar, geração de emprego e desenvolvimento local podem caminhar juntos.
Quando mais de 250 mil refeições são servidas todos os dias, R$ 83 milhões são destinados à aquisição de alimentos somente em 2026 e uma parcela importante dos recursos é direcionada à agricultura familiar, cada decisão tomada nessa política ganha uma dimensão muito maior.
Reduzir ultraprocessados significa melhorar centenas de milhares de refeições. Comprar da agricultura familiar significa transformar o poder de compra do Estado em mercado e renda para quem produz. Descentralizar significa fazer o recurso circular mais perto das pessoas, movimentando pequenos negócios e ajudando a sustentar empregos nas comunidades onde nossas escolas estão presentes.
Por isso, quando olho para um prato servido em nossas escolas, não vejo apenas uma refeição.
Vejo o estudante que se alimenta, o produtor que encontra mercado, o comércio que se movimenta, o trabalhador que encontra emprego e a família que leva renda para casa.
A maior rede de restaurantes de Mato Grosso do Sul não existe para vender refeições. Existe para alimentar estudantes. Mas, ao fazer isso, pode fazer muito mais: alimentar a aprendizagem, fortalecer a agricultura familiar, movimentar a economia e gerar trabalho e renda justamente nas comunidades onde vivem nossas crianças e nossos jovens.
A merenda começa no prato. Mas seus efeitos chegam muito além dos muros da escola.